REUTERS/Tomas Bravo/Files
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Nova biografia reafirma coerência de Eduardo Galeano

Fabián Kovacic registra a trajetória do autor uruguaio, que descreveu o século 20 e a desigualdade na América Latina

Rodrigo Cavalheiro, CORRESPONDENTE - O Estado de S. Paulo

18 de abril de 2015 | 03h00

BUENOS AIRES - Quando Eduardo Galeano teve sua terceira e definitiva morte, às 9 h de segunda-feira, 13, uma biografia já estava impressa. Foi anunciada à tarde e coube ao autor, o argentino Fabián Kovacic, explicar se era um caso de oportunismo editorial. 

“Um parente de Galeano me escreveu um e-mail de Montevidéu perguntando o mesmo, meio de brincadeira”, disse Kovacic ao Estado. “Entreguei o livro em janeiro, após um ano e meio de pesquisa. Com a morte, a única mudança foi antecipar o lançamento em uma semana. Dói que pensem isso. Queria que ele a tivesse lido.” 

Galeano, Apuntes para Una Biografia (Ediciones B, 265 págs.) traça um paralelo entre fatos históricos e a vida da criança religiosa que renunciou à fé aos 14 anos – “Deus escorregou por um buraco no bolso da calça” –, do jovem que tentou se matar aos 19, quando já era pai, e do homem que descreveu o século 20 e a desigualdade com um estilo capaz de arregimentar fãs de todas as idades. 

“Galeano falava de suas duas mortes. Na primeira, tomou um frasco de droga para cavalos e o resgataram por acaso em um hotel de Montevidéu”, conta Kovicic, correspondente em Buenos Aires do semanário Brecha, do qual o uruguaio foi fundador. Galeano não quis dar entrevista para o livro, o que o biógrafo interpretou como uma tentativa de deixá-lo livre ou um reconhecimento de que essa obra o aproximava de um epílogo.

“Ele quis viver até o fim. Essa vitalidade fica clara no que descrevia como segunda morte”, opina Kovacic, professor de jornalismo da Universidade de Buenos Aires. Em 1970, o repórter Galeano foi à Venezuela retratar a febre do ouro entre garimpeiros na selva. A malária quase o mata. “Ele dizia que dessa morte quis escapar, havia resolvido seus conflitos.”

Kovacic entrevistou Galeano em 1992, 1998 e 2000. Com esses trechos – além de documentos e testemunhos –, fez um livro que enfatiza a figura do jornalista e escritor obcecado por cortar palavras e pelo trabalho à mão, que julgava “o melhor destino para a ideia que saía do cérebro e passava pelo coração”. 

“Há quem me pergunte o que encontrei de sombrio ou incoerente. Nada. Era um homem fiel a seus valores, deslocado num século 21 caótico nesse sentido”, avalia. Galeano costumava ponderar se hábitos burgueses, como degustar um vinho de boa safra, eram uma contradição à desigualdade que expunha, mas concluiu que o problema era que poucos pudessem fazer o mesmo. 

A coerência exaltada pelo biógrafo e até pela direita, pelo menos a argentina, não significa que o último Galeano fosse o repórter que nos anos 60 ficava sem falar com colegas que não apoiavam a Revolução Cubana, incluindo os fuzilamentos de Fidel Castro a “traidores”.

Galeano chega às livrarias argentinas na terça, 21, às uruguaias no dia 28 e às espanholas em 6/5. Não há previsão de tradução para o português, ainda que o livro dedique duas páginas à sua passagem pelo Brasil, onde teve contato com Chico Buarque, Jobim e Ruy Guerra, a caminho do exílio na Espanha. 

O uruguaio fugiu da Argentina em 1976, para onde havia ido em 1973, escapando da ditadura uruguaia. A amigos em Cuba, justificou em uma carta sua fuga iminente de Buenos Aires. “Ultimamente, me flagro pensando que me sinto melhor vivo do que morto, e aqui chegamos à fronteira do cemitério.”

GALEANO

Autor: Fabián Kovacic

Editora: Ediciones B 

Lançamento: 21/4, Argentina; 28/4, Uruguai; 6/5, Espanha (sem previsão para o Brasil)

LEIA TRECHO DO LIVRO:

"A decisão estava tomada. Galeano e sua nova parceira, Helena Villagra, sairiam do país. Não havia alternativa. O salvo-conduto lhe fora proporcionado pelas autoridades organizadoras da Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, com um convite para Galeano integrar o júri latino-americano no evento daquele ano durante o mês de agosto. (...) De fato, com a ditadura aumentando a censura e sua fome por morte e cárcere, Galeano e Helena saíram do país nos últimos e piores momentos.

