Toby Melville/Reuters
Toby Melville/Reuters

'Nossa Cultura... Ou o Que Restou Dela' faz observações sobre o colapso dos costumes

Livro de Theodore Dalrymple fala da barbárie que invade o Ocidente

Fani Hisgail - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

01 de maio de 2015 | 18h56

O livro Nossa Cultura... Ou o Que Restou Dela, com 26 ensaios escritos pelo psiquiatra inglês Anthony Daniels, cujo pseudônimo é Theodore Dalrymple, aborda uma infinidade de temas pertinentes à civilização, cultura, sociedade e política, além de exercer um exímio senso crítico literário e de valor artístico.

Com um estilo ácido e bastante conservador, reporta-se à condição da existência segundo a lógica de que “o passado de alguém não se confunde com o seu destino e é de interesse próprio fingir o contrário”. Com categoria, estabelece um fio condutor de assuntos, dando especial destaque a algumas curiosidades e gostos britânicos, quando afirma em Uma História de Terror, que “não há nada mais eficiente para levantar o moral do povo inglês do que um assassinato realmente sórdido”. São crimes bárbaros e sádicos cometidos na Inglaterra com referência a incesto, parricídio e infanticídio ou sequestro, tortura e assassinatos de crianças, realizados nos últimos 60 anos.

Os ensaios, que datam de 1996 a 2004, organizados segundo quatro áreas do conhecimento - artes, letras, sociedade e política. No campo da literatura, somos presenteados com Shakespeare e a tragédia, Stefan Zweig e o suicídio, Virginia Woolf e a noção de lealdade, Marx e a servidão voluntária. Nas artes, James Guillray - gravurista do século 18, Joan Miró, com sua ideia de criação como ato que destrói a arte, e Mary Cassat, vítima de cegueira precoce e defensora do sufrágio feminino.

Foi escrito numa época que abarcou o bug do milênio, quando diziam que todos os computadores corriam o risco de parar de funcionar, e na qual houve o ataque ao World Trade Center e as ameaças terroristas que transformaram o espaço público em zonas de vigilância e fiscalização, com as câmeras e os olhos eletrônicos, indicando que a mudança veio para ficar.


Neste cenário, o livro denuncia a perda de valores de sociedades decadentes, que põem em risco a vida de inocentes pessoas, com requintes de crueldade, de modo que o perigo passa a comparecer no cotidiano do sujeito a ponto de ele parecer banal, porém fatal. 

No mundo inteiro, vivem-se situações em que o cidadão é refém do destino de outrem, como lemos n’O Criminoso Faminto. Ficamos sabendo que um grupo de presos que recebeu suplementos vitamínicos e minerais, fato revelado em pesquisa científica, reduziu drasticamente a prática de atos de violência. Em muitos casos, os presos em flagrante apresentavam subnutrição e, na prisão, restauravam a saúde nutricional. Então, a reincidência no crime poderia ser uma forma de conseguir tratamento nas enfermarias prisionais. 

A degradação dos costumes, da vida amorosa e da liberdade sexual recheia o bolo de sabores e o apelo ao vício e à virtude tempera as relações humanas. Segundo o autor, o alcoolismo, “caminha de mãos dadas com os relacionamentos grosseiros, violentos e superficiais entre os sexos”, afirmação esta que associa ao “processo de vulgarização” do dia a dia dos ingleses, em virtude do pensamento de uma elite intelectual que despreza a tradição. 

Apesar de estabelecer um duelo entre o vulgar e o refinamento britânico, o mal-estar é inerente a qualquer época da civilização. A Deusa das Tribulações Domésticas trata da morte da princesa Diana e o impacto de tensões que se deu entre a resistência da rainha em hastear a bandeira a meio mastro, em sinal de luto e respeito, e a pujança de Tony Blair, que lança a alcunha “a princesa do povo”, manifestando a comoção social dos ingleses.

Em Lixo, Violência e Versace: Mas Isto É Arte?, com ironia e sagacidade, cita a exposição de arte moderna britânica denominada Sensation, do acervo do publicitário Charles Saatchi, uma das mais polêmicas da história da arte, na Royal Academy of Art, de Londres, em 1997. A repercussão que tiveram algumas obras, foi fenomenal. Como os animais fatiados e no formol de Damien Hirst e a tela gigantesca da foto de Myra Hindley, torturadora e assassina de crianças da década de 1960. O artista Marcus Harvey ampliou a foto tirada pela polícia quando Myra foi condenada e deixou a imagem formada por pontos (pixels) com a forma de pequenas mãos de crianças.

A pedofilia, a pornografia infantil eletrônica e o incesto descortinaram o desejo sexual do adulto num padrão de autodestruição, produzindo como saldo o sentimento de impotência provocado pelas avassaladoras denúncias de abuso sexual infantil. Contingente a isso, pode-se dizer que a paixão pela destruição conserva uma animalidade primitiva, haja vista as guerras e os assassinatos em massa, para nem mencionar os invisíveis vírus e bactérias que dizimam populações inteiras, nutrindo a amargura e o ódio como face distinta do amor.

Mas é no texto de Freud Sobre a Tendência Universal à Depreciação na Esfera do Amor, de 1912, que a referência à impotência psíquica, além da sexual, aparece como uma condição humana que o homem precisa superar. Com efeito, a restrição feita ao amor pela civilização tem ação direta na interferência de componentes perversos e sádicos, quanto aos objetivos da esfera do amor e do erotismo. A tendência universal a depreciar o objeto de desejo, corresponde, para muitos, a um fim sexual, enquanto para outros, encoberta o abuso de poder físico, psíquico e sexual. 

Assim sendo, o que restou da nossa cultura? E o que resta para sensibilizar o homem de que a humanidade, traço essencial da espécie, seja preservada e não apenas sobrevivente do caldeirão da miséria da fome? Do cru ao cozido e da massa ao bolo, temos séculos de história, mas esta aqui vem demonstrando superar as outras. Alguém ficaria indiferente à mais nova versão de sacrifício de crianças, tal qual aquelas que são selecionadas pela facção extremista Boko Haram, na Nigéria, para serem crianças-bombas? 

E então..., o que nos resta..., senão a coragem de dizer..., basta!

FANI HISGAIL É PSICANALISTA, DOUTORA EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA E PROFESSORA DO CURSO LATO SENSO SEMIÓTICA PSICANALÍTICA - CLÍNICA DA CULTURA, NA PUC

NOSSACULTURA... OU O QUE RESTOU DELA

Autor: Theodore Dalrymple

Tradução: Mauricio Righi

Editora: É Realizações(400 págs.,R$ 59,90)

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