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Nos 400 anos da morte de Cervantes, ‘D. Quixote’ ganha edição com textos de Dostoievski e outros

Na obra, o tradutor Sérgio Molina reuniu ensaios, cartas, diários e depoimentos de Flaubert, Machado, Thomas Mann, entre outros

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2016 | 06h00

D. Quixote e Sancho Pança são dois velhos conhecidos dos leitores – mesmo daqueles que querem mergulhar na aventura do fidalgo que parte pela Espanha ao lado de seu fiel escudeiro, mas que diante do desafio de ler um livro escrito nos anos 1600 continuam deixando o clássico de Miguel de Cervantes (1547-1616) para uma outra hora. 

Há duas traduções recentes nas livrarias brasileiras. A de Sérgio Molina feita para a Editora 34 é encontrada em duas versões de dois volumes: uma é bilíngue e conta com ilustrações de Gustave Doré e a outra saiu em formato de bolso, só em português e sem os clássicos desenhos. Depois, a Companhia das Letras publicou a de Ernani Ssó, também em dois volumes. A novidade, agora, fica por conta da nova cara que Molina deu ao seu trabalho e cuja ideia foi abraçada pela Nova Aguilar, que se dedica aos grandes autores e seus clássicos.

Pois o clássico de Miguel de Cervantes, que será lembrado no próximo dia 22 pelos 400 anos de sua morte, está chegando às livrarias em volume único com 1.056 páginas – e apenas um quilo, já que foi feito em papel-bíblia. Mas o grande diferencial da obra está nos textos que antecedem a tradução de Sérgio Molina, a mesma publicada pela 34. E aqui, o novo leitor de D. Quixote encontrará a célebre companhia de ninguém menos que Fiodor Dostoievski, Ivan Turguêniev, Gustave Flaubert, Machado de Assis, Olavo Bilac, Thomas Mann, Luigi Pirandello, Carlos Fuentes, Josué Montello e Juan Villoro, entre outros.

São, ao todo, 19 textos, muitos deles inéditos, que apresentam um panorama da recepção histórica da obra-prima de Cervantes e fazem um percurso sentimental pela relação criada com a história dos dois amigos. Nada acadêmico ou crítico. São ensaios, cartas, documentos, diários, elucubrações pessoais que conversam entre si, concordam ou se contradizem. Declarações de amor, em alguns casos, e uma certa implicância, em outros.

O inglês Martin Amis, por exemplo, não está presente na obra com um texto. No entanto, ele aparece no ensaio do argentino Rodrigo Fresán, que diz que o ‘eterno infant terrible’ define Quixote como magistral, mas também “desumanamente enfadonho em 75%” e “comparável a uma dessas visitas do mais insuportável e repetitivo e digressivo dos nossos velhos parentes”.

Mas ninguém é obrigado a gostar. E mesmo o tradutor de uma obra como essa, que, pressupõe-se, guarda um carinho especial pelo livro desde o primeiro contato, demorou a entrar na história. “Meu irmão mais velho falava muito desse livro, dizia que eu tinha que ler porque estava tudo lá. Tentei com 14, 15 anos, mas tive uma dificuldade de me aproximar. O livro não me pegou”, conta Sérgio Molina. 

Ele lembra que a linguagem era muito distante e que precisou amadurecer a leitura para embarcar na narrativa. “É muito difícil ler um romance tão distante no tempo sendo muito jovem e tendo pouca experiência de leitura. Para apreciar esse jeito barroco de contar uma história e de pensar é preciso ler autores que ajudem a entrar no clima, como Vieira e Gregório de Matos.”

Voltou à obra aos 30 e poucos, por causa de uma oficina de tradução que deu, e se encantou. E logo viu que estava na hora de uma nova tradução. Passado um tempo, a 34 pediu para ele traduzir Novelas Exemplares, também do autor, e ele sugeriu fazer Quixote antes. Passado mais um tempo, ele, que verte, agora, as tais novelas de Cervantes, quis publicar esses textos escritos ao longo dos anos a respeito do autor e de seu clássico.

