Novo livro de Antônio Xerxenesky tem pitadas de Orson Welles

'F for fake' faz reflexão sobre o verdadeiro e o falso na criação

Luís Henrique Pellanda, ESPECIAL PARA O ESTADO

05 de julho de 2014 | 02h00

Não é simples resenhar brevemente um livro de ficção inspirado em F for fake (Verdades e mentiras), de Orson Welles. Entre outros acertos, este filme não apenas recusa, mas também zomba da importância que se dá a diversas ideias ligadas à autoridade artística e à especialização crítica. Em F, novo romance do gaúcho Antônio Xerxenesky, o alvo não é exatamente a falibilidade e a arrogância dos especialistas, mas talvez o autoritarismo e mesmo a fraqueza dos critérios que definem o que é ou não é arte, em geral um apanhado de regras nocivas ao exercício da subjetividade. De quebra, o romance passeia por quase três décadas de história do Brasil, examinando o mal-estar e a culpa que a ditadura deixou, como legado, às gerações posteriores a ela.

Apesar disso, F não é um trabalho "cabeçudo", como já disse o autor numa entrevista recente ao escritor Reginaldo Pujol Filho. É um livro genuinamente pop. Quem o narra é Ana, menina criada no Rio, nos anos 60 e 70, e que, como Xerxenesky, tem "um sobrenome esquisito e incomum, cheio de consoantes e quase impronunciável por outros brasileiros". Após a morte do pai, simpatizante do regime militar, ela conhece um tio que, clandestinamente, a leva morar em Los Angeles. Lá, após uma ligeira temporada de treinamento em Cuba, Ana se torna uma sofisticada assassina de aluguel.

Logo se vê que não devemos esperar muita verossimilhança do enredo de F, que parece parodiar, com prazer, várias convenções do cinema comercial. Assim, num momento favorável de sua carreira, Ana é contratada para assassinar o próprio Orson Welles. A partir desse plot em princípio absurdo, o autor especula sobre o futuro da arte e da humanidade, individual ou coletivamente, num debate wellesiano e imaginativo sobre autenticidade e falsificação.

Estamos em 1985, nos Estados Unidos, e o romance de Xerxenesky vai falar sobre o fim da vida e da noção de identidade, sobre cinema, música, sintetizadores e o seu comovente “som das máquinas”. Em meio a conversas sobre Antonioni, Pasolini, George Romero e John Carpenter, surgem reflexões sobre bandas como Depeche Mode, Soft Cell e Duran Duran. Nesse sentido, dois personagens de F talvez representem uma fratura na opinião de seu autor: Ana e seu amante Antoine, um cinéfilo francês. Quando o assunto é a paixão dele por New Order e a dela por Joy Divison, eles não se acertam. Pessimista, Ana crê que o futuro é a morte; já Antoine aposta numa possibilidade de salvação pela tecnologia.

Tudo em F é propositalmente ambíguo, inconclusivo. Ana tende a ver no homicídio uma forma de arte, mas não está certa a respeito disso. Contratada para dar às suas vítimas uma "morte limpa" por meio de "assassinatos cinematográficos", que pareçam acidentais, ela mesma se torna uma falsificadora de acasos - e é essa, paradoxalmente, a sua especialidade. O livro, porém, não nos permite avaliar o seu talento real, já que nos dá detalhes de apenas um de seus crimes. F se concentra mais nas hesitações de Ana, sua vida interior perturbada e atenta, e que, sim, nos revela uma sensibilidade artística aguçada.

Do notório rosebud de Welles, em Cidadão Kane, ao clássico A Rosa do Povo, de Drummond, F também fala de flores. Elas aparecem em vários momentos importantes da trama. Ana, por exemplo, repete mentalmente uma série de poemas drummondianos, como o Congresso Internacional do Medo (aquele das "flores amarelas"), enquanto mata ou treina sua mira. E a cena em que ela se "forma" como futura matadora é reforçada por uma feliz citação do verso "uma orquídea forma-se", que encerra o poema Áporo, fundamental para a compreensão da origem e do destino da personagem. E assim, o F do título, longe de ser a inicial de "fim", pode não servir somente à palavra "falso", mas também a algum florescimento.

* LUÍS HENRIQUE PELLANDA É AUTOR DE ASA DE SEREIA, ENTRE OUTROSLR

F

Autor: Antônio Xerxenesky

Editora: Rocco (240 págs., R$ 27,50 - R$ 18 o e-book)

TRECHO

"Aos 25 anos de idade, eu pensava já ter visto muitas coisas na vida. Havia presenciado uma decapitação, dois enforcamentos, uma castração, três mortes causadas por queda de um lugar alto, uma cabeça destroçada por um tiro de espingarda, pessoas importantes e ricas desabadas no meio de uma multidão após um disparo de rifle, um ex-nazista sofrer um ataque cardíaco nada acidental, um pedáfilo despencar no poço de um elevador e mais uma dúzia de rostos rígidos e frios, alguns litros de sangue e malas cheias de dinheiro vivo. Naquela época, olhava para esse histórico com orgulho: quantas garotas da minha idade podiam dizer que testemunharam tudo isso? A maioria nem viu o cadáver do avô tranquilo no caixão. No entanto - e pode parecer que estou fugindo do assunto - ,  eu ainda não havia assistido Cidadão Kane, de Orson Welles, considerado por muitos críticos o melhor filme da história do cinema. Curiosamente, uma obra dirigida, produzida e atuada por Welles quando ele era um rapazote de exatos vinte e cinco anos, a idade na qual fui obrigada a assistir Cidadão Kane pela primeira vez. Estávamos em 1985 e Orson Welles viria a morrer no dia 10 de outubro daquele mesmo ano."

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