Nem tão santo

Ele queria ser visto como benevolente, mas o Paul que fará shows no Rio foi também infiel e autoritário, como diz um novo livro

Lauro Lisboa Garcia,

21 de maio de 2011 | 06h00

Uma nova biografia de Paul McCartney chega às livrarias brasileiras, coincidindo com a volta do ex-Beatle ao Brasil para dois shows no Rio, neste domingo e na segunda-feira. Em Paul McCartney – Uma Vida (Editora Nova Fronteira, 400 págs., R$ 44,90), o norte-americano Peter Ames Carlin começa sua história relatando um show do cantor e compositor à cidade natal, Liverpool, quando estava prestes a completar 66 anos.

A leitura é cativante e é recomendável para iniciantes à procura de informações objetivas e analíticas, sempre mostrando como traços da personalidade de Paul refletem em sua arte – embora fãs radicais dele e dos Beatles achem que o livro tem muito “recorta-e-cola” e pouco acrescenta às inúmeras e exaustivas publicações que a sucederam.

"Cada vez que escrevo sobre um artista de qualquer gênero – ou sobre qualquer um que se predisponha a fazer qualquer coisa com tal paixão e brilhantismo – me fascina principalmente a interação entre psicologia e criatividade”, disse Carlin, em entrevista ao Estado. Autor de uma biografia de outro ídolo do rock dos anos 1960, Brian Wilson (líder dos Beach Boys), Carlin diz que ouve Beatles e os discos solos de Paul frequentemente. Porém, critica aquele que considera o orientador dos Beatles (como se fosse o técnico de um time) por viver preso ao passado e fazer shows "com as mesmas velhas canções", enquanto ele sabe que Paul ainda é capaz de fazer trabalhos mais criativos em estúdio do que no palco. A seguir a íntegra da entrevista:

 

Estado: A primeira questão que me veio à cabeça quando peguei seu livro nas mãos foi: ok, eu gosto muito de Paul McCartney, mas o que há de novo para contar sobre ele depois de tantos livros escritos sobre os Beatles? Pude observar diversos detalhes em seu livro relacionando a personalidade dele à música. Esse é o tema principal de seu livro?

 

Peter Ames Carlin: Cada vez que escrevo sobre um artista de qualquer gênero – ou sobre qualquer um que se predisponha a fazer qualquer coisa com tal paixão e brilhantismo – me fascina principalmente a interação entre psicologia e criatividade. Um dos mais importantes (para mim, pelo menos) temas no livro é a relação entre tragédia e criatividade em Paul. Tanto ele como John (Lennon) foram feitos para o rock’n’roll, então um para o outro, então para  moldar seu caminho até o topo, em parte como uma maneira de remediar o vazio de suas vidas. Paul perdeu a mãe quando tinha 14 anos; John foi abandonado por seus pais quando era jovem, então perdeu sua mãe justamente quando estavam se tornando mais próximos. Tais perdas te levam ao fundo do poço e geram uma necessidade de criação, amor, admiração, fama e sucesso que pode ser inextinguível. Virtualmente, cada artista sobre o qual escrevi repete essa mesma história. A de Paul é particularmente espantosa.

 

Estado: Você o descreve como uma pessoa controvertida (como muita gente é, afinal), muito inseguro e confiável, por exemplo, mas esse é um interessante aspecto de seu retrato de Paul, como ele usou a música para superar as tragédias pessoais, etc. Sua intenção era mesmo “iluminar o homem complexo por detrás do mito”, como assinalou a revista People? O que um fã dos Beatles pode aprender sobre Paul lendo seu livro?

 

Carlin: Penso que cada biógrafo se propõe a iluminar a complexa pessoa por trás do mito popular sobre quem eles estão tentando escrever. Para mim, o jeito de fazer isso é evitar as habituais narrativas de bastidores (sexo, drogas, acessos de mau humor) a fim de empreender sérias considerações sobre o trabalho da pessoa. O que não quer dizer que as histórias da vida real não importem de fato – você pode aprender muito sobre a pessoa observando-a andar através de uma sala, conversar com os colegas, amigos e empregados, e assim por diante. Penso que meu livro tem um porção de material novo interessante sobre o papel de Paul como uma espécie de orientador dos Beatles (o que os levou tanto ao sucesso como a seu precoce fim). Tentei também jogar luz seriamente sobre sua transição de Beatle para ex-Beatle; como a sombra dos Beatles tanto inspira como o consome pouco a pouco. Particularmente quando ele vem com sua passional relação de amor e ódio com John, e então sua extremamente desconfortável relação com o legado de John. Toda essa coisa é incrivelmente complicada e, para mim, fascinante. Coloquei muito disso no livro.

 

 

Estado: Você entrevistou vários amigos, parentes e pessoas que trabalharam com ele. Suponho que também tenha tentado entrevistar o próprio Paul, não?

 

Carlin: Oh, com certeza. Levei anos dialogando com a assistente pessoal de Paul (que é perfeitamente charmosa, doce e respeitável, embora eu ache que ela sempre soube que ele nunca me convidaria para conversar). Sempre soube que minhas chances eram um traço, no máximo. Mas ele tem uma grande amizade com Brian Wilson, e uma vez que eu tenha escrito uma biografia de Brian que agradou a ele e seus empresários, eu meio que tive a esperança de que ele ficasse curioso o suficiente para dizer oi. Isso não aconteceu, mas não tomei como algo pessoal. Paul nunca fala para biógrafos, com a única exceção de Barry Miles, que é amigo dele desde meados dos anos 1960 e cujo livro (“Many Years From Now”) é mais como uma autobiografia do que qualquer outra coisa que a gente possa ver.

