Paul Hanna|Reuters
'El Expolio', óleo sobre tela de El Greco pintado entre 1577 e 1579 Paul Hanna|Reuters

'El Expolio', óleo sobre tela de El Greco pintado entre 1577 e 1579 Paul Hanna|Reuters

Nova tradução dos Evangelhos prioriza caráter literário dos textos bíblicos

'Os Evangelhos são obras que se bastam como textos', defende o tradutor Marcelo Musa Cavallari

André Cáceres , O Estado de S.Paulo

Atualizado

'El Expolio', óleo sobre tela de El Greco pintado entre 1577 e 1579 Paul Hanna|Reuters

Em uma palestra proferida pelo escritor argentino Jorge Luis Borges em Harvard no fim dos anos 1960, ele reflete sobre como a Bíblia possivelmente provocou o surgimento da tradução literal: “Embora as pessoas considerassem Homero o maior dos poetas, sabiam que Homero era humano (...) e podiam assim remodelar suas palavras.” 

Mas, quando se tratou de traduzir a Bíblia, a coisa mudou de figura, afirma Borges. “Se Deus escreve um livro, se Deus se digna à literatura, então cada palavra, cada letra, como dizem os cabalistas, há de ter o seu propósito. E pode ser blasfêmia se intrometer no texto escrito por uma inteligência infinita, eterna.” Longe de ser blasfema, a empreitada de Marcelo Musa Cavallari, que está publicando sua versão em Os Evangelhos – Uma Tradução, pela Ateliê Editorial em parceria com a Editora Mnema, pode ser vista como um esforço para restituir às escrituras sagradas um componente que estava no texto original e acabou se perdendo ao longo dos séculos: o elemento literário.

“Os Evangelhos são o livro da cultura ocidental. Eles são o fundamento básico, junto com a cultura grega clássica, do Ocidente”, afirma o tradutor em entrevista ao Estadão. Os quatro textos, atribuídos a Mateus, Marcos, Lucas e João, foram escritos originalmente em grego, em algum ponto entre os séculos 1 e 2, para narrar a biografia de Jesus. Ao longo dos milênios, o caráter artístico desses textos foi se perdendo em detrimento de uma discussão mais teológica. No entanto, Cavallari defende: “Os quatro são muito literários e têm estratégias literárias muito diferentes entre si”.

O Evangelho segundo Marcos “tem a estrutura própria de um livro para ser lido em voz alta”, analisa o tradutor. “Lucas escreve como se estivesse continuando o Antigo Testamento, porque essa é uma reivindicação de que os Evangelhos são uma continuação do que vinha sendo revelado por Deus. Já João constrói um personagem de Jesus com discursos muito mais longos.”

Para recuperar esses aspectos literários, Cavallari se ateve a dois critérios em sua tradução. Um é o critério estético, “no sentido de tentar fazer o texto ter o seu brilho próprio a que se tem acesso lendo em grego, que é um texto muito menos domesticado do que parece na maior parte das traduções”, avalia. E o outro critério é “arqueológico, de tentar buscar o sentido que essas palavras tinham no momento em que elas foram escolhidas”.

Um exemplo do uso desse uso é a tradução da palavra “ángelos”, que é uma espécie de núncio, ou mensageiro, mas nos séculos posteriores à escrita dos Evangelhos acabou sendo transliterada do grego para dar origem a “anjo”, que tem uma conotação totalmente diferente. A fim de preservar o sentido original com que o termo foi escrito pelos evangelistas, Cavallari optou por “núncio” em vez de “anjo”. 

“Uma diferença marcante na minha tradução é que nela não se encontram palavras esperadas como fé, anjo, apóstolo, porque, na verdade, quando se escolheram essas palavras, elas não tinham o significado que têm hoje”, explica o tradutor, que tentou produzir o efeito, no leitor de português do século 21, de se ter contato com os textos originais do grego no século 1. “Alguém que lê no grego ‘ángelos’ não vê na mente aquilo que alguém que lê em português vê ao ler anjo”, conclui.

