Lauren Fleishman/The New York Times
Lauren Fleishman/The New York Times

Nova sátira política de McEwan oferece uma inversão de Kafka

Terceiro romance do escritor britânico em três anos põe barata em corpo de primeiro-ministro

Dwight Garner, The New York Times

28 de setembro de 2019 | 10h00

“Se você pretende uma longa carreira no show business”, escreveu Elvis Costello, em Unfaithful Music & Disappearing Ink, seu livro de memórias, “é necessário afastar as pessoas de tempos em tempos, de modo que elas se lembrem porque esqueceram de você”.

É muito difícil esquecer Ian McEwan. O seu novo romance satírico The Cockroach, sobre o Brexit, é o seu segundo livro neste ano e o terceiro em três anos. The Cockroach é tão ineficaz e débil que pode afastar seus leitores em longas caravanas apocalípticas. O jovem McEwan, autor de romances mais do que lúgubres, o que lhe rendeu o apelido de Ian Macabro, teria preferido roer seus dedos do que escrevê-lo. 

The Cockroach propõe uma versão inversa de Kafka. Uma barata desperta dentro do corpo de um homem. Este homem, por acaso, é o primeiro-ministro do Reino Unido. Seu gabinete é formado na maioria por baratas com forma humana. Esses insetos estão aqui para semear a discórdia, sob pretexto de patriotismo, e usar frases como “sangue e solo” e a noção de tornar as coisas grandes novamente para garantir sua sobrevivência. McEwan dificilmente é um idiota e oferece em seu novo livro mais do que alguns momentos espirituosos. 

O primeiro-ministro lembra, na sua forma anterior, ter encontrado uma “pequena montanha de excremento, ainda quente e ligeiramente fumegante. Em qualquer outro momento ele teria se alegrado. Ele se olha como se fosse um conhecedor. Ele sabia como viver bem”.

Nossa barata humana outrora vivia embaixo do Palácio de Westminster, local de reunião da Câmara dos Comuns e da Câmara dos Lordes. De modo que ela está habituada a ouvir as sabatinas do primeiro-ministro, essa excelente tradição inglesa. 

Os antagonistas políticos em The Cockroach não são os defensores da saída ou da permanência na União Europeia, mas são os Clockwisers (que caminham no sentido horário) e os Reversalists (para quem a ideia sobre o universo é o oposto do que as pessoas pensam). Os primeiros são as elites, pessoas que se importam com a razão, a ciência, a moderação. Os segundos são os populistas robustos.

Em questão não está o Brexit, mas um programa chamado “economia de fluxo reverso” que colocaria a Inglaterra em discordância com a sensatez e com seus aliados europeus. 

Este romance, tão quebradiço quando o exoesqueleto de uma barata, serve como lembrete de que já surgiu boa ficção que leva em conta a violência, a perfídia e o choque da nova atitude política no Reino Unido e nos Estados Unidos.

A ideia de escrever The Cockroach, provavelmente, surgiu sob o chuveiro numa certa manhã, como uma boa ideia. Mais tarde, depois do café, deve ter ocorrido a McEwan que sugerir que seus oponentes são baratas poderia ser uma mancha no tapete. Um romance cômico que poderíamos usar é o de Anthony Weiner. A investigação de Weiner que levou a James Comey e a eleição de 2016 são temas que valem uma sátira. Como disse o cineasta Errol Morris há muito tempo, “quem teria imaginado que o desejo irresistível de um homem de fotografar seu pênis e compartilhá-lo com mulheres na Internet poderia destruir a civilização ocidental!”.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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