Novo livro aborda a relação do magnata Nelson Rockefeller com o Brasil

Obra revê aventura do empresário que pretendia revolucionar o País

Marcos Guterman, O Estado de S. Paulo

06 Setembro 2014 | 03h00

O historiador Antonio Pedro Tota precisou de mais ou menos uma década para desmistificar a ideia, amplamente arraigada no Brasil, de que o magnata do petróleo Nelson Rockefeller representou, em sua época, o que havia de mais perverso no imperialismo americano nas suas relações com o Brasil.

Sua extensa pesquisa resultou no livro O Amigo Americano - Nelson Rockefeller e o Brasil (Companhia das Letras), que relata as aventuras do empresário e político em seu projeto pessoal de revolucionar a paisagem econômica e social do País, como se fosse um Quixote ianque. No entanto, em meio ao entusiasmo dessa história fascinante, pode-se dizer que, ao final da leitura, emerge um personagem ambíguo.

Nelson era um homem genuinamente interessado no País, mas seu leitmotiv e seus métodos revelam que o magnata, na verdade, via-se atendendo o chamamento de Kipling - que, em seu poema O Fardo do Homem Branco (1899), incitou os americanos a civilizar os incultos em terras selvagens, a fim de salvá-los de si mesmos. Não que Nelson acreditasse que os brasileiros fossem “metade demônio, metade criança”, como escreveu Kipling, mas havia em sua missão a clara intenção de civilizar o Brasil, de modo a impedir que, por sua ignorância e pobreza, fossem presa fácil do comunismo.

Nelson pertencia a uma família que simboliza até hoje a ferocidade capitalista nos Estados Unidos, contrariando até mesmo os decantados princípios da livre concorrência que ajudaram a construir o imaginário americano. Dessa ferocidade nasceu a Standard Oil, empresa petrolífera que encarnou o próprio demônio. John Davison Rockefeller, o avô de Nelson e patriarca da família, era um monopolista convicto, pois entendia que somente o monopólio era garantia de ordem e estabilidade. Tornou-se assim o homem mais rico da era contemporânea.

Para os Rockefeller, e Nelson seguiu essa tradição, a filantropia era uma missão de Deus, pois o dinheiro tinha um caráter sagrado. Tota demonstra que, embora fosse mais “moderno” que o avô, Nelson era movido pelo mesmo espírito primordial. Seu interesse em ajudar a América Latina em geral e o Brasil em particular era alimentado pela crença de que tinha de repartir um pouco de sua riqueza com os necessitados para respeitar os desígnios divinos - em troca, Deus concederia o sucesso aos negócios da família. A Fundação Rockefeller e outras iniciativas caridosas respeitavam essa convicção.

Nada disso impede, porém, que se reconheça a importância de Nelson para o desenvolvimento de diversas áreas no Brasil, conforme Tota mostra em detalhes saborosos - que incluem até mesmo o sofisticado cardápio servido a bordo do avião que o trouxe pela primeira vez ao Brasil, em 1937.

As marcas de seu envolvimento e o de sua família com o País estão em toda a parte, desde o financiamento da Faculdade de Medicina da USP até o projeto urbanístico que antecipou a construção das Marginais na capital paulista, passando pelo engajamento na criação dos museus de arte moderna do Rio e de São Paulo e pela inauguração de uma rede de supermercados para melhorar o precário abastecimento.

Nelson incentivou fortemente a agricultura nacional, e pode-se dizer que o agronegócio começou a se tornar uma ilha de excelência no Brasil em parte graças a seus projetos. A ideia que presidia esse esforço derivava da percepção de que o Brasil poderia ser um celeiro para o mundo - e, naturalmente, para os Estados Unidos. Ademais, ele acreditava que os pequenos e médios agricultores, se bem educados e tecnicamente preparados, seriam o motor do desenvolvimento brasileiro, como havia acontecido com os colonos americanos que desbravaram os Estados Unidos. "O Brasil seria um novo Oeste a ser conquistado", compara Tota.