Em 1976, a guerrilha do Exército Revolucionário do Povo (ERP) já havia sido operacionalmente dizimada a partir da Operação Independência em Tucumán que o Exército executou em 1975 sob o comando do general Acdel Vilas, primeiro, e depois com Domingo Bussi. Os Montoneros estavam em etapa de recuo e tampouco podiam ser considerados um inimigo de peso da ditadura no terreno militar propriamente dito. Por isso, em meados de 1976, fazia todo sentido a frase pronunciada pelo interventor militar do governo de Buenos Aires, o general Ibérico Saint Jean, alguns meses depois. “Primeiro mataremos todos os subversivos, depois mataremos seus colaboradores, depois seus simpatizantes, em seguida os que permanecerem indiferentes e, por fim, os tímidos.” Galeano não era tímido, mas estava na lista dos que o governo considerava de máxima periculosidade, segundo os antecedentes encontrados nos arquivos da ditadura divulgados em 2014. “Seus últimos dias em Buenos Aires foram de tensão máxima. Ele já não dormia em seu pequeno apartamento da rua Montevideo, quase esquina com Corrientes.

Tinha as chaves das casas de dois amigos; eu era um deles. Galeano em geral dormia duas ou três vezes por semana em nossa casa da rua Malabia, exatamente em frente ao Jardim Botânico. Desta casa ele saiu rumo ao Rio, onde esperaria por sua mulher, Helena Villagra, para viajarem juntos para a Alemanha. “Eduardo ainda tinha a intenção de permanecer no Rio”, segundo recorda Eric Nepomuceno, correspondente em 1976 da revista brasileira Veja, colaborador de Crisis e tradutor de Galeano em suas edições em português, no Brasil. Mal chegou ao Rio de Janeiro, Galeano hospedou-se na casa do jornalista Galeno de Freitas onde se reuniu, duas semanas depois, a Helena. “No dia em que mataram (Roberto) Santucho, 19 de julho de 1976, se não me falha a memória, viajei com Helena a Foz do Iguaçú. Recordo que saímos de Malabia bem cedo, por volta das seis da manhã, apertados com uma enorme mala de exilada no minúsculo Fiat 600 dirigido por Eduardo Luis Duhalde. Ele nos deixou no Aeroparque. Saímos os dois, Helena e eu, sem problemas.

Em Iguaçu, ela embarcou rumo ao Rio. Quando por fim telefonei para o Rio, para o apartamento de Galeno de Freitas, amigo e anfitrião de Eduardo, confirmando que ela havia chegado bem, voei de volta para casa.” “Isto é, tanto a saída de Eduardo como a de Helena ocorreram sem maiores problemas, mas com muitíssima tensão”, continua Nepomuceno. “Em poucos dias, outros amigos trataram de abrigá-lo: o cineasta Ruy Guerra e, principalmente, Chico Buarque. Ambos, mais Galeno de Freitas, trataram de convencer Eduardo de que o cenário no Brasil ainda era pesado e perigoso, e que não era exatamente um clima propício para ele, que já era bastante conhecido e, portanto, seria perseguido se ficasse.” Segundo Galeano, as vendas de seu livro As veias abertas da América Latina cresceram a partir da censura e proibição a que foi submetido pelas ditaduras latino-americanas, especialmente na América do Sul. No entanto, as cifras de vendas e difusão dessa primeira obra-prima assinalam que, antes do golpe militar no Uruguai, em 27 de junho de 1973, e no Chile, em 11 de setembro de 1973, o livro já tivera “muitos milhares de exemplares vendidos e várias edições que inclusive circulavam clandestinamente porque foram proibidas apenas os militares chegaram ao poder”, recorda Angel Ruocco, companheiro de Galeano em Marcha e Época. (...) “De toda forma, todos se propuseram a ajudá-lo se Eduardo realmente decidisse ficar, Mas quando eu cheguei, com mulher e filho, poucos dias depois, Eduardo e Helena já se haviam convencido de que o melhor seria instalar-se na Espanha”, prossegue Nepomuceno. “Como eu tampouco podia permanecer no Brasil, a revista para a qual trabalhava me enviou como correspondente a Madri, e mais uma vez nos reunimos na Espanha. Em poucas semanas, um grupo de amigos se reencontrou em terras espanholas: Eduardo Luis Duhalde, com toda a imensa família: filhos, irmãos, pais; minha esposa Martha e eu, Eduardo e Helena, o outro Eduardo, Mignogna, enfim, um destino comum. Durante as poucas semanas em que Eduardo e Helena estiveram no Rio, foram recebidos com carinho por Galeno de Freitas, por Chico Buarque, que o apresentou a Antonio Carlos Jobim, por Ruy Guerra, Newton Carlos, o decano dos correspondentes brasileiros de esquerda da época, e alguns artistas e intelectuais de primeiríssima linha”, disse."

Tradução de Celso Paciornik 

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