 

Estado: Bem, acho (como milhões de fãs dos Beatles) que Paul nunca encontrou outro parceiro de canções como John. No fim de seu livro você afirma que Paul é prisioneiro do próprio passado, uma versão cada vez mais apagada dele mesmo, cantando as mesmas velhas canções dos Beatles. Mas ele também foi muito bem sucedido na carreira solo, mais do que John. Como bom crítico de rock, você aprecia os trabalhos solos dele?

 

Carlin: Adoro vários dos trabalhos solos de Paul, especialmente Electric Arguments, sobre o qual escrevi em detalhes no fim do livro. Acho que sei a qual parágrafo você está se referindo, mas o ponto dessa questão é descrever a paradoxal visão de um Paul pegando a estrada para ser o embaixador solo dos Beatles no século 21, enquanto o outro Paul, mais artístico, está de volta ao estúdio, ainda experimentando, ainda se arriscando, frequentemente vindo com coisas maravilhosas. Ele tem sido artista solo por 40 anos (Wings era uma banda bacana, mas a vasta maioria de suas canções é de composições solos de Paul) e vem com grandes álbuns e canções suficientes para preencher a carreira de dois, possivelmente três artistas do Hall of Fame. Mas é tudo ele, e isso é depois do assombroso trabalho dos Beatles.

 

Estado: Você assinala vários detalhes das melodias, letras e arranjos dos Beatles e de Paul. Você ouve os discos dos Beatles ainda hoje? Acha que ainda é possível apreciar diferentes aspectos das canções deles depois desses anos todos?

 

Carlin: Há um certo fator desgastante que vem de se concentrar tão intensamente num único artista pelos anos que se leva para escrever um livro. Uma vez terminado, eu tendo a colocar isso de lado por um tempo. Mas a música dos Beatles e de Paul tem sido, e continua sendo, uma real fonte de alegria para mim. Ouço o tempo todo, com grande prazer. Em parte porque há sempre novas surpresas espreitando ali. Particularmente nos trabalhos solos de Paul, que muitas vezes foram ridicularizados pelos críticos na época do lançamento, só retornando a seu favor muitos anos depois. Nunca soube que “Single Pigeon” (de “Red Rose Speedway”) era uma canção tão grande até que um amigo meu explicou porque ela é. Agora eu a amo. 

 

Estado: Paul está com quase 70 anos. O que você espera dele – um cara que fez o que fez, um dos mais importantes e maiores astros do mundo da música e das artes – agora ou no futuro?

 

Carlin: Espero que Paul continue a fazer exatamente o que vem fazendo por mais de 50 anos – escrevendo, gravando, fazendo shows, pintando, topando qualquer novo desafio que vá de encontro com sua imaginação. A ética de trabalho do cara é espantosa, sua necessidade de realização, de êxito é quase alarmante. E se ele decidir frear um pouco ele pode sempre mergulhar em seus arquivos e passar os próximos 10 ou 20 anos lançando álbuns de canções de qualidade e álbuns que já gravou, mas nunca lançou.

 

Estado: Bob Spitz, autor do livro que muitos consideram a mais importante biografia dos Beatles, disse que sua narrativa sobre Paul é memorável. O que significa esse elogio dele para você?

 

Carlin: Oh, significa muito para mim. Gosto muito de Bob e realmente admiro seu trabalho. Ele realmente fez um trabalho extraordinário em seu livro e ele ter escrito uma nota tão amável sobre meu livro foi tanto uma surpresa como uma bem-vinda recomendação. 

 

Estado: Por outro lado alguns fãs radicais de Paul (incluindo alguns brasileiros) dizem que seu livro é decepcionante, porque não há nada de novo sobre ele ou os Beatles. Além das entrevistas você trabalhou arduamente (como se pode ver na extensa lista de referências bibliográficas) compilando material para o seu livro e isso é o que desagrada alguns fãs, porque parece para eles, apesar de sua excelente escrita, um caso de recorta-e-cola em certos momentos. O que você tem a dizer sobre isso?

 

Carlin: Discordo deles na maior parte, embora também acho que sei porque estão dizendo isso. Virtualmente já se escreveu sobre cada fração de segundo da carreira dos Beatles de alguma maneira, forma ou aspecto. Eu sabia no que estava entrando, então trabalhei duramente reportando tantos novos detalhes quanto pudesse (e acho que há alguns clarões aí, por exemplo no nítido relato de como a citação do grande “Estou deixando os Beatles” de Paul  foi na verdade o oposto do que ele realmente disse, etc.). Mas as verdadeiras revelações, acho, começam no dia depois que os Beatles romperam. Como se sente um cara de 27 anos quando ele se dá conta de que seu maior, mais importante trabalho já ficou para trás? Como começar de novo? O que acontece quando a mais significativa relação (criativa ou outra) termina com tanto amargor? Se eu fosse escrever um romance sobre um cara como Paul, ele começaria depois que os Beatles tinham terminado. De modo que essa é minha parte favorita do livro, e não acho que há nada de recorta-e-cola sobre isso. 

 

 

Estado: Você já tinha escrito a biografia de Brian Wilson depois a de Paul McCartney, dois dos músicos e personalidades mais influentes da cultura pop dos anos 1960. O que vem em seguida?

 

Carlin: Bruce Springsteen. Já faz um par de anos que venho trabalhando nisso e estou muito feliz como está se indo. Simon & Schuster vão publicar o livre nos Estados Unidos no outono de 2012

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