REUTERS/Damir Sagolj
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Nos 100 anos da Revolução Russa, livro ‘O Túmulo de Lênin’ analisa o declínio do regime soviético

Em perspectiva, O Túmulo de Lênin é uma espécie de fecho para a história relatada pelo jornalista John Reed em seu livro Os Dez Dias Que Abalaram o Mundo, obra tida como referência da tomada de poder pelos bolcheviques em outubro de 1917

Marcos Guterman, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2017 | 05h00

David Remnick, hoje diretor de redação da revista New Yorker, era correspondente do jornal Washington Post na União Soviética quando aquele país se desintegrou espetacularmente, em 1991. Ciente de que testemunhava um momento histórico, “de um tipo colossal”, em suas palavras, Remnick tratou de fazer a crônica dos últimos dias do império soviético, e o resultado – o livro O Túmulo de Lênin, que ganhou o Prêmio Pulitzer de 1994 e que finalmente está sendo publicado no Brasil – merece figurar entre as obras clássicas do jornalismo.

Em perspectiva, O Túmulo de Lênin é uma espécie de fecho para a história relatada pelo jornalista John Reed em seu livro Os Dez Dias Que Abalaram o Mundo, obra tida como referência da tomada de poder pelos bolcheviques em outubro de 1917. Mas Reed era militante comunista, e seu livro foi prefaciado pelo próprio Lênin, o principal líder da revolução, que recomendou a obra escrita por alguém que, a despeito de não falar russo nem conhecer os hábitos e a cultura da Rússia, “compreendia o sentido dos acontecimentos, o sentido da luta”. Já Remnick – que fala russo e viveu na Rússia por alguns anos – não estava lá para militar em favor de uma causa, e sim para exercer seu ofício.

As mais de 700 páginas de O Túmulo de Lênin conduzem o leitor ao emocionante processo de ruptura experimentado pelos soviéticos, comentado em sua maior parte pelos próprios personagens, tanto os famosos quanto os anônimos. O quadro que Remnick oferece em detalhes muitas vezes escabrosos dizima as ilusões sobre o regime comunista, “o mais duradouro e colossal equívoco do mundo”, segundo sua definição.

Mas o parto democrático iniciado pelo então secretário-geral do Partido Comunista da URSS, Mikhail Gorbachev, não se deu sem dores. Gorbachev fracassou na tentativa de controlar o processo e preservar o partido, gerando toda sorte de reações no antigo centro do poder e também entre os saudosos da ditadura de Josef Stalin, sucessor de Lênin. Como demonstra fartamente Remnick, nem toda a Rússia almejava a democracia – uma parte substancial entendia que Stalin não podia ser difamado, porque, como lembrou um entrevistado no livro, ele “pegou a Rússia, que tinha nas mãos um arado de madeira, e a deixou com a bomba atômica”. Pouco importa se nessa trajetória milhões de pessoas tenham sido assassinadas, e a economia do país, destruída.

Ainda hoje, cem anos depois da revolução, ainda há na Rússia quem aceite Stalin como uma necessidade histórica. “A popularidade de Stalin segue em alta na Rússia”, explicou Remnick em entrevista ao Estado. “Há duas razões para isso. A primeira é que ele ainda é visto como um grande herói daquilo que os russos chamam de ‘Grande Guerra Patriótica’, que é a Segunda Guerra Mundial. A outra razão é a propaganda. Quando eu estava escrevendo meu livro, a propaganda de inspiração soviética ainda existia. Começou a diminuir nos anos subsequentes, mas agora ela está de volta”, disse Remnick, em referência aos métodos autoritários do governo de Vladimir Putin. “Mais de 80% dos russos tomam conhecimento das notícias pela TV, e o noticiário de TV é completamente censurado. Portanto, de muitas maneiras, as coisas infelizmente voltaram ao que eram antes.”

