Ana Carolina Fernandes/Estadão
Ana Carolina Fernandes/Estadão

'Ninguém pode competir com as ideias de Paulo Freire', diz a viúva do educador

Alvo de ataques no Brasil, o educador Paulo Freire é o autor homenageado da Balada Literária, que será realizada de 4 a 8 de setembro, em São Paulo, e venda de seus livros cresce no Brasil, diz Nita Freire

Entrevista com

Nita Freire

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

03 de setembro de 2019 | 11h00

Todos os anos, a Balada Literária presta homenagem a um ou mais autores. Para a edição de 2019, que começa nesta quarta-feira, 4, em São Paulo, Marcelino Freire escolheu o educador Paulo Freire (1921-1997), e anunciou sua escolha no ano passado. "Como a artilharia estava pesada para cima de Paulo Freire, resolvi que seria ele. Eu queria que a Balada Literária 2019 fosse de afirmação do legado, da importância, do respeito à obra de Paulo Freire", explica o idealizador e curador que festival que chega à sua 14.º edição e ocupa espaços como a Livraria da Vila, o Sesc e Casa de Francisca até domingo, 8.

Duas pessoas próximas de Paulo Freire, Nita Freire, sua viúva e autora de Nós Dois (Paz & Terra), e a filha Madalena Freire, participam da programação ao lado de, entre outros, Sérgio Haddad, que está lançando O Educador: Um Perfil de Paulo Freire, pela Todavia.

Nita falou ao Estado sobre os ataques que vêm sendo feitos às ideias de Paulo Freire, e ao próprio educador, e comentou como ela acha que ele receberia isso tudo hoje, se estivesse vivo. "Ele não responderia a nenhum insulto. Continuaria trabalhando com muita fé e esperança na sociedade brasileira e lutaria acreditando que seria possível fazer um país melhor, democrático e justo." E contou que as vendas das obras do marido só aumentam.    

Por que Paulo Freire assusta hoje?

Existe muita gente adepta às ideias do Paulo e infelizmente com esse novo governo estão aparecendo muitas pessoas que contestam também. Para ele, educar era conscientizar, fazer um sujeito crítico da sociedade e não só na própria vida, mas para contribuição da sociedade toda. O atual governo não está interessado na melhoria das pessoas. Mas sim no poder próprio deles. Então o que acontece é que o governo não quer sujeitos conscientes e críticos. O Paulo tinha um pensamento revolucionário, não com armas, mas que quer o melhor para o outro. Hoje não podemos fazer crítica ao menor ato do presidente que ele logo incita uma descarga de impropérios ao mundo. As pessoas que assim pensam têm horror a educação que o Paulo propôs. Não é uma educação neutra, ela forma para um projeto político. Para a libertação e autonomia de todos os sujeitos. Desses que estão aí é exatamente o oposto. É um projeto colonial, conservador.

Qual foi o principal legado de Paulo Freire na opinião da senhora?

O legado de honradez e tolerância que não existe mais no Brasil, e de preocupação da dignificação dos homens e das mulheres.

Acredita que esses ataques vão influenciar, negativamente, a recepção de sua obra a partir de agora?

Que nada. Está aumentando o número de pessoas que está lendo Paulo. Há muito mais curiosidade. Só eu, neste mês, tive mais de 10 convites para participar de eventos em todo o Brasil. Ele está sendo homenageado como nunca. E as vendas aumentaram muito. Paulo é um ícone na história do Brasil. Um dos homens mais importantes neste País. É tido como maior educador do mundo todo. Isso fere os brios doentios das outras pessoas. Ninguém pode competir com as ideias dele. Nem copiar, sequer se antepor. Conchavos políticos podem tentar tirar esse título. Paulo é muito querido. Está tendo uma adesão enorme. Esses convites para falar sobre Paulo Freire estão vindo de todos os cantos - do Ceará ao Rio Grande do Sul.

Como imagina que Paulo Freire estaria se sentindo hoje?

Eu acho que Paulo estaria ainda trabalhando, apesar de 98 anos que estaria fazendo em 19 de setembro. Lúcido. E a resposta dele para esses insultos seria nenhuma, ele não responderia a nenhum insulto. Continuaria trabalhando com muita fé e esperança na sociedade brasileira e lutaria acreditando que seria possível fazer um país melhor, democrático e justo. Essas propostas políticas de Paulo fazem o lado de lá ficar desesperado.

Como vê essa homenagem?

Eu acho muito oportuno. Quanto mais homenagens, mais conseguimos mostrar a verdadeira força de Paulo - que não está nas armas, no escárnio, mas nessa presença tolerante, humilde, coerente e amorosa diante da população brasileira. Eu posso te garantir que ele estaria trabalhando ainda, lúcido ainda, dizendo a palavra dele, que era o mais importante para ele. Palavras quando jogadas ao vento, nunca mais se recuperam. As palavras são ação! Palavras que denunciam o mal feito, o desonesto, o ludibriador das pessoas. A palavra dele significava isso. 

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