Não se trata de um corpo muito cerrado e não houve obrigação de coerência, ele diz. O que quis foi reunir momentos especiais da recepção, do começo do século 19 até o início do século 21, de autores que deixaram uma marca forte. “A leitura deles lançou luz sobre alguns aspectos da recepção e, em alguns casos, há textos muito pessoais. Heinrich Heine, por exemplo, ao falar de D. Quixote fala, muitas vezes, da vida dele e confunde as coisas de propósito. E isso tem a ver com uma visão romântica da própria leitura”, explica. Uma leitura que nunca se esgota.

Já o mexicano Juan Villoro, destaca o tradutor, fala sobre quanto Cervantes e D. Quixote nos dizem coisas sobre nossas vicissitudes contemporâneas em relação às fronteiras, a ser mestiço o tempo todo, a transitar sem saber direito onde se está. “É uma leitura muito forte. E na segunda parte do livro, que trata da expulsão dos mouriscos, guardadas as devidas proporções, ele poderia estar falando, hoje, dos refugiados que estão sendo expulsos da Europa. Os dramas que ele apresenta são muito semelhantes.”

O mundo não mudou tanto, os problemas são os mesmos e a literatura continua tratando deles. “A possibilidade de abordar esses problemas são, obviamente, infinitas, mas muita gente continua fazendo coisas a partir do que ele fez, e muitos autores dos séculos 20 e 21 optaram por um realismo raso que está muito aquém do que Cervantes alcançou nos anos 1600. Há coisas mais novas nele do que em autores contemporâneos”, diz.

No texto de Thomas Mann, acompanhamos parte de seu diário de leitura. Na travessia da Europa para os Estados Unidos, rumo ao exílio, ele leu D. Quixote e anotou suas impressões intercaladas à sua observação da rotina a bordo – suprimida desta edição.

Pirandello também deixa um relato pessoal acerca da heroicização de Cervantes, presente também em Bilac, comenta Molina. Ele destaca, ainda, o ensaio em que o espanhol Miguel de Unamuno defende o contrário. Para ele, devíamos esquecer Cervantes e ficar só com o D. Quixote

Na palestra proferida em 1860 e reproduzida na obra, Ivan Turguêniev aborda a relação entre Hamlet e D. Quixote, publicados com um pequeno intervalo de tempo. Outra curiosidade: Cervantes morreu em Madri, no dia 22 de abril de 1616, aos 69, e Shakespeare, no dia seguinte, em Stratford-upon-Avon, aos 52. “São dois gigantes fundadores de um jeito moderno de pensar e fazer a literatura. São semelhantes nesse sentido: estabelecem novas fronteiras da criação, entre tantos outros fatores, por romper os limites entre o trágico e o cômico”, diz Molina. Mas comparar os dois, ele completa, é como comparar um cientista que fez toda sua carreira direitinho e um inventor meio amalucado, que teve grandes iluminações, mas que não pode se dedicar como a um negócio, como no caso de Shakespeare.

“A vida de Cervantes foi de grandes reviravoltas. Ele larga o que seria o início da preparação de uma carreira acadêmica, se engaja na armada, luta por seis anos, passa cinco anos preso em Argel. Ao voltar, tem que se virar, ir atrás de emprego que não seja ligado à produção literária. Felizmente. Se tivesse seguido a carreira acadêmica, não sei se teria chegado a fazer D. Quixote. Mas essa vida toda quebrada, cheia de contato com realidades muito duras, muito diferentes, como a cultura árabe muçulmana, a provação da guerra, a ameaça permanente da morte, tem uma marca forte na base, digamos, espiritual, de D. Quixote”, conclui o tradutor.

Na próxima semana, o mundo celebrará os dois autores – a festa para Shakespeare será mais animada, com a Inglaterra organizando eventos ao redor do mundo. Aqui, Cervantes, que já foi samba-enredo no carnaval do Rio e tema de ópera (D. Quixote, no caso), será lembrado com filmes no Instituto Cervantes e atividades diversas na Biblioteca de São Paulo. 

D. QUIXOTE DE LA MANCHA

Autor: Miguel de Cervantes de Saavedra

Tradução: Sérgio Molina

Editora: Nova Aguilar

(1.056 págs.; R$ 199; R$ 149 na pré-venda)

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