Robin Marchant / AFP
Robin Marchant / AFP

Nobel de Literatura, Louise Glück é dona de um estilo intimista, por vezes confessional

Se pensarmos simplesmente na produção poética da escritora e ensaísta, é um prêmio mais do que justo

André Caramuru Aubert, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2020 | 15h54

Há mais de uma razão para o resultado do Nobel de Literatura de 2020 ser considerado uma surpresa. Mas a qualidade da obra lírica de Louise Glück não é uma delas, muito pelo contrário. Há poetas mais badalados do que ela e, para completar, Bob Dylan levou o prêmio em 2016, e a Academia Sueca costuma espaçar um pouco mais o tempo entre agraciados de um mesmo país.

Se pensarmos simplesmente em sua produção poética, porém, o Nobel de Louise Glück (que é também uma elogiada ensaísta) é um prêmio mais do que justo. Nascida em 1943, ela estreou em livro em 1968 e publicou até agora dezesseis volumes de poesia. Glück recebeu prêmios importantes, entre os quais o Pulitzer e o Bollingen, e foi Poeta Laureada entre 2002 e 2003. Essa pequena lista de “sucessos” poderia indicar que estamos falando de uma poeta do mainstream, mas nada seria mais distante da realidade. 

Em primeiro lugar, Louise Glück jamais pertenceu a qualquer das badaladas tribos literárias de seu país, como a New York School, a Black Mountain ou o movimento Beat. Dona de um estilo intimista, por vezes confessional, Glück também tem como marca uma escrita econômica, límpida e clara. Não procure, nos versos dessa poeta, surrealismos ou sentidos ocultos. Mas, se você estiver em busca do que de mais comovente o lirismo puder entregar – sem ser piegas –, os poemas de Glück não decepcionarão.

É difícil escolher um de seus livros como o meu predileto. Primeiro, porque a obra de Glück mantém uma constância impecável, desde a estreia, com Firstborn, em 1968, que já parecia obra de poeta madura, e no qual um dos temas centrais é a perda da irmã,

ainda na infância, como lemos nas últimas estrofes do poema The Wound (A ferida): “Você está cobrindo o berço / com lençóis. Eu não sinto / Um fim. Um fim. Está paralisado / Em mim. Ainda vive.”.

Muitos anos mais tarde, o sentimento de perda ainda seria o motor de muito de sua poesia, mas com outros os objetos. No livro Meadowlands (1996), por exemplo, o que se perdia era um matrimônio. Um bom exemplo é o poema The Dream (O sonho), do

qual reproduzo as derradeiras linhas: “Eu fico pensando em como nós costumávamos assistir televisão, / em como eu apoiava meus pés no seu colo. O gato se sentava / sobre eles. Isso não se parece, ainda / como uma imagem de contentamento, de bem estar? E

então / por que isso não pôde perdurar?”

Cenas cotidianas, nas quais a melancolia está presente sem ser explicitada, é outra característica da poesia de Glück. Island (Ilha), publicado em Seven Ages (2001), por exemplo, abre assim: “As cortinas se escancararam. A luz / veio entrando. A luz da lua, depois a luz do sol. / Não eram mudanças por causa do tempo que passava / mas porque o instante único tem inúmeros aspectos.”

Como escrevi acima, a escolha de Louise Glück para o Nobel de Literatura de 2020 foi uma surpresa. E foi mais do que uma boa, foi uma excelente surpresa. Por alguns dias, todos falarão da bela poesia de uma grande poeta. E a poesia estará, coisa tão rara nos

dias de hoje, se contrapondo às notícias ruins nas manchetes dos jornais e nos noticiários da TV. A seguir, um poema de Louise Glück que traduzi especialmente para este artigo:

Departure (de The House on Marshland, 1975)

My father is standing on a railroad platform.

Tears pool in his eyes, as though the face

glimmering in the window were the face of someone

he was once. But the other has forgotten;

as my father watches, he turns away,

drawing the shade over his face,

goes back to his reading.

And already in its deep groove

the train is waiting with its breath of ashes.

Partida

Meu pai está de pé na plataforma da estação.

Lágrimas fazem poças em seus olhos, como se o rosto

brilhando na janela fosse o rosto de alguém

que ele foi um dia. Mas o outro esqueceu;

enquanto meu pai olha, e se vira,

uma sombra desenhada em seu rosto,

de volta à sua leitura.

E já em seu sulco profundo,

o trem espera com seu hálito de cinzas.

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