Na introdução, Cavallari também deixa explícita a relação entre os textos dos evangelistas e a atividade tradutória: “O Evangelho é um grupo de quatro textos escritos em grego por judeus (com a possível exceção de Lucas), que podiam saber hebraico como língua religiosa, mas àquela altura conversavam em aramaico, numa região dominada por Roma, cuja língua oficial era, pois, o latim. Os Evangelhos são, desde o início, tradução”.

Enfatizar o elemento literário não significa renegar a relevância religiosa das escrituras, mas para Cavallari esses textos são capazes de comover mesmo quem não compartilha da fé cristã. “Os Evangelhos têm claramente um agenciamento literário, para que qualquer efeito que eles tenham venha da leitura deles. São obras que se bastam. Embora tenham tido um importante destino no campo das pessoas que são cristãs, eles em si foram compostos como textos e têm sua força como textos. Acredito que sobrevivam sozinhos e se impõem como textos para qualquer leitor.”

A tradução da Bíblia para o latim por São Jerônimo foi em grande medida responsável pela preservação do idioma mesmo após sua morte enquanto língua falada. Ao traduzir, Martinho Lutero ajudou a formatar e unificar o idioma e a identidade da Alemanha. 

Se ao traduzir se cria uma nova forma de ler um texto, é novamente Jorge Luis Borges quem arremata a questão: “Na Idade Média, pensou-se que o Senhor havia escrito dois livros: o que denominamos Bíblia e o que denominamos universo. Interpretá-los era nosso dever”. 

Compare trechos de duas traduções dos Evangelhos

Tradução dos Monges de Maredsous:

"Se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra. Se alguém te citar em justiça para tirar-te a túnica, cede-lhe também a capa. Se alguém vem obrigar-te a andar mil passos com ele, anda dois mil. Dá a quem te pede e não te desvies daquele que te quer pedir emprestado."

“Amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos perseguem. Deste modo, sereis os filhos de vosso Pai do céu, pois ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos. Se amais somente os que vos amam, que recompensa tereis?”

Tradução de Marcelo Musa Cavallari:

“Mas quem te esbofeteia na face esquerda, vira para ele também a outra, e ao que quer te processar para tomar tua túnica, deixa com ele também a roupa. E quem te angariar para uma milha, vai com ele duas. A quem pede, dá, e o que quer tomar emprestado do que é teu não mandes embora.”

“Ouvistes que foi declarado: amarás teu próximo e odiarás teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e suplicai por vossos perseguidores, assim nascereis filhos do vosso Pai que está nos céus, que o sol dele se levanta sobre maus e bons e Ele faz chover sobre injustos e justos. De fato, se amardes a quem vos quer bem, que paga tendes?” 

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São Jerônimo, padroeiro da tradução, retratado por Caravaggio Galleria Borghese

Análise: Para ser um tradutor, é preciso ser um acrobata da língua

Enquanto 'coautor' do texto, o tradutor reflete as suas escolhas e imprime a sua assinatura

Dirce Waltrick do Amarante* , Especial para o Estado

Atualizado

São Jerônimo, padroeiro da tradução, retratado por Caravaggio Galleria Borghese

No dia 30 de setembro, comemorou-se o dia do tradutor, que tem como santo padroeiro São Jerônimo, responsável pela tradução da Bíblia do grego antigo e do hebraico para o latim – tornou assim o texto sagrado acessível a um número maior de pessoas. A tarefa do tradutor seria, de fato, trazer à luz algo que estava no escuro. Muitos estudiosos acreditam que o tradutor é o primeiro a dar as boas-vindas ao estrangeiro, ao se aproximar dele e ao introduzi-lo a uma outra cultura, que obviamente se amplia com esse diálogo. 