Quando tentou promover a abertura política e econômica na União Soviética por meio de uma espécie de retorno à “pureza” leninista, Gorbachev denunciou Stalin como um equívoco. Mas Remnick deixa claro que Lênin, em essência, não difere de Stalin – talvez somente “no modo como se pronunciam os nomes”, brincou ele na entrevista. O erro de Gorbachev foi julgar que, uma vez convocadas a desfrutar da liberdade, as pessoas continuariam a se submeter à utopia que as havia condenado à desgraça. Entre os mais jovens, que não se sentiam conectados de nenhuma maneira nem a Lênin nem a Stalin, o termo “soviético”, mostra Remnick no livro, tornou-se um insulto – passou a designar quem é tacanho, preguiçoso, servil e hipócrita.

A revolta dos russos contra um Estado que nada mais era do que uma organização mafiosa tornou sem efeito o discurso sobre a “decadência do Ocidente”. Para quem vivia no suplício das filas e à mercê do mercado paralelo para conseguir comida, o Ocidente, mesmo “decadente”, era o paraíso. O socialismo havia se mostrado incapaz de entregar até mesmo uma barra de sabão para que os mineiros pudessem limpar o rosto – e foi essa escassez que deflagrou as greves que emparedaram o regime e empurraram Gorbachev para a perestroika e a glasnost – nomes pelos quais se consagraram, respectivamente, as reformas econômicas e a abertura política.

“O que precipitou o colapso do comunismo foi basicamente o fator econômico”, pondera Remnick. “Foi um grande sentimento, entre os líderes soviéticos, de que o país estava ficando muito para trás, em tudo. As pessoas começaram a discutir a União Soviética como um país falido, uma espécie de ‘Alto Volta com armas nucleares’.” 

No entanto, Remnick insiste que o fator central da revolução que extinguiu a URSS foi, simplesmente, Gorbachev. “Se ele não tivesse iniciado as reformas políticas, o sistema teria prosseguido por tempo indeterminado. Foi uma revolução pelo alto”, disse o jornalista. “Não sei o que teria acontecido 10 anos depois, 20 anos depois, 50 anos depois, mas, se o Partido Comunista tivesse decidido continuar com o modelo de Leonid Brejnev, dirigente que defendia o stalinismo, tudo teria sido diferente.”

No livro, Remnick deixa claro que Gorbachev, embora fundamental, não conseguiu administrar os desdobramentos de seus atos. Questionado sobre esse aspecto, o autor ponderou que não era possível esperar que Gorbachev tivesse poder efetivo sobre um processo tão dramático, mas o mérito dele foi o de ter aceitado deflagrar a revolução, abrindo o sistema a tal ponto “que todo o processo se transformou naquilo que nós chamamos de política”, algo que “não havia dentro da URSS”. Assim, “uma vez que ele começou tudo, uma vez que ele rompeu a represa, que ele abriu a porta, a política invadiu tudo, a história invadiu tudo, as ideias invadiram tudo, o nacionalismo que estava represado em várias partes do império soviético invadiu tudo”.

É esse furacão histórico que Remnick testemunhou e que ele se empenha em detalhar em seu espantoso livro. São tantas e tão terríveis as situações descritas, especialmente entre os soviéticos comuns, aqueles que efetivamente sofreram com a irracionalidade do regime, que dificilmente o cronista que se dispõe a narrá-las, como faz Remnick, o faz sem se abalar. “Sim, tudo aquilo me afetou emocionalmente”, disse o jornalista ao Estado, “mas ao mesmo tempo, e você vai me entender porque também é jornalista, há uma sensação de que você conquistou algo, quando você consegue dar uma espiada no vão de uma porta proibida”. Ainda assim, Remnick diz que sofreu muito, por exemplo, ao ver as valas comuns, onde milhares de dissidentes foram enterrados. “Não era necessário viajar muito longe, para os gulags da Sibéria, para ver os resultados do terror stalinista. A tragédia da URSS era imensa, estava em toda parte.”

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