Maria Fernanda Rodrigues/Estadão
Maria Fernanda Rodrigues/Estadão

Novo livro é a confissão tardia de Ignácio de Loyola Brandão

Cronista do ‘Estado’ lança ‘Os Olhos Cegos dos Cavalos Loucos’, prosa juvenil em que revela uma falta cometida com o avô

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

05 Dezembro 2014 | 03h00

Uma confissão tardia, essa é a essência de Os Olhos Cegos dos Cavalos Loucos, o 41º livro da carreira do cronista do Estado Ignácio de Loyola Brandão. “Você pode imaginar, meu amigo, um livro que ficou, digamos, quase setenta anos na cabeça? Eu nem sabia que um dia faria este livro, mas já pensava em uma forma de pedir perdão ao meu avô paterno”, explica ele, que lança neste sábado, 6, a obra, na Livraria da Vila da Fradique.

Os Olhos Cegos dos Cavalos Loucos tem uma prosa infantojuvenil, mas encanta leitor de qualquer idade por conta de sua trama: em texto narrado em primeira pessoa, o jovem Ignácio conta como uma traquinagem - pegar as bolinhas brancas que o avô guardava em uma caixa vermelha para brincar com os meninos da rua - resultou em drama: as bolinhas eram o que restava de um enorme carrossel de cavalos de madeira feito pelo avô que, depois de consumido pelo fogo (aparentemente em um ato criminoso), só deixou como herança aquelas bolinhas, os olhos dos cavalos.

“José Maria era pai de meu pai. Sério, magro, mas muito forte, era marceneiro na cidade de Matão, vizinha a Araraquara, onde meu pai nasceu”, conta o escritor. “Era dos melhores, tinha boa freguesia. Não existiam lojas de móveis, cada um encomendava o que precisava. Diríamos hoje móveis personalizados, porque meu avô fazia diferente para cada pessoa. Mas havia um quê de especial, diziam que era a marca ele.”

A história se passa no início do século passado, quando a vida era difícil. “Não havia energia elétrica, tudo era manual na oficina de meu avô. As furadeiras eram tocadas no braço. A madeira era buscada no mato, nos bosques vizinhos. A vegetação era farta, ainda não tinham chegado as grandes serrarias, que depois devastaram.”

José Maria construía os brinquedos para os netos, cada um de acordo com seu gosto ou personalidade. Mas sua grande obsessão era o carrossel, construído nos anos 1910: José Maria pesquisou a melhor madeira e esculpiu com cuidado extremado. “Quando este conto acontece, estamos em 1946, a guerra tinha terminado, as bolinhas se encontravam na caixa vermelha, no alto de uma estante na oficina de marcenaria.”

É o momento também do auge da narrativa, quando a avó do autor, Branca, e uma tia, Margarida, detalham a odisseia que foi a construção do carrossel e sua posterior destruição. A perda abateu José Maria, mas o sumiço das bolinhas, guardadas na caixa vermelha, o deixaram doente de cama.

A doença do avô deixava o jovem Ignácio agonizado, mas ele não foi capaz de confessar o sumiço das bolinhas - perdidas, aliás, em um jogo de burca. A redenção veio em uma festa de Natal, quando o avô, ao distribuir os presentes aos netos, reservou a caixinha vermelha a Ignácio, entregue com um sorriso que denunciava sua suspeita.

“Ao longo destas décadas, tentei várias vezes organizar a história”, observa o escritor. “Não engrenava, bloqueava. Devo ter feito umas dez versões, invertia as estruturas, parava.” O caminho surgiu finalmente há dois anos, quando Ignácio acredita ter acertado o passo e, depois de três versões, deu a história por terminada. 

“Em 2013, estava circulando pelo Paraná, em uma viagem promovida pelo Sesc, junto com Marina Colasanti. Em Guarapuava, no final de um debate, alguém da plateia pediu que contássemos cada um uma história. Marina deslumbrou, porque é magnífica contadora. Nesse momento, me deu uma coisa boa no corpo, comecei a contar a história do meu avô e ela foi saindo, fluindo, fluindo. No final, muitas pessoas tinham lágrimas nos olhos. Pensei: agora, está pronta. Na mesma noite, no hotel, comecei a escrever à mão nos cadernos que sempre levo comigo. O nó da garganta saiu. Meu avô me ouviu contando, me viu escrevendo, me desculpou. Literatura é isso, catarse. Desafogo. O livro agora é dele. Tem razão a Lygia Fagundes Telles quando diz que um livro leva a vida inteira para ser escrito.”

OS OLHOS CEGOS DOS CAVALOS LOUCOS

Autor: Ignácio de Loyola Brandão. 

Edit.: Moderna (66 págs., R$ 41). Lançamento: Liv. da Vila, R. Fradique Coutinho, 915. 6/12, 15h

Mais conteúdo sobre:
Ignácio de Loyola Brandão

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.