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Nova edição traz os contos de O. Henry e seus relatos de uma cidade flutuante

'Contos', do escritor americano nascido em 1862, é lançado pela editora Carambaia

Rodrigo Petronio , ESPECIAL PARA O ESTADO

16 Julho 2016 | 04h00

Nascido em uma família culta e abastada, em 1862, William Sydney Porter começa a vida profissional como caixa em um banco. Amante da literatura e do jornalismo, compra o jornal The Rolling Stone, que não demora para abrir falência. Ato contínuo, abre um banco. Acusado de desfalque, foge para Honduras. Ao retornar, é condenado à pena de quatro anos na Penitenciária Federal de Ohio.

Quando é liberto, em 1901, surge um novo homem, misto de realidade e de ficção. Esse homem passa a vagar por Nova York, disfarçando sua antiga identidade e mapeando cada centímetro da cidade em narrativas que totalizam cerca de 400 até a sua morte, em 1910, uma média de uma por semana. Esse misto de escritor e personagem de enredo policial se tornou assim um dos mais importantes contistas norte-americanos: O. Henry. 

Dedicada a edições primorosas de obras inéditas e de autores ainda pouco conhecidos no Brasil, a editora Carambaia acaba de lançar uma pequena joia: Contos, de O. Henry, selecionados e traduzidos por Jayme da Costa Pinto. 

A cidade é sempre a sua matéria-prima: seus meandros, hotéis, casarões, bares, artistas, marginais, prostitutas, classes baixas, operários. O que chama a atenção no estilo de Henry é a concisão, o estilo afiado com estilete, decalcado em observações da vida nova-iorquina com claras intenções documentais. Diz-se que depois de uma catástrofe, seria possível reconstruir Nova York com suas descrições.

A vida atribulada talvez lhe tenha dado essa sensibilidade para a percepção empírica de personagens. Em alguns momentos, imaginamos o próprio Henry como o grande protagonista onisciente de seus contos. Mas nada aqui deixa de ser transfigurado nas fornalhas da ficção. Em outros, as narrativas se emancipam e se inscrevem em uma moldura puramente imaginária, oscilação que determina o valor de sua prosa. 

Outros aspectos chamam a atenção. O trabalho com imagens, as descrições de ambientes e personagens. O modo às vezes elíptico de narrar um acontecimento. Os finais inesperados e a ausência de moral ou de tese, certamente inspirados em Chekhov. 

Assim, as cenas se mesclam e se confundem, nesse espelho d’água da cidade de Nova York refletida em um mapa. A jovem que ganha a vida datilografando cardápios de um restaurante. O desenlace do diálogo de um condutor de carruagem com sua passageira. Um jovem, obcecado por uma atriz, decide alugar o seu quarto para reviver sua vida. Os supostos cosmopolitas frequentadores de cafés. A vida de artistas decadentes, distantes do glamour do Greenwich Village. Um homem e uma mulher que economizam seus salários ao longo do ano para se fazerem passar por nobres em um hotel de luxo. As mulheres que almejam ser espancadas pelos maridos para ganharem presentes em retribuição. 

Não por acaso, essa crueza está na origem de boa parte da literatura norte-americana. E não resta dúvida da influência exercida por Henry sobre o novo realismo de Cheever e Fante, sobre a beat generation, de Kerouac e Corso, desde os anos 1950, e sobre o novo jornalismo de Tom Wolfe, Gay Talese, Norman Mailer e Truman Capote, a partir dos anos 1960. 

Em certo sentido, a ideia que unifica a arte narrativa de Henry, a sua dianoia, na acepção do crítico canadense Northrop Frye, é o jogo entre a cidade e o mundo. Por sinal, a obra se fecha com o relato do nascimento de um nova-iorquino. Essa aspiração à universalidade e ao cosmopolitismo encontra-se latente em todos os personagens. Contudo, o meio se encarrega de arremessá-los de volta às suas pequenas misérias, fraturas, decepções. Parece lembrá-los que mesmo o símbolo da maior potência do planeta é uma ilha, flutuando no vazio e cercada de solidão. 

RODRIGO PETRONIO É ESCRITOR E FILÓSOFO, DOUTOR EM LITERATURA COMPARADA PELA UERJ. PROFESSOR DA FAAP, MINISTRA CURSOS LIVRES E OFICINAS DE ESCRITA NA CASA CONTEMPORÂNEA 

CONTOS

Autor: O. Henry

Seleção e tradução: Jayme da Costa Pinto

Editora: Carambaia (248 págs., R$ 82,90)

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