Chris Warde-Jones/The New York Times
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O efeito Ferrante: na Itália, escritoras estão em ascensão

Ascensão de Elena Ferrante e a redescoberta de algumas grandes escritoras italianas do século passado incentivaram o surgimento de uma nova safra de mulheres escritoras e sacudiram o establishment literário do país

Anna Momigliano, The New York Times

13 de dezembro de 2019 | 14h38
Atualizado 16 de dezembro de 2019 | 14h16

ROMA - Na Itália, a ficção literária sempre foi considerada ofício masculino. Editores, críticos e comitês que outorgam prêmios descartavam livros escritos por mulheres como literatura para moças de baixa qualidade, tendo ridicularizado Elena Ferrante, autora de A Amiga Genial, qualificando-a como uma escritora de livros de leitura rápida.

Depois desse romance napolitano de Elena Ferrante se tornou sensação internacional, vendendo mais de 11 milhões de exemplares, inspirando uma série aclamada da HBO e consolidando a reputação dela como a mais bem-sucedida romancista italiana em anos. Sua ascensão e a redescoberta de algumas grandes escritoras italianas do século passado incentivaram o surgimento de uma nova safra de mulheres escritoras e sacudiram o establishment literário do país. As escritoras italianas estão conquistando prêmios de prestígio, sendo traduzidas e com vendas substanciais dos seus livros.

Suas realizações desencadearam um debate na Itália sobre o que é literatura num país onde a virtuosidade e marco referencial com frequência são avaliados com base na narrativa e na ressonância emocional e temas como sexismo ou o papel social de gênero.

“Outrora relutávamos a escrever sobre determinados assuntos, temendo que fossem rotulados como “coisa de mulher”, disse Veronica Raimo, autora de The Girl at the Door, em que ela explora temas como casamento, gravidez e acusações de abuso sexual. “Havia esta ideia de que histórias contadas por mulheres não eram universais. Mas isto está mudando”.



Uma autora a ver o avanço do seu trabalho em primeira mão é Helena Janeczek que publica livros há décadas, mas que no ano passado foi a primeira mulher, em 15 anos, a conquistar o Prêmio Strega, láurea literária do país.

“Foi um bom intervalo de tempo, não?” Mas não me surpreendeu. Os tempos estão mudando”, disse ela.

O livro que deu a ela o prêmio, publicado em outubro em inglês com o título The Girl with the Leica, é um romance histórico sobre a fotógrafa de guerra Gerda Taro, morta em 1937 quando documentava a Guerra Civil Espanhola com seu namorado e colega, o famoso Robert Capa.

Nos últimos dois anos, romances escritos por mulheres representaram metade dos 20 sucessos de venda na Itália no campo da ficção - quase o dobro do porcentual de 2017, segundo dados da Informazioni Editoriale que monitora as vendas das livrarias na Itália.

Em entrevistas, autores, editores, críticos, tradutores e editores italianos disseram que as mulheres escritoras despertaram uma atenção extraordinária, que alguns chamam de “efeito Ferrante”.

A Amiga Genial e outros romances de Ferrante (seu mais recente, La Vita Bugiarda Degli Adulti, lançado no mês passado na Itália e com previsão de um lançamento em inglês, com o título The Lying Life of Adults, para o próximo ano)  mostrou que “existe um mercado de ficção escrita por mulheres”, disse Daniela Brogi, estudiosa de literatura contemporânea na Universidade para Estrangeiros de Siena. “E conferiram dignidade literária à ficção sobre mulheres”.

Os críticos antes ignoravam histórias sobre vínculos entre mulheres. Isto mudou.

Três livros recentes muito falados mergulham nas relações entre mãe e filha. O livro A Girl, Returned, de Donatella Pietrantonio, lançado no meio deste ano em inglês, é uma história de passagem para a idade adulta que tem como cenário a zona rural no sul da Itália. La Straniera, de Claudia Durastanti, relata sua educação numa família disfuncional entre o Brooklyn e a Basilicata. O romance Addio Fantasmi, de Nadia Terranova conta a história de uma mulher de 30 anos se defrontando com seu passado doloroso numa viagem de volta à casa para ver a mãe.

