Divulgação
Divulgação

Novo livro de Uwe Timm fala sobre o currywurst e a luta da Alemanha para se reinventar

Livro traça paralelo entre a origem de prato típico com salsicha e a história do país

Marcos Guterman, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2015 | 20h00

A currywurst é um dos pratos nacionais da Alemanha. Encontra-se em qualquer biboca nas ruas de Berlim ou de outras cidades do país. A receita é simples: salsicha sem pele, cortada em rodelas, feita em uma frigideira com uma mistura de ketchup e curry. É servida com batatas fritas num prato de papel. Sendo o prato de um país tão orgulhoso de sua cultura, mereceu até mesmo um museu em Berlim, e o primeiro restaurante que supostamente o vendeu pela primeira vez, em setembro de 1949, se tornou patrimônio da capital alemã.

Essa é a história oficial, e os berlinenses não admitem outra – a currywurst original da cidade, inventada por uma certa Hertha Heuwer, foi até patenteada, para que nenhum aventureiro reivindicasse a paternidade da delícia. Mas eis que o escritor Uwe Timm, um dos principais romancistas da Alemanha, lançou, em 1993, a suspeita de que a currywurst talvez tenha sido inventada não em Berlim, mas na sua Hamburgo natal. Naquele ano ele publicou seu livro A Descoberta da Currywurst, que chega agora ao Brasil, e nele Timm descreve sua experiência com esse prato de rua já em 1947 – dois anos antes, portanto, da data “oficial” berlinense.

O livro se tornou best-seller, mas é claro que não foi em razão da polêmica culinária. Trata-se apenas de um curioso pretexto que Uwe Timm usa para falar da descoberta de sua Alemanha assim que ela despertou do estranho sonho do nazismo. Em outro livro de Timm já lançado no Brasil, À Sombra de Meu Irmão, o escritor aborda a memória daquele terrível período – ou melhor, a falta de memória, a incapacidade dos alemães comuns de admitir que talvez tivessem ajudado a cometer aqueles crimes inomináveis. Em A Descoberta da Currywurst, Timm volta a falar da memória – e de como esta é construída conforme as necessidades emocionais.

Movido por sua curiosidade, pois se lembrava de ter comido currywurst em Hamburgo em 1947, Timm conta que, muitos anos mais tarde, procurou a mulher em cuja barraca havia experimentado o prato quando garoto. Chamava-se Lena Brücker e havia sido vizinha de Timm em Hamburgo. No momento da entrevista, já septuagenária, ela aceitou contar sua história – jurando, desde o início, que a ideia de misturar ketchup com curry e fritar as salsichas sem pele havia sido dela.

Durante sete dias, a senhora Brücker conta que a currywurst nasceu depois de uma série de acontecimentos que envolveram “um contramestre da Marinha, um emblema prateado de cavaleiro, 200 peles de esquilo siberiano, 12 m cúbicos de madeira, uma fabricante de salsicha, um intendente e uma beldade ruiva ingleses, três garrafas de ketchup, clorofórmio, um sonho acordado e muito mais”. Timm quer saber de onde veio a currywurst, mas acaba fascinado por aquela trama que a senhora Brücker lhe tece, uma trama de amor e superação que começa depois que Hitler se mata, em abril de 1945 – e então a Alemanha precisa se reinventar. Para isso, nada melhor do que um prato acidental, que uniu uma salsicha sem pele (porque não havia tripas disponíveis em meio à escassez da guerra), ketchup (tempero americano) e curry (mistura de temperos indianos inventada pelos ingleses, cujas tropas ocuparam Hamburgo). Cozinhava-se com o que havia – não com os ingredientes tradicionais, mas com aqueles que pudessem ao menos lembrar os sabores perdidos em algum lugar da memória.

A currywurst surgiu dessa realidade, razão pela qual esse prato, como tudo na Alemanha desde aquele momento, marcou uma nova era, em que a adaptação criativa era mais importante que a tradição.

A DESCOBERTA DA CURRYWURST

Autor: Uwe Timm

Tradução: Augusto Paim

Editora: Dublinense (196 págs., R$ 36,90)

Lançamento e bate-papo: Terça, 10, 19h30. Goethe. Rua Lisboa, 974

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.