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O Charlie negro da 'Fantástica Fábrica de Chocolate’

Segundo a viúva de Roald Dahl, autor do livro, o menino tornou-se branco quando o livro foi levado ao cinema

Maria Russo, The New York Times

01 Outubro 2017 | 06h00

A viúva de Roald Dahl, Felicity Dahl, revelou na semana passada à BBC que o autor de livros infantis havia escrito um primeiro esboço de A Fantástica Fábrica de Chocolate no qual Charlie Bucket era negro. Felicity acha “uma vergonha” que o agente literário tenha persuadido o marido a transformar Charlie em branco. Mas que havia no esboço, chamado Charlie’s Chocolate Boy? Chaterine Keyser, professora de inglês na Universidade da Carolina do Sul, falou sobre essa versão descartada da clássica história.

Como é a trama de Charlie’s Chocolate Boy?

É parecida com a de A Fantástica Fábrica de Chocolate: há a fábrica mágica e seu dono, Willie Wonka, que é assediado por crianças que querem visitá-la. Então, ele decide, em vez de receber centenas de crianças, distribuir sete ingressos dourados. É mais ou menos a mesma história, mas alguns dos nomes são diferentes: Augustus Gloop, por exemplo, é Augustus Pottle. Veruca Salt aparece ao lado de Marvin Prune e Miranda Piker. Charlie Bucket, que nessa versão é um garoto negro, está acompanhado pelos pais dedicados.

Todos os outros são brancos? 

Sim. Charlie acaba indo parar no Easter Room, onde há fôrmas de doces do tamanho de uma pessoa, uma delas no formato de um garoto. Charlie fica fascinado por ela. Wonka o ajuda a entrar na fôrma e se distrai. A fôrma então se fecha sobre Charlie, que é coberto por chocolate líquido e quase é sufocado. Quando a cobertura endurece, o garoto está preso. Continua vivo, mas ninguém o ouve e ninguém sabe onde ele está. Ainda imobilizado dentro do molde, Charlie é levado para a casa de Wonka para ser o garoto de chocolate da cesta de Páscoa do seu filho. Charlie tem de esperar até que o molde seja aberto, no dia seguinte, quando o filho de Wonka ganhar suas guloseimas de Páscoa. Mas, nessa noite, ladrões entram na casa. Charlie vê tudo – há pequenas aberturas para os olhos no invólucro de chocolate – e começa a grunhir para alertar Wonka e a mulher.

Wonka tinha mulher?

Há uma grande mudança em relação à versão publicada, na qual Wonka é solteiro e Charlie se torna seu herdeiro. Nesse texto inicial, Charlie não fica herdeiro, pois Wonka já tem um filho. Assim, o Charlie negro não entra para a família. Sua recompensa é a loja que Wonka lhe dá. 

Dahl tinha fama de ser muito ofensivo quando o assunto era raça. Acha que essa versão poderia ter mudado o modo como vemos o tema raça em seus livros?

Acho que essa versão tem uma poderosa alegoria racial, que surpreende por vir de Dahl. O garoto de chocolate é uma metáfora de um estereótipo racista. No início do século 20, no marketing do chocolate nos EUA e na Inglaterra havia uma conexão entre a pele negra e o marrom do chocolate. Num anúncio britânico de chocolate da época, por exemplo, aparecia uma sorridente figura negra distribuindo amêndoas de cacau a crianças brancas. Portanto, naquele momento, Dahl prendeu um garoto negro num molde no qual ele cabia perfeitamente – Dahl enfatiza isso. Assim, que símbolo melhor de estereótipo racial que um garoto negro preso numa fôrma?

Você está dizendo que esse esboço era antirracista, mas aí Dahl publica o livro e nele aparecem os Umpa-Lumpas, o que torna a obra um dos livros mais racialmente estereotipados de sua época...

Certo. A Fantástica Fábrica de Chocolate foi publicado nos EUA em 1964, em meio ao movimento pelos direitos civis no país e às revoltas antirracistas da Inglaterra. Dahl deveria saber que o “escravo feliz” não era um estereótipo tolerável. Também nessa versão original os Umpa-Lumpas eram uma tribo de pigmeus africanos. Acho que a passagem de uma versão antirracista para uma justamente criticada por seu racismo mostra a ambivalência de Dahl. Estamos no momento cultural certo para entender isso. Precisamos entender como as pessoas brancas imaginam as raças. Assim, acho que é realmente revelador que Roald Dahl pareça se identificar com esse personagem vulnerável. Ele mesmo era filho de imigrantes noruegueses, sofrendo bullying em internatos ingleses. Creio que nunca se sentiu verdadeiramente britânico. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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