Arthur Luiz Piza
Arthur Luiz Piza

Nova antologia da poesia brasileira organiza a nossa 'pornografia'

'Antologia da Poesia Erótica Brasileira', de Eliane Robert Moraes, reúne 235 poemas de pelo menos 125 autores - de Gregório de Matos a Mário de Andrade, de Olavo Bilac a Ana Cristina César

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

11 Julho 2015 | 03h00

Poemas sacanas, quadras escatológicas, elegias mais ou menos trágicas e uma profusão de sonetos picantes: a literatura brasileira pode agora se orgulhar de contar com uma “pornografia organizada”. É a Antologia da Poesia Erótica Brasileira, que a Ateliê Editorial publica com organização da professora da USP Eliane Robert Moraes e ilustrações de Arthur Luiz Piza.

São 235 poemas de pelo menos 125 autores (mais os anônimos) publicados originalmente desde a segunda metade do século 17 - Gregório de Matos é o ponto cronológico inicial da antologia, que reúne nomes famosos como Gonçalves Dias, Mário de Andrade e João Cabral de Melo Neto e também poetas não tão conhecidos, como Bruno Seabra (1837-1876), Moysés Sesyom (1883-1932) e Angela Melim (1952). Além dos poetas anônimos.

Professora de Literatura Brasileira na FFLCH da Universidade de São Paulo (USP), Eliane acumulou anos de estudo do erotismo na literatura francesa para, desde 2005, começar a pensar na organização da erótica brasileira. Provocada por amigos, encontrou num prefácio para Macunaíma, escrito em 1926 pelo próprio Mário de Andrade, uma comparação provocante. “Uma pornografia desorganizada é também da quotidianidade nacional”, dizia o paulistano, em contraposição às culturas de outros países, especialmente europeus. “A pornografia entre eles possui caráter étnico. Já falam que se três brasileiros estão juntos, estão falando porcaria... De fato”, conclui o autor, citado por Eliane no prefácio à Antologia.

“O erotismo é uma dimensão fundante da nossa humanidade”, comenta a organizadora, por telefone, ao Estado, “e ninguém fica de fora disso - ele concerne quem pratica, quem não pratica, quem pratica com o mesmo sexo, com outro”. Para ela, a literatura erótica na verdade é um processo de representação disso, “de alguma coisa que é muito misteriosa, da nossa existência”. A ideia, explorada mais profundamente por Eliane no prefácio, é que “antes de ser um modo de pensar o sexo, o erotismo literário é um modo de pensar a partir do sexo”.

Em grande parte, os versos são deliciosamente impublicáveis neste espaço, mas o leitor pode esperar encontrar um pouco de tudo - sexo, claro, mas também escatologia, passeios pela religião e mesmo pela morte, e muito humor, tudo numa mistura de lirismo, (des)amor e comédia. A antologia é abrangente.

“É possível notar uma sensível entrada da (poeta) mulher a partir sobretudo da segunda metade do século 20”, diz, citando Ana Cristina César, Glória Ferreira, Maria Lucia Dal Farra, Claudia Roquette-Pinto e Angela Merlim, escritoras cujas obras são muito diferentes entre si. “Acompanha o movimento social - e temos até uma organizadora de antologia, um negócio impossível no começo do século 20”, comenta Eliane, que se mirou também no trabalho da poeta e ativista portuguesa Natália Correia, organizadora de uma antologia de poesia erótica portuguesa, lançada em 1966, com a qual enfrentou denúncias na justiça em nome dos “bons costumes”.

Outra questão sugerida por Eliane é a não existência de uma diferença estética entre os conceitos de “pornografia” e “erotismo”. “Não é o grau de obscenidade que delimita a diferença entre os dois termos, é a qualidade estética; para mim, são sinônimos”, explica. Ela propõe a existência de um erotismo comercial, malfeito, e um bem feito, com composições, imagens e formas apuradas - e é isso. “A obscenidade pode ser estética”, completa Eliane.

O exemplo mais claro dessa afirmação talvez sejam os Cantares de Sulamita, de Dalton Trevisan, reunidos no livro. “Se você não me agarrar todinha / aqui agora mesmo / só me resta morrer // se não abrir a minha blusa / violento e carinhoso / me sugar o biquinho dos seios / por certo hei de morrer (...).” 

Os poetas anônimos - alguns deles antes recolhidos por Mário de Andrade, Pedro Nava e outros - também ocupam um papel importante no livro. “É superbonita essa sacanagem popular”, comenta Eliane, “a que Mário teve uma escuta muito grande”. Está nos planos da pesquisadora - “se eu enlouquecer”, brinca - organizar uma nova antologia só com esse material. 

ANTOLOGIA DA POESIA ERÓTICA BRASILEIRA

Org.: Eliane Robert Moraes

Ilust.: Arthur Luiz Piza

Editora: Ateliê Editorial (504 págs., R$ 82)

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