Ethan Pines/The New York Times
Ethan Pines/The New York Times

No centenário de Ray Bradbury, coletânea investiga origens de 'Fahrenheit 451'

Contos reunidos no livro ‘Prazer em Queimar’ mostram a evolução das ideias do autor ao longo da carreira até alcançar sua obra-prima distópica

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2020 | 05h00

O escritor americano Ray Bradbury nasceu há 100 anos, em 22 de agosto de 1920, e seu centenário está sendo celebrado no Brasil com o lançamento da coletânea de contos Prazer em Queimar pela editora Biblioteca Azul. A obra reúne 16 narrativas do autor, boa parte delas inédita em português e outras já inclusas em As Crônicas Marcianas e A Cidade Inteira Dorme. Cada um dos contos presentes no livro mostra como Bradbury tratou de temas recorrentes em sua obra, como autoritarismo, vigilância, ameaça nuclear e anti-intelectualismo, e como essas preocupações evoluíram ao longo de sua carreira para desaguar na obra-prima Fahrenheit 451.

Lançado em 1953, o livro é um dos maiores clássicos da literatura distópica no século 20, ao lado de 1984, de George Orwell, Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, Nós, de Ievguêni Zamiátin, e Kallocaína, de Karin Boye. Em Fahrenheit 451, após o surgimento de edificações à prova de fogo e a proibição da posse de livros, os bombeiros deixaram de apagar incêndios e seu trabalho passou a consistir em queimar livros. O romance acompanha a jornada subversiva de Guy Montag, um bombeiro que começa a se encantar por esses objetos tão perigosos feitos de papel e de ideias.

Refazendo o percurso das temáticas sobre as quais Bradbury escreveu ao longo da carreira e que o levaram a escrever Fahrenheit 451, a coletânea Prazer em Queimar começa inusitada, com duas histórias de zumbis contadas pela perspectiva dos mortos-vivos. Em O Reencarnado, um homem volta à vida para rever a mulher que deixou, mas se vê rejeitado por ela em sua nova forma. Nesse conto, ainda há um vislumbre de esperança, pois ela está grávida e ele sabe que continuará vivendo por meio de seu filho. Já em Pilar de Fogo, todos os cemitérios são destruídos e os corpos, queimados em nome do progresso. O último defunto da Terra se levanta e parte em uma jornada de vingança contra os vivos. Não há aí qualquer tipo de reconciliação. 

O conflito entre vivos e mortos parece ter pouca relação com o enredo de Fahrenheit 451, mas é importante compreender que Bradbury associa os cadáveres à ideia de memória e o fogo à noção de purificação asséptica. Nessa chave de leitura, a ojeriza dos vivos em relação aos mortos seria uma espécie de negação da memória, uma elegia da ignorância contra o conhecimento dos antigos. Os falecidos são o passado – que queimem, portanto, dizem os vivos.

É o mesmo impulso purificador e moralista que leva os personagens de Bradbury a queimar livros. Em Pilar de Fogo, as obras de fantasia, horror e ficção científica, por serem mentirosas e enganadoras, ou seja, impuras, haviam sido queimadas em um grande expurgo. Ao saber disso, o protagonista, o último defunto da Terra, pensa: “Sou tudo o que restou de Edgar Allan Poe, sou tudo o que restou de Ambrose Bierce e tudo o que restou de um homem chamado Lovecraft (...) Hoje à noite, todos nós, Poe, Bierce e o pai de Hamlet, queimaremos juntos”.

A noção de que os livros mantêm seus autores vivos após a morte é fundamental para se compreender que sua queima, em Fahrenheit 451, além de uma ode à ignorância, é uma revolta contra o passado, a memória e os mortos. Esse aspecto fica evidente nesses contos que, não por acaso, abrem a coletânea. 

Por isso é lícito afirmar que Prazer em Queimar é, justamente, uma investigação sobre o percurso das principais ideias que Bradbury foi desenvolvendo ao longo da carreira e que se uniram para formar o escopo de Fahrenheit 451. E uma das questões mais caras à obra de Bradbury é a oposição entre livros e armas, ou intelecto e truculência.

Esse contraste fica claro nos contos A Biblioteca e Fênix Brilhante. Neste, um grupo de soldados armados é designado para entrar em uma biblioteca e queimar alguns volumes. O diálogo entre o bibliotecário, que quer dificultar a entrada dos militares, e o comandante da tropa é exemplar: 

“– Meus homens são minhas referências. Estão esperando pelos livros lá fora. Eles são perigosos. 

– Esses homens sempre são. 

– Não, não, estou falando dos livros, seu idiota. Os livros são perigosos.”

