Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Novo festival literário vai debater a produção de escritores LGBT

Mix Literário, um desdobramento do Mix Brasil, reúne, de 17 a 24 de novembro, nomes como Cristina Judar e João Silvério Trevisan e relembra Pasolini, Caio Fernando e Roberto Piva; haverá, ainda, saraus e venda de livros

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

15 Novembro 2018 | 06h00

O Festival Mix Literário faz sua estreia no sábado, 17, dentro da programação do Mix Brasil. Até o dia 24, importantes nomes da literatura contemporânea se reúnem no Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro, 1.000) para debater a produção literária de autores LGBT e relembrar Roberto Piva (1937-2010), Caio Fernando Abreu (1948-1996) e Pier Paolo Pasolini (1922-1975).

Cristina Judar, vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura este ano com seu romance de estreia Oito do Sete (Reformatório), e Tobias Carvalho, mais recente ganhador do Prêmio Sesc com o livro de contos As Coisas (Record), seu primeiro título, são alguns dos novos nomes confirmados do evento, que contará ainda com, entre outros cerca de 60 nomes, João Silvério Trevisan. Aos 74 anos, ele acaba de lançar a quarta edição revista e ampliada de Devassos no Paraíso – A Homossexualidade no Brasil da Colônia à Atualidade e é finalista do Oceanos com a autoficção Pai, Pai (Alfaguara).

Trevisan fala logo na abertura do Mix Literário, às 18h, numa roda de conversa com os jovens artistas Alexandre Rabelo, Leonardo Dalla Valle, Cristina Judar e Henrique Rodrigues Marques. E volta ao palco – desta vez, no Museu da Diversidade, no único evento que será realizado lá – para um debate com o crítico Ítalo Moriconi sobre Roberto Piva, um dos poetas brasileiros mais transgressores. O encontro será na sexta, 23, às 15 h.

João Silvério Trevisan, que comanda uma das mais tradicionais oficinas de escrita criativa do País, relembra que em Devassos no Paraíso já destacava a importância do Mix Brasil, hoje em sua 26.ª edição, para a formação política de mais de uma geração de participantes. “Agora, com o Mix Literário, ocorre um desdobramento natural desse mesmo processo de descoberta e debate cultural. Tradicionalmente, é notável a contribuição de LGBTs na história da literatura brasileira. Na contemporaneidade, essa presença se tornou incontornável. Trazer à boca da cena o protagonismo dessa força criativa é um esforço louvável para se revelar a cara de um Brasil maior e mais democrático”, disse ao Estado.

Para o curador Alexandre Rabelo, uma das ideias do festival, que vai contar com uma minilivraria Blooks, é mostrar uma literatura LGBT que não é mais de nicho e já superou temas como a descoberta da identidade, a autoaceitação e o preconceito. “Buscamos outros temas. Há muitos autores significativos que criam personagens LGBT em sua obra, mas vivenciando outros conflitos sociais.”

Temas políticos são esperados. “O literário está profundamente ligado com o político e o artista consegue propor, em sua obra, olhares para o mundo a curto, médio e longo prazo. E já prevendo os rumos que o Brasil ia tomar, providenciamos uma mesa sobre as representações do fascismo italiano na poética de Pasolini. Vamos discutir como ele foi representando o cerne desse fascismo implantado na família, na política e no trabalho”, explica Rabelo.

O curador comenta, ainda, que o festival está inserido num contexto histórico de décadas de luta por direitos civis LGBT e muita movimentação nas artes queer. “Por mais que haja algum movimento censor, este não terá força contra um mundo conectado. Vivemos o último estertor do velho político. Podemos resistir com alegria e sem medo. A longo prazo, podemos pensar que são dois passos para frente e um para trás. No nosso caso, é um grande passo, pois este evento promete ser um marco histórico de resistência e celebração da diversidade no meio editorial, que pensa diferente e nos acolhe muito bem.”

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