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Nova caixa retoma a obra densa e refinada de Vladimir Korolenko

Caixa da Carambaia traz dois dos melhores livros do russo elogiado por Tolstoi, ‘O Músico Cego’ e ‘Em Má Companhia’

Aurora Bernardini , ESPECIAL PARA O ESTADO

05 Agosto 2016 | 21h42

Nascido em Jitomir, na Ucrânia, filho de um juiz incorruptível e de uma ilustre dama polonesa, o escritor Vladimir Korolenko (1853-1921) teve uma vida marcada pelas dificuldades. Órfão, após o ensino médio ingressou no Instituto Tecnológico de São Petersburgo, mas, não havendo quem pudesse pagar por seus estudos, entrou na Academia Agrária de Moscou, gratuita. Não durou muito sua estada na Academia. Dois anos depois, acabou sendo expulso por haver tomado parte em manifestações estudantis contra o governo czarista, e foi confinado em Kronstadt, onde sobreviveu praticando os serviços mais humildes.

A partir daí continuou seu ativismo político em ações dos naródniki. Preso em 1879, e depois, repetidamente, foi deportado para a Sibéria. De volta à Rússia, passou a residir em Níjni-Nóvgorod, em 1885. Apesar de, em 1879, ter tido uma sua primeira novela publicada na revista Slovo e haver continuado publicando textos em periódicos, seus grandes sucessos literários datam da década 1885-1895. O Sonho de Makar e Em Má Companhia, logo seguidos de O Músico Cego (1886), apreciados por Chekhov e Tolstoi, e, mais tarde, o longo romance autobiográfico em vários tomos História de um Meu Contemporâneo (que não chegou a terminar), o consagraram no país inteiro. Há duas linhas principais que sustentam os escritos de Korolenko: os problemas das relações indivíduo (desvalido) /sociedade (O Sonho de Makar , Em Má Companhia) e as recordações da infância (O Músico Cego), ambos poeticamente descritos e marcados por um profundo conhecimento psicológico e uma orientação sócio-filosófica, orientação essa que ele deve, em grande parte, à influência paterna.

O ambiente em que o narrador-menino situa o desenrolar de um episódio fundamental em sua vida é admiravelmente transposto no livro Em Má Companhia (tirante os cochilos da revisão, particularmente no que se refere ao tratamento dos tempos verbais que – quando traduzidos do russo – exigem um cuidado especial). O estilo da novela tende ao gótico, não fosse tão próximo do realismo daqueles tempos. “Na montanha da parte oeste da cidade, entre cruzes apodrecidas e túmulos arruinados, existia uma capela de uniatas, abandonada havia muito tempo”. E um castelo, também abandonado. “ Mas a inimizade antiga, histórica, que separava o orgulhoso e nobre castelo da capela pequeno-burguesa prosseguia, mesmo depois da morte de ambos: ela era alimentada pelos vermes que se mexiam nos seus cadáveres, ocupando os cantos e os sótãos que continuavam inteiros. Esses vermes tumulares dos edifícios mortos eram pessoas”. Ou seja: nas ruínas da capela e nas cavernas da montanha haviam encontrado abrigo os derelitos da cidade, alguns deles personagens decaídos, outrora respeitáveis, como o “ Professor’ ou Tibúrtsi, cujos filhos se tornam amigos do menino narrador, numa de suas incursões aventureiras na capela abandonada. Diante das indagações paternas (o pai do narrador também era um juiz severo, que a morte da esposa tornou taciturno): “ Eu menti, pela primeira vez na vida. Sempre tive medo de meu pai, e muito mais naquele tempo (...) Eu tremia só de pensar que um dia ele poderia descobrir algo sobre a minha relação com a “ má companhia”; mas trair Valek e Marússia, disso eu não seria capaz. Além do mais, existia um “decoro”. Se eu os traísse, se não mantivesse a minha palavra, não poderia sequer olhar na cara deles, de tanta vergonha”. Esse decoro, fruto da formação, é recompensado pela descoberta que atrás da severidade do pai há sentimentos humanitários. O pequeno narrador se reconcilia com ele.

A percepção dessa refinada sensibilidade atinge um de seus pontos máximos em O Músico Cego. Nessa novela, narrada em terceira pessoa, o protagonista principal é um menino cego de nascença. Além da poeticidade e do romanesco da narrativa, ela se coloca como um tratado exemplar sobre como pode ser tratada, amorosa e construtivamente, a cegueira infantil. (Da mesma forma com que Alicia Ferrari, entre nós (Cortez, 1985) tratou da surdez em História de uma Criança Surda). A mãe amantíssima e sofredora e o inteligente tio Maksim, antigo garibaldino e leitor dos compêndios sobre cegueira (onde é negado o negrume da visão interna da criança cega – devido, antes, à pressão do condicionamento exterior) empreendem o longo caminho que levará o pequeno Piotr a encontrar-se e a lutar por seu lugar no mundo, – no caso, o de um artista consumado, intérprete da musicalidade de sua terra.

AURORA BERNARDINI É PROFESSORA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LITERATURA RUSSA DA USP

 

EM MÁ COMPANHIA

Tradução: Klara Gourianova

Editora: Carambaia (R$ 62,45) 

O MÚSICO CEGO

Tradução: Klara Gourianova

Editora: Carambaia (R$ 62,45)

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