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DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

O centenário do pensador Edgar Morin

Homenagens no Brasil e no mundo ao filósofo e sociólogo humanista francês que lança ‘Lições de um Século de Vida’

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2021 | 20h00

Edgar Nahoum viu muita coisa em sua vida. Na Paris onde nasceu, ainda se sentia no ar o baque europeu com a 1ª Guerra, fim da belle époque, como escreveria mais tarde o historiador Eric Hobsbawm. Viu o crack da Bolsa em 1929 e suas repercussões globais, assistiu à ascensão do nazismo na Alemanha e à invasão da França em 1940. Engajado na Resistência durante a 2ª Guerra, adotou o codinome Morin e o manteve findo o conflito. Edgar Morin completa cem anos nesta quinta-feira, dia 8 de julho. Todas as homenagens estão lhe sendo prestadas mundo afora, no Brasil inclusive, não apenas por ter atingido idade tão avançada em plena lucidez, mas por ser, provavelmente, o último representante dessa espécie rara, o intelectual engajado e humanista.


 

Em sua longa trajetória, Morin escreveu cerca de 80 livros. O mais recente acaba de ser lançado na França, com um título que não poderia ser diferente: Leçons d'un Siècle de Vie (Editions Denoël). Nessas lições de um século, faz um balanço de existência, aponta alguns impasses da humanidade, sugere saídas e reconhece alguns erros, coletivos e individuais. 

Dois, em particular, relacionados à política e seus efeitos mortíferos. Seu radical pacifismo de jovem o impediu de perceber durante algum tempo a natureza mortífera do nazismo e a necessidade de enfrentá-lo. No reverso, o encantamento com a sociedade igualitária da União Soviética o levou a minimizar, também por algum tempo, o regime totalitário de Josef Stalin

Os homens erram porque a névoa da história é espessa, mas podem corrigir-se. Ele mesmo diz que "A história humana é relativamente inteligível a posteriori, mas sempre imprevisível a priori." Não se adivinha o que está por vir. Mas pode se tentar compreender o que passou. O conhecimento não é uma vacina de eficácia total contra os equívocos históricos, mas a compreensão é necessidade humana, pode indicar caminhos e evitar desvios. Só o conhecimento nos faz avançar e nos dá alguma chance na luta inglória contra a barbárie, sempre à espreita nas esquinas da história como assistimos em nossos dias atuais. 

Não espanta que, como humanista, Morin tenha em sua longa vida se empenhado em debater a questão crucial do conhecimento humano e seu relacionamento com a educação. Neste livro recente, ele recorda as perguntas de Kant: "O que posso conhecer? O que fazer do que conheço? O que posso esperar?" Perguntas do iluminismo. 

Como estrelas-guias, tais indagações o levam a pensar sobre a natureza do conhecimento e suas derivas. Uma delas, grave e fatal, como o excesso de especialização dos nossos dias, conduz a uma separação radical entre os saberes. Engenheiros não conhecem a história humana, economistas ignoram a cultura, biólogos desprezam a psicanálise, e assim por diante. Mesmo no interior das disciplinas, a especialização torna-se radical. Um médico ocupa-se do fígado, outro do coração, um terceiro dos rins e assim por diante. O corpo do paciente, o organismo em seu todo, é ignorado. 

Morin entende que a natureza humana, em sua complexidade (nele, este conceito é fundamental), só pode ser abordada quando diversas disciplinas conversam entre si. O homem é ele e a sociedade na qual vive. Ele e sua história. Mas é também um ser biológico, em determinado meio ambiente, num planeta que orbita um sistema solar, numa galáxia menor chamada Via-Láctea. O conhecimento tem essa vocação cósmica, em que tudo se relaciona com tudo, não por capricho epistemológico, mas porque assim é na realidade. 

Em outro livro, com o sugestivo título de A Cabeça Bem-feita (Bertrand Brasil), Morin defende esse tipo de formação polivalente. Este é um texto que teve interessante origem. Em 1997, o então ministro da Educação da França, Claude Allègre, o convidou para presidir o conselho científico de  um projeto de reforma do ensino médio. O livro é resultado das reflexões do pensador e das recomendações feitas ao governo. Apesar de escrito sob encomenda, e para uma determinada realidade, tem luz própria e valor universal. 

