Andrew Winning/Reuters
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Novo livro de Salman Rushdie conta vida em fuga após fatwa iraniana

Obra é sobre os mais de nove anos que o escritor passou se escondendo após o líder supremo do Irã emitir uma sentença de morte contra ele

MIKE COLLETT-WHITE, Reuters

18 de setembro de 2012 | 12h28

O livro de memórias do escritor britânico Salman Rushdie sobre os mais de nove anos que viveu se escondendo após o líder supremo do Irã emitir uma sentença de morte contra ele chega às livrarias nesta terça-feira, 18.

Joseph Anton abre com o momento em que Rushdie, já um membro da elite literária de Londres, recebeu um telefonema de um jornalista pedindo sua reação à fatwa, ou decreto religioso, emitido em 1989 pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, pedindo sua cabeça.

"Não me parece bom", foi sua resposta discreta. Mas lembra de ter pensado naquela hora: "Sou um homem morto".

O que se seguiu foi quase uma década de vida em fuga, temendo por sua própria segurança e a de sua família.

A fatwa, em resposta ao romance de 1988 Os Versos Satânicos, transformou Rushdie em um nome que ficará para sempre ligado à disputa entre o direito à liberdade de expressão e a necessidade de respeitar as sensibilidades religiosas.

O tema está de volta às manchetes após violentos protestos espalhados por todo o mundo muçulmano em resposta a um vídeo feito nos EUA ironizando o profeta Maomé.

"Eu sempre disse que o que aconteceu comigo foi um prólogo e haverá muitos, muitos mais episódios como esse", disse Rushdie ao Daily Telegraph no lançamento do seu livro.

"Claramente, (o filme é) um lixo, é muito mal feito e é malévolo. Reagir a ele com este tipo de violência é apenas ridiculamente inadequado. Pessoas estão sendo atacadas que não tinham nada a ver com isso e isso não está certo."

No fim de semana, uma fundação religiosa iraniana ligada ao Estado aumentou a recompensa pela cabeça dele para 3,3 milhões de dólares. Seu líder argumentou que se Rushdie tivesse sido morto, casos posteriores de insulto ao islã teriam sido evitados.

A inglesa PEN, filial do grupo internacional que promove a liberdade de expressão na literatura, defendeu Rushdie.

"O filme que causou essa rodada de inquietação é um insulto à inteligência de todos, mas os meios de combate a isso são mais inteligentes, e não ameaças de fatwas restabelecidas e assassinatos", afirmou a autora e ativista Lisa Appignanesi.

O livro de 633 páginas, escrito na terceira pessoa do singular, lembra os dias de Rushdie como um estudante na Universidade de Cambridge e seu início na carreira literária, incluindo o dia em que ele recebeu o cobiçado Prêmio Booker por Os Filhos da Meia-noite, em 1981.

Sete anos mais tarde o romance Os Versos Satânicos foi lançado e, por algumas semanas foi, como ele carinhosamente lembra, "só um romance".

Em seguida, o livro foi proibido na Índia e na África do Sul, cópias foram queimadas nas ruas do norte da Inglaterra, outros autores voltaram-se contra ele, sua esposa, Clarissa, recebeu pela primeira vez telefonemas ameaçadores e livrarias foram bombardeadas.

Rushdie se viu no olho de um furacão que se tornou ainda mais feroz no Valentine's Day (Dia dos Namorados) de 1989, quando a fatwa foi emitida, obrigando-lhe a quase uma década de medo, frustração e vida de culpa sob segurança armada e mudando de casa em casa.

Por razões de segurança, ele teve que mudar de nome e escolheu uma combinação dos primeiros de dois de seus autores favoritos, Conrad e Tchekhov. Durante 11 anos foi conhecido como Joseph Anton.

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