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Nos EUA, citação do romance 'O Grande Gatsby' se torna de novo relevante nas eleições

Críticos do comportamento do presidente Donald Trump e de republicanos vêm divulgando frase de Scott Fitzgerald sobre personagens ricos cuja indiferença prejudica todos à sua volta

Ian Prasad Philbrick/The New York Times, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2020 | 12h46

Um comentário crítico, não nomeando o presidente Donald Trump ou seus aliados republicanos, mas claramente direcionado a eles, tem circulado nas redes sociais.

A frase compartilhada nos últimos dias por educadores, escritores e veteranos de governos passados foi extraída de uma fonte improvável: O Grande Gatsby, romance de F. Scott Fitzgerald que fala de ganância e ambição, publicado há quase um século. “Eles eram pessoas indiferentes”, conclui o narrador, Nick Carraway, referindo-se a Tom e Daisy Buchanan, personagens cujos excessos acabam destruindo as vidas das pessoas que os cercam. “Eles destroem coisas e criaturas e depois buscam novamente refúgio no seu dinheiro ou na sua vasta indiferença, ou qualquer coisa que os mantêm juntos, deixando para os outros limparem a sujeira que eles deixaram para trás”.

Para os que compartilharam essa frase online, o indiciamento do rico e displicente casal Buchanan nas páginas finais do livro se ajusta a um governo que tenta minimizar a pandemia mesmo depois de Trump e outros republicanos do alto escalão do governo testarem positivo para a covid-19. “A justaposição entre seus privilégios e sua indiferença face à possibilidade de propagação do coronavírus é que me espanta”, disse Natalie J. Ring, professora na universidade do Texas, em Dallas, cujo tuíte na sexta-feira citando aquela passagem do romance de Fitzgerald foi curtido por milhares de pessoas que, por sua vez, também o compartilharam pelo Twitter. “Fiquei perplexa, como diz Fitzgerald, com a indiferença dessas pessoas”.

Jeremy Konyndyk, que colaborou na resposta à epidemia de Ebola durante o governo Obama, também compartilhou a citação do escritor pelo Twitter, na sexta-feira. “No meu entender, esta é a essência dessa passagem: que as regras normais não se aplicam a eles, que podem arruinar tudo e uma outra pessoa estará lá para resolver as coisas”, afirmou. “Acho que esta tem sido a atitude desta Casa Branca com relação à pandemia”.

A frase do livro apareceu repetidas vezes durante os anos Trump, surgindo de uma maneira intermitente como os olhos do Dr. T.J. Eckleburg que avulta de maneira ameaçadora num cartaz, num romance de Fitzgerald, a representação simbólica de um deus impassível.

A escritora Rebecca Solnit fez referência a ela num ensaio em 2017 dissecando a psicologia do presidente. E a frase figurou com destaque numa análise sobre o personagem publicada em 2018 no The Atlantic, comparando Trump a John Buchanan. E também foi usada para criticar a política do presidente com relação à Síria, atacar a maneira como Trump trata os membros do seu próprio governo e ancorar a crítica literária sobre sua retórica do sonho americano. “Seja um meme ou um tropo da era americana, o fato é que funciona”, disse Aaron David Miller, membro do Carnegie Endowment for International Peace e antigo funcionário do Departamento de Estado que divulgou várias vezes aquela passagem pelo seu Twitter desde que Trump se tornou presidente.

Essa repetição da frase evidencia a ressonância permanente do romance. Apesar das vendas fracas e das críticas ambivalentes quando Fitzgerald publicou o livro, Gatsby se tornou um clássico da literatura americana após sua morte em 1940. Uma obra básica nos currículos escolares em todo país, a cada ano são vendidos milhões de exemplares da obra nos Estados Unidos.  “Adoro o que uma antiga aluna minha disse certa vez: 'é a Capela Sistina da literatura americana em 185 páginas'”, afirmou Maureen Corrigan, professora de literatura na Universidade Georgetown e autora do livro So We Read On, sobre as origens e a persistência cultural do romance. “Ele tem essa qualidade mágica de dizer algo importante sobre a América numa linguagem esplêndida, inesquecível. Por isto agora estamos todos repercutindo essa frase falando de “pessoas indiferentes”.

Para alguns leitores as lições de O Grande Gatsby foram realçadas pela presidência Trump e por uma pandemia que já matou 210.000 americanos e corroeu a economia. “O problema de O Grande Gatsby é que foi escrito em 1925 e tivemos o crash da bolsa em 1929”, disse Ring, que dá cursos sobre a Era Dourada e a Era Progressista, períodos de excessos materiais e reformas que precederam a Grande Depressão. “Já estamos ali”, disse ela.

Mas a difusão do romance na sociedade americana tende a aumentar nos próximos anos. Os direitos da obra, que permanecem nas mãos dos descendentes de Scott Fitzgerald há décadas, devem se tornar domínio público em janeiro e isto chamará de novo a atenção para o livro, disse Blake Hazard, bisneta do escritor e depositária do seu espólio literário. “Supomos que haverá adaptações, sequelas, prequelas ou qualquer coisa que as pessoas imaginarem”, disse Hazard, cantora e compositora em Los Angeles, cuja conta no Instagram está repleta de referências ao escritor. E à medida que se aproxima uma eleição que definirá o futuro político de Trump, a pergunta se a sua presidência irá modificar futuras leituras e adaptações depende de uma outra: "o que Fitzgerald teria feito do presidente?”.

 

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