Nele, Morin defende a tese de que um problema - em qualquer área - só pode ser corretamente equacionado quando colocado em seu contexto. E o próprio contexto deve ser colocado em um contexto maior, em escala planetária. Era o que se chamava, muito tempo antes, de "pensamento em bloco". Você não chega a nada, ou a muito pouco, se olhar apenas para determinado objeto, sem levar em conta os outros com os quais ele se relaciona e interage. 

Mas, atenção, isso não quer dizer que o simples acúmulo de informações de diversas áreas tenha como resultado o aumento de compreensão. É quase o contrário. Nosso celular passa o dia piscando com informações de última hora sem que essa sobrecarga de novidades beneficie nosso entendimento sobre o que está acontecendo no mundo. Pelo contrário. O empilhamento de fatos não raro implica em confusão e não em discernimento. Por isso Morin cita um dos seus ídolos, Michel de Montaigne, que escreveu, no século 16: "Mais vale uma cabeça bem-feita que bem cheia". Percebem de onde saiu o título do livro? Das reflexões do célebre autor dos Ensaios

Portanto, o pensamento diversificado e interdisciplinar tem de estar bem organizado para funcionar. Não pode ser reducionista ou binário; não pode também ser anárquico. O detalhismo obsessivo não conduz à sabedoria, mas a bagunça intelectual também não. 

Se o ordenado diálogo entre as disciplinas melhora nossa visão de mundo, o contato frequente com as artes a aguça ainda mais. "São o romance e o filme que põem à mostra as relações do ser humano com o outro, com a sociedade, com o mundo...O milagre de um grande romance, como de um grande filme, é revelar a universalidade da condição humana, ao mergulhar na singularidade de destinos individuais localizados no tempo e no espaço", escreve Morin.

Cabe lembrar que ele próprio é autor de um grande filme, em parceria com Jean Rouch. Em Crônica de um Verão (1961), os dois percorrem as ruas de Paris fazendo aos transeuntes uma simples pergunta: "Você é feliz?" As respostas são surpreendentes e desenham uma França ainda angustiada no pós-guerra mundial, atormentada pela questão da independência da Argélia e inquieta quanto ao futuro. Compreende-se. Não é mesmo fácil dar resposta categórica a essa pergunta. Cada ser humano é um mundo e esconde dentro de si abismos de ambivalências e contradições. O ser humano é múltiplo e não aceita definições simplistas. O que Crônica de um Verão faz é explicitar essa complexidade. 

O longo trabalho de Morin nos ajuda a compreender a imensidão da nossa própria humanidade e a dos outros. Sem esgotá-las, porque isso é impossível. E sem nos apegarmos a certezas, porque estas são enganadoras. Gosta de uma frase de Dante Alighieri, muito citada por Montaigne: "Tanto quanto o saber, agrada-me a dúvida". 

Só os tolos, os tiranos e os fanáticos religiosos sustentam certezas absolutas. O espírito livre tem na dúvida a companheira inseparável do saber. O conhecimento pode ser um pouco como o oráculo de Delfos, conforme o definiu o filósofo pré-socrático Heráclito, um dos favoritos de Edgar Morin: "Não afirma, não esconde, mas sugere". 




 

Principais livros de Edgard Morin:

  • O Método (seis volumes). Editora Sulina. Talvez sua obra-prima, O Método faz a crítica do pensamento reducionista e institui a necessidade de uma nova cientificidade, marcada pela transdisciplinaridade. 
  • Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro (Cortez Editora). Morin desenvolve os temas: As cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão; Os princípios do conhecimento pertinente; Ensinar a condição humana; Ensinar a identidade terrena; Enfrentar as incertezas; Ensinar a compreensão; e A ética do gênero humano.
  • Introdução ao Pensamento Complexo (Sulina). Tudo se interliga. Como num holograma, a parte está no todo e o todo está na parte. Em linguagem simples, Morin esmiúça os fundamentos do seu pensamento complexo, em oposição a todo reducionismo e simplismo. 
  • Minha Paris, Minha Memória (Bertrand Brasil). Em delicioso tom memorialístico, Morin descreve os bairros parisienses em que morou ao longo da vida. Em especial a rua Menilmontant, no 20 ème arrondissement, onde viveu a adolescência e se deixou influenciar pelo ambiente popular do bairro. 

 

Homenagem no Brasil

O Sesc promoveu duas lives em homenagem ao centenário do filósofo, que esteve diversas vezes em nosso país: as Jornadas Edgar Morin, a vida em tempos de incertezas e a construção do futuro. Com a presença de Morin e debate com especialistas em sua obra. Veja abaixo:

 

 

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