O canto unânime de Jorge de Lima

Nos 60 anos de morte do escritor alagoano, obra poética ganha reedição com textos de Murilo Mendes

Mariana Ianelli - Especial para O Estado de S. Paulo, O Estado de S. Paulo

20 Junho 2014 | 19h01

Com a reedição de Invenção de Orfeu do alagoano Jorge de Lima ilumina-se uma vertente da poesia brasileira da década de 1950 que frustrou a suspeita niilista de que um poeta teria perdido para o caos do século suas aspirações totalizantes. 

Impressiona o frescor dos Cantos na sua policromia de falas, no seu pentagrama de cores, com vivo sentido místico, político, social, filosófico e humano. Com a fundação de uma ilha, refunda-se uma pátria “de devastadores e assassinos” em meio a paisagens bíblicas de dilúvios, desertos de fé, babéis, apocalipses; há sempre conjuras, guerras, “quem hoje enforca / (..) / essa Lídice, esse Lorca”; e há translações, viagens de navegação que se reinventam em jornadas interestelares; há esse mítico apelo aos descobrimentos tanto nos céus quanto nos mares; e a Musa permanece, “refeita das fogueiras”, reaparecendo para o poeta dentro da Rosa Mística, com sua face ardente de amor, face de Inês em Mira-Celi, espelho de Beatriz no Empíreo de Dante.

Para Jorge de Lima é a geofagia que nos une. Numa pátria onde “nós choramos, timbiras, nós covardes, / nós nos comendo pra nos conhecer, / sofrendo os nossos dentes em nós mesmos”, o poeta é este Orfeu esquartejado, este Lorca perseguido, este Cristo de novo crucificado, todos rebuscando unidade. A ilha da epopeia - uma epopeia cujo drama é aquele da fragmentação espiritual de um século - não tem lugar no espaço, é um lugar em Deus. Trata-se de um continente místico, da forma de uma fome de concórdia. A claridade dos dez Cantos, para além das formas e dos signos, no mistério de seus círculos e números, está num canto unânime, litúrgico, invitatório, que reclama para a poesia o lugar de uma ardentia entre tempo e eternidade, entre real e suprarreal, entre chão e céu, o meio do caminho, o metaxu. 

Das leituras do poema já realizadas pela crítica e reunidas no apêndice da reedição, vale considerar à parte os textos de Murilo Mendes, que se sobressaem como testemunho de um poeta em comunhão com outro, dando-lhe com isso o mérito de transcender os rigorismos da teoria literária para tocar o ponto de uma rara elucidação da obra tanto de Jorge de Lima quanto de Murilo: o fato de ambos terem encontrado na teologia paulina que “o universo é um sistema de coisas invisíveis manifestadas visivelmente”.

Na abertura do Canto IV (“As Aparições”), o poeta adverte: “Se vós não tendes sal-gema, / não entreis nesse poema”. Aí ressoa o Si non credideritis, non intelligetis/non permanebitis do Livro de Isaías. O sal-gema da compreensão de Invenção, em sua ambição épica entre esplendor e paixão, é essa “fé capaz de vidas”. Por isso, por essa fé, Murilo afirmava que o trabalho de exegese do poema precisa ser feito aos poucos, por “críticos que o abordem com amor, ciência e intuição”. Só nessa leitura trinitária é que a unidade de Invenção pode ser compreendida em sua liberdade de criar, sem mapas ou roteiros previstos, “um canto jucundo / de guerra contra guerreiros / de poetas e cordeiros, / cordeiros que fazem corda / para unir os corações”.

Invenção de Orfeu

Autor: Jorge de Lima

Editora: Cosac Naify (672 págs., R$ 69,90) 

Mariana Ianelli é poeta e autora de O Amor e Depois e Treva Alvorada, entre outros

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