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Nova obra procura um lugar de vanguarda para a retórica

'Retórica Antiga e as Outras Retóricas', de Dante Tringali, revê redescoberta dessa ciência como uma teoria da argumentação

Yara Frateschi Vieira , Especial para O Estado de S. Paulo

27 de junho de 2015 | 03h00

A quem se destina, aqui e agora, um livro sobre a Retórica Antiga e as Outras Retóricas? Além do óbvio interesse histórico – e a sua inclusão na coleção Musa Ler os Clássicos já o sublinha – esse denso volume sobre uma doutrina ou disciplina milenar, moribunda várias vezes, mas periodicamente renascida, parece dirigir-se a um público amplo e operante em diversos campos, ao defender a atualidade e abrangência da sua matéria. A forma de exposição, por outro lado, optando por uma estrutura esquemática com partes relativamente independentes entre si e pela linguagem didática, aproxima-o do manual voltado ao leitor não especialista.

É quase impossível dar uma ideia completa de um livro que busca não só oferecer um panorama cronológico da disciplina, mas também mapear com alguma minúcia as suas várias e complexas ramificações. Dante Tringali defende a tese “polêmica”, nas suas próprias palavras, segundo a qual a Retórica denominada “antiga” (por ter nascido e se formado na antiguidade greco-latina) “representa a autêntica Retórica, a Retórica por antonomásia”, distinguindo-se nesse sentido das demais que, ao longo do tempo, se restringiram a algumas de suas partes, constituindo disciplinas autônomas em seu propósito, mas incompletas: a Retórica clássica, que se limita ao campo da elocução; a Retórica das figuras que, por sua vez, reduz a elocução ao âmbito das figuras de estilo – entre elas as versões contemporâneas elaboradas pela Retórica Geral do Grupo de Liège; a Nova Retórica ou Teoria da Argumentação de Perelman, que se interessa sobretudo pela “invenção” que, para ele como para Aristóteles, consiste na busca dos “meios de prova”. Como o enfatiza Tringali, a Retórica hoje tende a assumir mesmo um lugar de vanguarda, desde que Perelman a redescobriu e repropôs como uma teoria da argumentação: não só uma ciência humana, mas “o modelo das ciências humanas”.

Dentro do campo conceptual adotado pelo autor, a Retórica define-se como a teoria e a prática do discurso dialético-persuasivo, no sentido aristotélico: “O discurso é dialético na medida em que defende a opinião mais verossímil a propósito de uma questão qualquer em debate”. No seu percurso histórico, porém, essa definição foi várias vezes contestada, irradiando-se em tendências divergentes em duas linhas de ruptura: por um lado, a severa crítica de Platão à Retórica sofística, identificando-a a outras “artes” menos respeitáveis, como a cosmética e a gastronomia, que se preocupam apenas com a satisfação de prazeres baixos e não com a produção de conhecimento, reduto da Filosofia; por outro, a vertente iniciada por Quintiliano, que enfatiza, na Retórica, a “arte de bem dizer”, a qual motivou excessos pontuais ao longo do tempo. De qualquer forma, Tringali faz questão de sublinhar, em diversos momentos, que a Retórica aristotélica não pode desconsiderar a questão moral, controlada como é pela Ética e pela Filosofia. Dentro dessa perspectiva, portanto, o autor ressalta traços que têm raiz na história da disciplina e são relevantes para a sua importância ainda hoje: assim, o fato de a Retórica ter nascido em circunstância democrática (na Sicília recém-liberada da ditadura no século 5.º), só podendo florescer, na sua inteireza, nessa forma de contexto; de todo discurso ser ao mesmo tempo resposta a outro discurso e provocador de novos questionamentos, isto é, o seu caráter dialógico; e o desenvolvimento do próprio discurso científico nos tempos atuais, tornando-se ele mesmo retórico quando as premissas em que se funda são controvertidas.

Guiado por sua opção pela Retórica antiga como a única que oferece um corpo completo e coeso de doutrina teórica e disciplina prática, o conhecido latinista e tradutor de Horácio não deixa de reconhecer, ao mesmo tempo, o seu caráter dinâmico e vivo, apontando a sua presença inclusive no exercício da escrita nos blogs atuais.

Além dos muitos aspectos relativos à Retórica em geral e à Retórica antiga em particular trazidos para a exposição, o autor inclui também – e já o faz no subtítulo do livro: A Retórica Como Crítica Literária – o tratamento retórico do texto literário e a questão da retoricidade da literatura. Embora afirme que “Retórica e a Poética são duas velhas disciplinas que ora se aproximam ora se afastam sem se confundirem”, observa também que “nada impede que um texto literário se revista de traços retóricos”, chegando mesmo a atribuir-lhe um escopo retórico essencial: “Qual é o texto literário que não tenta, de alguma forma, persuadir convencendo, emocionando e agradando?”. Questões ligadas à relação entre a Retórica e a Literatura são levantadas e o leitor pode sentir-se estimulado a desenvolvê-las nas obras mencionadas e citadas na bibliografia. Um exemplo detalhado de aplicação crítica do modelo retórico ao texto literário é a análise de um soneto lírico de Gregório de Matos. O leitor interessado provavelmente desejará extrapolá-la para outros textos, sobretudo contemporâneos e portanto teoricamente libertos da “tirania” retórica. Fica, de qualquer forma, o desafio lançado.

Uma última observação: o livro inclui uma bibliografia offline e outra online. Considerando que muitos dos textos relacionados são de difícil acesso nas nossas bibliotecas, essa última constitui um acrescento bastante útil para o leitor.

YARA FRATESCHI VIEIRA É PROFESSORA TITULAR (APOSENTADA) DO DEPARTAMENTO DE TEORIA 

LITERÁRIA (IEL, UNICAMP)

A RETÓRICA ANTIGA E AS OUTRAS RETÓRICAS

Autor: Dante Tringali

Editora: Musa (384 págs.; R$ 88)

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Dante Tringali

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