Foi em meio à Segunda Guerra Mundial que Nelson Rockefeller propôs intensificar a aproximação dos Estados Unidos com o Brasil, para ajudar a região a se desenvolver. O entusiasmo do empresário nunca foi inteiramente compartilhado pelo governo americano, mas ele se manteve otimista, pois seu modelo de desenvolvimento não estava assentado no Estado, e sim na participação da iniciativa privada. Era o empreendedorismo americano que ele queria implantar no Brasil, transformando a mentalidade da elite empresarial do País. Para isso, procurou conhecer bem a cultura brasileira, recorrendo até mesmo a antropólogos - o que não o impediu de patrocinar distorções como a criação do personagem Zé Carioca, que expressava uma visão "mexicana" do Brasil.

Nos anos 1960, porém, o longo namoro entre Nelson e o Brasil já estava esgarçado. De empresário festejado - visto como um homem capaz de transformar o Brasil nos Estados Unidos e de ajudar os pobres a enriquecer, como se lê nas cartas que brasileiros de diversas extrações sociais lhe escreveram -, Nelson aos poucos foi sendo transformado em símbolo da ameaça aos valores nacionalistas do País. Em vez de flores, ele passou a ser recebido com frieza e insultos - o próprio autor relata ter participado de um protesto estudantil contra o empresário em 1969.

Ao final de sua aventura, Nelson experimentou o vaticínio de Kipling, que em seu poema alertou para o fato de que um imperialista "esclarecido" como ele, que se acredita movido pelas mais nobres intenções, receberá em troca apenas a ingratidão, enfrentando o "ódio daqueles que você guarda".

O AMIGO AMERICANO - NELSON ROCKEFELLER E O BRASIL

Autor: Antonio Pedro Tota

Editora: Companhia das Letras(480 págs.,R$ 59,90)

TRECHO

"Numa correspondência confidencial, datada de 8 de fevereiro de 1945, assinada simplesmente “Edgar” - que não era outro senão o temido Jr. Edgar Hoover, diretor do FBI -, o nome de Getúlio era citado: “Ele [Gimpel] pediu a agentes desta repartição que passassem essas informações ao presidente Getúlio Vargas ou a seu filho, e que eles avisassem a senhora Vargas [Ingeborg]”. O documento era endereçado ao “Honorável Nelson A. Rockefeller, subsecretário do Departamento de Estado Americano”. O destinatário tinha um posto equivalente ao de um vice-ministro para assuntos de relações com a América Latina. Hoover já havia telefonado a Nelson, falando da suspeita sobre Ingeborg. O chefão do FBI mostrava certa intimidade com o subsecretário. Não é comum em documentos oficiais, principalmente os secretos, o missivista assinar seu primeiro nome.

Mas por que o diretor da mais temida agência americana, famoso por ter perseguido anarquistas, sindicalistas e comunistas na década de 1920, eliminado gângsteres como Al Capone, Baby Face, Machine Gun Kelly, telefonava e escrevia para Nelson A. Rockefeller ao tratar do caso dos dois espiões nazistas que levavam uma pequena carta para a nora do presidente do Brasil?

Depois de Edward Stettinius, secretário de Estado, Nelson Aldrich Rockefeller era o funcionário mais graduado nas relações dos Estados Unidos com a América Latina. Era um dos raros americanos que acreditava em contatos e amizades pessoais como via de boas relações internacionais, e nisso ele se aproximava do presidente Franklin Roosevelt. Na política internacional, dizia Roosevelt, uma “diplomacia pessoal” funcionava mais do que os caminhos tortuosos do Departamento de Estado. Um dos motivos pelos quais Roosevelt contratou Nelson, em agosto de 1940, para trabalhar em seu governo como coordenador do Offi ce of the Coordinator of Inter-American Affairs, a agência para assuntos interamericanos dos Estados Unidos, nada teve a ver com o fato de ele ser herdeiro de uma das maiores fortunas do mundo, mas sim com o bom trânsito que mantinha com a elite latino-americana."

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