A tarefa do tradutor, apesar dos inúmeros estudos a respeito dela, parece ainda hoje ser desconhecida ou incompreendida por parte dos leitores. O tradutor francês Dominique Nédellec lembra que, antes de falar para estudantes lusófonos sobre os livros traduzidos por ele do português para o francês, teve que “fazer uma apresentação geral da profissão-tradutor para as turmas de literatura. Como explicar a esses colegiais no que consiste meu ofício? Como captar imediatamente sua atenção? Passador, falsário, impostor, camaleão, raposa, bode expiatório... Sim, é claro. Mas, o que mais? Brice Matthieussent: ‘Para ser um bom tradutor, é preciso ser um acrobata da língua, ser flexível no manejo das palavras. Sempre surgem situações embaraçosas que exigem um bocado de agilidade’. A ideia é sedutora: o tradutor é um acrobata... Mas de que tipo? Cremnóbata? Oríbata? Neuróbata?”. 

Será que o tipo de tradutor não dependeria, em certa medida, do tipo de leitor que lê em tradução?

Classificações são perigosas e, diria, na maior parte das vezes, artificiais; contudo, me arrisco a classificar, num primeiro momento, os leitores em relação à tradução em quatro tipos: o primeiro é aquele que lê o texto traduzido sem ter consciência que se trata de uma tradução – para esse leitor, o tradutor é inexiste; o segundo tipo é aquele que sabe que está lendo uma tradução e não se importa, não se indaga – o tradutor e o autor, para ele, são uma mesma pessoa; já o terceiro tipo é aquele que não lê textos traduzidos, ficando obviamente restrito às culturas dos falantes de sua língua-mãe – para esse leitor, o tradutor não precisava existir; por fim, o último tipo, e é sobre esse que me interessa falar, é aquele que lê textos traduzidos, mas desconfia deles. Para esse leitor, a figura do tradutor está sempre em cena e se assemelharia a dois personagens do curta The Art of Mirrors (A Arte dos Espelhos), de 1973, do cineasta britânico Derek Jarman. 

No filme de Jarman, que dura seis minutos, os personagens, um homem e depois uma mulher, andam de um lado para outro no cenário segurando um espelho, o qual, vez por outra, reflete uma luz que se sobrepõe à cena por trás dela. 

Partindo das imagens de A Arte dos Espelhos, poder-se-ia esboçar uma alegoria na qual o espelho seria visto como a tradução, que o tradutor segura firme, enquanto o espectador seria comparado ao fruidor da tradução que mantém com ela uma relação de desconfiança. Esse leitor, por exemplo, diante de uma palavra, uma frase, uma rima ou mesmo da métrica de um verso, interromperia a leitura, como se uma luz refletida no espelho atingisse sua retina. Ele se indagaria, então, se era exatamente assim que estava escrito no texto de partida. Nesse instante, o leitor não veria mais o texto de partida; a luz o cegaria por instantes e perturbaria a fruição de sua leitura. 

Vejamos um exemplo extremo, na tradução de poesia: se, por questões de ritmo, o tradutor substituir uma palavra por outra, tal escolha poderá dar início a uma série de questionamentos por parte do leitor, no caso de edição bilíngue. Por outro lado, contudo, se o tradutor mantiver a palavra do texto de partida, mas adaptar o ritmo e a métrica do poema, a mesma luz refletida no espelho irá certamente incidir sobre os olhos do leitor da tradução, cegando-o ou não.

O tradutor tem consciência de que carrega esse espelho que reflete luz, mas esse é o seu papel, do qual não pode se furtar, caso queira estar em cena. Aliás, é nesse raio de luz, diria, que se encontra o tradutor. Enquanto “coautor” do texto, ele reflete as suas escolhas e imprime a sua assinatura. 

Mas o leitor desconfiado, a que me refiro aqui especialmente, se por um lado está de olho no tradutor, por outro lado parece não querer ver rastos do responsável pela tradução no texto, não quer ouvir a voz do tradutor, como se isso, aliás, fosse possível. O tradutor, como um personagem do filme de Jarman, se por um lado direciona o facho de luz para o leitor, por outro lado ele também está sob um facho de luz. Mas como lidar com esse paradoxo?

*PROFESSORA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS DA TRADUÇÃO DA FEDERAL DE SANTA CATARINA

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