A noção de que uma simples canetada pode colocar em risco o legado cultural de um povo é uma das maiores preocupações que Bradbury expõe nos contos reunidos em Prazer em Queimar. Em diversas ocasiões, os personagens se referem às leis que aprovaram os expurgos literários: “Aprovaram uma lei. Ah, tudo começou tão pequeno. Séculos atrás, era um grão de areia. Aí começaram a controlar os livros e, é claro, os filmes, de um jeito ou de outro, um grupo ou outro, tendência política, preconceito religioso, pressão dos sindicatos, sempre tinha uma minoria com medo de algo e uma grande maioria com medo do escuro, com medo do futuro, com medo do passado, com medo do presente, com medo deles mesmos e das sombras deles mesmos”, explica o protagonista em Carnaval da Loucura

É esse sentimento que leva os personagens, em O Sorriso, a destruir em praça pública a Mona Lisa. “Tem a ver com o ódio. Ódio por tudo no passado”, explica um dos insurgentes. “Você odeia tudo que te derrubou e te arruinou”, ele diz, tentando encontrar algum tipo de racionalidade por trás do irracional ato de destruir uma pintura. Nesse conto, entretanto, há uma ponta de esperança. Uma criança em meio à multidão enfurecida acaba ficando com o sorriso da Mona Lisa para si e, em vez de destruí-lo, encanta-se com ele e decide guardá-lo consigo. Enquanto isso, um dos homens da turba diz ter saudades da civilização. “Alguém, algum dia, virá com imaginação e irá repará-la. Pode anotar o que eu digo. Alguém com um coração”, ele diz. “Alguém com alma para coisas bonitas.”

No conto A Fogueira, se vê que a destruição do intelecto, para Bradbury, é um indício da célebre frase do poeta alemão Heinrich Heine: “Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas”. Pois, a partir dessa narrativa, o extermínio das obras passa a ser acompanhado da crescente ameaça da bomba: “E demorou milhões de anos para que surgisse o homem. Fico chocado que alguns poucos homens no alto escalão podem estalar os dedos e acabar com tudo. Meu único consolo é que eles também vão queimar”. Não por acaso, em seu livro As Crônicas Marcianas, cujas questões elaboradas se relacionam com os contos elencados em Prazer em Queimar, a Terra acaba por ser destruída em uma guerra nuclear.

Para Bradbury, o ódio aos livros – que simbolizava o anti-intelectualismo, a negação da memória, o revisionismo histórico, a recusa do conhecimento – está sempre intimamente conectado ao autoritarismo, à vigilância, à perseguição ideológica. Isso fica claro em Um Grilo na Lareira, conto doméstico em que um casal começa a suspeitar que o governo instalou uma escuta em sua casa e, embora não tenha feito nada de errado, passa a se autocensurar, com medo de que possa ser punido por algum comportamento. É um dos contos mais ilustrativos do Macarthismo (a perseguição política empreendida pelo senador Joseph McCarthy aos comunistas nos EUA dos anos 1950, que acabou virando uma caça às bruxas generalizada), mas, em tempos de linchamentos morais em redes sociais e extinção da privacidade, esse conto se torna ainda mais relevante.

Após passear por todas essas temáticas – vigilância, autoritarismo, ameaça nuclear, negacionismo –, Prazer em Queimar traz Muito Depois da Meia-noite e O Bombeiro, duas novelas de cerca de 90 páginas cada que são praticamente rascunhos de Fahrenheit 451, com os mesmos personagens e situações, incluindo muitos dos eventos que iriam ser narrados no romance. Ler o fascínio com que o bombeiro Montag lê um livro que deveria queimar tem ainda mais potência após passar pelas narrativas anteriores, que tão bem demonstram a coerência temática da obra de Bradbury.

Em Muito Depois da Meia-noite, numa cena quase idêntica à que o autor escreveria em Fahrenheit 451, o bombeiro Montag queimava uma biblioteca clandestina quando, por acidente, é mordido pelo fascínio que os livros exercem e começa a se libertar de sua ignorância. “Ele ergueu as mãos e um livro pousou obedientemente nelas, como uma flor aberta! Na luz fraca, abriu em uma página, e era como uma pétala com palavras que floresciam com delicadeza. No meio daquele fervor e correria, só teve tempo de ler uma linha, mas ela ardeu em sua mente pelo minuto seguinte, como se tivesse sido gravada com ferro em brasa.” 

Com essa novela, o percurso de ideias galgado pelos contos reunidos em Prazer em Queimar finalmente se encontra mais explicitamente com Fahrenheit 451, oferecendo até mesmo novas perspectivas para reler o clássico distópico.

O agora centenário Ray Bradbury transmitiu como nenhum outro escritor o poder e o prazer subversivos do conhecimento que só a literatura é capaz de proporcionar e que faz o autoritarismo, em todas as suas formas, tanto temê-la e combatê-la.

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