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O agridoce Maria

Tente imaginar uma sala com Chico Anysio, Sérgio Porto, Haroldo Barbosa e Antonio Maria trocando ideias, criando piadas e situações cômicas

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2021 | 03h00

Entre sonhar com uma vaga entre os comensais da Mesa Redonda do Algonquin, na Nova York de cem anos atrás, reservada àquela plêiade de intelectuais fortemente armados de frases lapidares, e presenciar o papo vadio dos humoristas da Rádio Mayrink Veiga, na década de 1950, meu coração balança. 

Tente imaginar uma sala com Chico Anysio, Sérgio Porto, Haroldo Barbosa e Antonio Maria trocando ideias, criando piadas e situações cômicas para programas como A Cidade se Diverte, Levertimentos e Vai da Valsa. E reconheçam: meu coração não balança à toa.

Muito amigos (foi Barbosa quem revelou a vis comica do futuro Stanislaw Ponte Preta, levando-o para o rádio), todos eles ajudaram a colorir os melhores anos de minha vida. Dois deles, Sérgio e Antonio Maria, morreram na flor da idade (45 e 43 anos, respectivamente) e do mesmo mal: “cardisdisplicência”, neologismo cunhado por Maria e aplicável aos boêmios e workaholics desatentos às insuficiências das coronárias. 

Sérgio enfartou em casa e morreu no hospital; Maria, na calçada de seu restaurante favorito, Le Rond Point, também em Copacabana. Já era madrugada: a hora certa, o cenário perfeito para a última despedida de nosso mais sensível cronista da noite, o que melhor entendeu que quase todos os infortúnios se acumulavam e se liquidavam nos balcões de bar e nas pistas das boates.

Compartilho com Luis Fernando Verissimo a mesma reverência por Paulo Mendes Campos, “o melhor e mais profundo dos cronistas mineiros”, mas custei um pouco a entender sua declarada dívida com Maria, que considera sua maior influência. Ao ler todas as crônicas do polivalente pernambucano compiladas no livro Vento Vadio, que nesta segunda-feira a Todavia põe nas livrarias, entendi sua proeminência no panteão do gaúcho. 

Aquela agridoce mistura de seriedade, humor e lirismo (“como é longe a casa de quem dorme vestido, em casa dos outros”) é de fato distinta. Tão distinta quanto, digamos, a música de Dorival Caymmi – por ele, aliás, definido como “um homem macio”, outra de suas incontáveis pérolas lexicais, embora sem a fama de “mal-amada”, de intenso uso na segunda metade do século passado. 

Frasista por escrito e de viva-voz, são dele tiradas antológicas como esta: “Não há lei debaixo das minhas cobertas”. E esta: “Gente má dorme em posição de sentido”. E mais esta: “O homem mau ri errado”. E também esta: “Só há uma Semana Santa; nas outras, vocês matem quem quiser”. 

Seu espírito gozador não deu trégua sequer ao mais melodramático de seus sambas-canção, que ele parodiou com estes versos: “Ninguém me ama/ ninguém me quer/ ninguém me chama de Baudelaire” – evidentemente jamais gravada por Nora Ney.

Em qualquer antologia de Maria que me coubesse editar, não deixaria de fora isto aqui: “Não há sensação mais curiosa que a de encontrar a ex-namorada pela primeira vez em companhia de seu atual namorado. Por mais que a gente lhe olhe o rosto, não lhe vê as feições. É uma mulher sem olhos, sem nariz e sem boca, que a gente só reconhece pela falta de ar que nos causa a sua presença.”

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