Stine Heilmann
Stine Heilmann

Novo livro de Jojo Moyes tem o espírito de Charles Dickens

'The Horse Dancer', inédito no Brasil, tem personagens cativantes lançados em situações surpreendentes

Anton Disclafani, THE WASHINGTON POST

21 Julho 2017 | 19h00

Ao ler The Horse Dancer, o mais recente romance de Jojo Moyes, eu tinha de ficar me lembrando de que não estava lendo Charles Dickens. Temos ali a sórdida região leste de Londres. Temos adultos envolvidos em atividades nefastas. Temos também as severas diferenças entre as vidas douradas dos ricos e as vidas turbulentas dos pobres. E, acima de tudo, temos uma órfã ligeira e resiliente que passa a perna nos adultos com tanta desenvoltura que às vezes é difícil acreditar que ela tenha apenas 14 anos. Mas, como Moyes não nos deixa esquecer, as crianças são surpreendentemente engenhosas quando estão contra a parede.

Nesse caso, a parede pertence a um estábulo que abriga a duradoura paixão de Sarah: um cavalo chamado Boo. Tive de suspender um pouquinho da minha descrença para acreditar que o avô de Sarah, um homem sem posses, podia ter trazido da França para um bairro pobre de Londres um exemplar da raça de cavalos mais nobre do mundo. E um pouquinho mais ainda para acreditar que esse senhor de idade podia treinar a garota e seu cavalo para realizar movimentos complexos que os adultos passam a vida inteira aperfeiçoando.

Mas essa é a mágica de The Horse Dancer: personagens cativantes lançados em situações surpreendentes. Moyes escreve com tanta maestria sobre comunhão entre o cavalo e a amazona que Le Cadre Noir, a elegante escola de equitação francesa, fica parecendo um objetivo factível para a jovem Sarah.

Logo no começo do livro, o avô de Sarah sofre um derrame, enquanto Mac e Natasha atravessam um divórcio muito longo. Embora não estejam em condições de salvar a menina do desespero, eles fazem de tudo para tentar. E, então, começamos a saltar entre o mundo em ascensão de Natasha e Mac, donos de uma casa em um bairro que passa por um veloz processo de gentrificação, e o mundo maldito de Maltese Sal, que, quando não está aterrorizando crianças, promove corridas de cavalo ilegais.

Os detalhes do estábulo - o cheiro doce do feno, a qualidade quase expressiva das orelhas dos cavalos - são maravilhosamente trabalhados. E os personagens dos celeiros não escorregam para a caricatura, embora às vezes se aproximem dela. O caubói John, que tem um coração de ouro e o hábito ocasional da maconha, é tão crível quanto Ralph, que tem 12 anos, fuma e é capanga de Maltese Sal.

Boa parte do livro gira em torno da maneira como as crianças complicam e expandem a vida dos adultos que tomam conta delas, seja por escolha ou por circunstância. Com uma escrita tocante, Moyes mostra como é fácil que adultos bem-intencionados prejudiquem as crianças, e nós vemos como uma mesma família pode passar da desesperança excruciante à alegria doméstica. O truque, sugere Moyes, é confiar uns nos outros.

Como narradora, Moyes se aproxima mais uma vez de Dickens ao costurar várias tramas com destreza e confiança, alternando passado e presente, urbano e rural, doméstico e profissional. Nós nos deparamos com o mais humilde dos humildes e com o mais nobre dos nobres. Assim como em Como Eu Era Antes de Você, best-seller de 2012 adaptado para o cinema no ano passado, Moyes escreve de forma convincente sobre como o dinheiro determina o destino e também sobre o que acontece quando a tragédia cai sobre pessoas boas - ou pelo menos medianas. Nesse caso, o pior faz surgir o que há de melhor, mas não de um jeito sentimentaloide nem enjoativo. A visão de Moyes sobre as pessoas que se ergueram do desespero com nada mais do que amor (e um pouco de grana) é simplesmente emocionante. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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