Veronica Raimo, autora de The Girl at the Door, disse que os leitores mais jovens na Itália se tornaram mais aberto às escritoras em parte porque leram livros de mulheres em traduções.

“Eles sabem que existem países em que ter uma Jennifer Egan ou Zadie Smith é normal”, disse ela.



Mas grande parte das novas escritoras atribui esse impulso a escritora que tem como pseudônimo Ferrante, que se mantém anônima mesmo com seus livros se tornando sucesso de vendas (algumas pessoas especulam que ela pode ser Anita Raja, uma famosa tradutora de obras literárias casada com o escritor Domenico Starnone, e encontraram evidências da mão dele no trabalho dela).

“Mas o fato é que Elena Ferrante gerou o interesse internacional nos escritores italianos em geral.

“Há uma empolgação global em torno dos escritores italianos, incluindo muitas mulheres e até minorias e devemos muito a ela”, disse Igiaba Scego, escritora italiana somali. Seu romance, Beyond Babylon, que explora os traumas da experiência como imigrante através dos olhos de suas mulheres, foi traduzido para o inglês este ano depois de publicado na Itália há dez anos.

Algumas novas traduções são de livros ainda mais antigos.

Uma nova tradução em inglês de Family Lexicon, uma obra prima de Natalia Ginzburg de 1963, foi lançada em 2017. Três outros romances foram relançados este ano, dois deles em novas traduções. Outra grande escritora do período pós-guerra na Itália, Elza Morante (que Ferrante citou como sua fonte de inspiração) terá uma nova tradução este ano, juntamente com seu clássico Arturo’s Island.

Mas as escritoras italianas ainda enfrentam obstáculos.

“O problema não é publicar ou vender os livros”, disse Janeczek. “É ser reconhecido”.

Segundo ela, as mulheres no geral ainda são mantidas longe do cânone italiano e o sucesso de Ferrante no exterior não vai torná-la mais próxima. “Quando ela recebeu todo esse reconhecimento fora do país, nossos críticos disseram: “Vejam, esses americanos acham que ela é uma grande escritora”.

Em 2015, quando Ferrante tinha uma enorme aclamação, o escritor Francesco Longo escreveu no jornal italiano Il Messagero que “Ferrante é uma grande contadora de histórias. Mas não é escritora”.

Tiziana de Rogatis, crítica cujo livro sobre o estilo de Elena Ferrante foi publicado neste mês nos Estados Unidos, disse que ela, como Morante, é uma pensadora sofisticada que escreve para ser compreendida. Os acadêmicos, eventualmente consideram grandes escritores “populares junto ao público”.

Alguns escritores e professores de literatura afirmam que o elitismo incrustrado, mais do que o sexismo aberto, impede as mulheres de serem reconhecidas.

“Há uma ideia generalizada aqui de que a ficção literária tem de ser virtuosa e um marco referencial”, afirmou Elisa Gambaro, da Universidade de Milão. Assim a ficção que é sucesso comercial com frequência é desacreditada.

 “Falando claramente, as escritoras tendem a ser menos consideradas uma referência porque não estão muito acostumadas a se ver como centro do mundo”, disse Brogi. Para ela, as mulheres desenvolveram uma linguagem literária para se fazerem melhor compreender - e incidentalmente, mais fáceis de traduzir - porque são com frequência ignoradas. “É uma condição que Elena Ferrante eloquentemente cunhou como “smarginatura”, ou ser colocada à margem.

Mas a nova safra de escritoras vem forçando sua entrada no centro.

“Apoiamos umas as outras e vimos contestando essa política de dois pesos e duas medidas. Esse senso de irmandade não existia há alguns anos”, disse a escritora Claudia Durastani.

Para Nadia Terranova  os resultados já podem ser observados.

“A Itália sempre teve grandes escritoras. O fato novo é que pela primeira vez elas começam a ser reconhecidas”.

Tradução de Terezinha Martino

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