Wilton Júnior/Estadão
Wilton Júnior/Estadão

Nélida Piñon retorna ao romance com o épico ‘Um Dia Chegarei a Sagres’

Para escrever a obra, Nélida Piñon teve de lidar com um braço quebrado e limitação na visão

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2020 | 05h00

Quando chegou a Portugal, em 2018, a escritora Nélida Piñon, uma das mais importantes da literatura nacional, tinha um objetivo claro: produzir um romance de alma, que reproduzisse o espírito navegador que marca a trajetória do povo português, nação que elegeu o mar como extensão de seus caminhos. Nasceu, assim, Um Dia Chegarei a Sagres (Record), obra ambiciosa que retrata, por meio da ficção, o transcurso histórico de Portugal a partir do século 15.

“Desde 2005, tenho esse projeto, mas era necessário estar lá”, conta Nélida, que não publicava um romance desde 2004, quando saiu Vozes do Deserto. Era uma exigência visceral: “O livro pedia um tipo específico de pesquisa, pois eu precisava sentir o cheiro exalado pelas colinas, pelas aldeias, especialmente da região de Sagres. Bastava olhar para uma árvore. Como a história se passa no século 19, eu necessitava recuperar isso com precisão”.

Um Dia Chegarei a Sagres acompanha a trajetória de Mateus, rapaz filho de uma prostituta e de pai conhecido e que é criado pelo avô, Vicente, na região rural do norte de Portugal. Ali, em meio a uma rotina de escassa expectativa, Mateus abandona a aldeia quando o avô morre, embalado pelo mito do Infante Dom Henrique de Avis, que, no século 15, foi o principal impulsionador da expansão portuguesa pelos mares. Segue, então, para Lisboa até chegar à vila de Sagres, onde, reza a lenda, o Infante teria criado uma escola náutica.

“Mateus busca restaurar a utopia do resgate de Portugal”, observa Nélida, que esteve em Sagres, já no final de sua estadia portuguesa. A visita foi decisiva: “Senti a presença do Infante Henrique, como se ele estivesse instigando a enfrentar o oceano, e, mais importante, senti o vento que sempre empurrou aqueles homens a se aventurar no mar”.

Em sua saga que cruza o país, Mateus descortina o passado e o futuro, apoiado ainda na poderosa poesia de Luís de Camões e seus Lusíadas. No período de dois anos e dois meses de trabalho, Nélida também embarcou em uma viagem, mas literária, em que a linguagem lapidada ressalta valores – assim, a aldeia de Mateus torna-se universal, seus animais são sacralizados e Deus não apenas existe, mas está presente.

Nélida Piñon enfrentou enormes desafios físicos para finalizar Um Dia Chegarei a Sagres. “Antes de chegar a Lisboa, passei por Madri, onde faria uma conferência e quebrei o braço. Não desisti, mas percebi que um problema que limitava minha visão estava se agravando”, relembra a escritora que, aos 83 anos, exibe uma invejável disposição.

A solução encontrada foi hercúlea: “Ainda em Lisboa, comecei a escrever a mão, quase que sofregamente, todos os dias. Minha ajudante Karla, que entende bem a minha letra, transcrevia cada capítulo para o computador”. Assim, o romance nasceu em um rompante, mas com uma estrutura já bem definida. “Em seguida, iniciei o trabalho da lapidação das frases, pois invadi o território sagrado da língua, instrumento que serve ao texto.”

Já de volta ao Rio, no ano passado, Nélida chegou a fazer oito versões até chegar à definitiva. “Aperfeiçoei o conceito, que já estava definido desde minha passagem pela Europa, que foi extrair dos portugueses a definição de ser luso e da determinação em se lançar pelo mundo”, explica a autora, que se impôs ainda outro desafio: escrever na primeira pessoa e com uma voz masculina, a do personagem Mateus. “Foi preciso um esforço para ser fiel ao sentimento e, principalmente, aos desejos de um homem.” Ela se diverte com a reação dos amigos próximos, que leram antes o livro e se surpreenderam com a fidelidade com que retrata emoções masculinas. 

Nessa fase, quando se encaminhava para a conclusão da obra, o mundo já vivia sob a pandemia do coronavírus e as pessoas, isoladas em suas casas. “Foi o momento ideal para imergir no processo final da escrita, a me debruçar durante longas jornadas sobre cada frase, a fim de encerrar aquela odisseia narrativa”, conta a escritora. “Desde o dia 12 de março, não vou nem ao elevador do meu prédio, mas não tive nem um momento de mau humor ou depressão. Meu receio não é o de morrer, mas de ficar entubada – não quero ficar escrava da vontade alheia.”

A obsessão pelo conceito correto, a palavra perfeita, a frase definitiva é uma marca da obra de Nélida Piñon, que não mede esforço até atingir seu objetivo. Seu romance anterior, por exemplo, Vozes do Deserto, de 2004, exigiu que ela passasse cinco anos às voltas com a cultura árabe, lendo o Corão (livro sagrado dos muçulmanos) e estudando a história e a mitologia dos povos do Islã. Como a palavra sempre teve um peso valioso para a escritora, nenhum livro seu sai da gráfica sem um cuidadoso preparo.

E, se dependesse de seu editor na Record, Carlos Andreazza, o livro seria lançado no próximo ano, quando a pandemia já deverá ter amenizado. “Eu precisava mostrar que o escritor brasileiro triunfa diante das vicissitudes, especialmente as tão graves como a que vivemos hoje”, explica ela, conseguindo que o livro já chegasse às livrarias.

O curioso é que Um Dia Chegarei a Sagres poderia ter nascido há mais tempo, uma vez que Nélida acalenta o desejo de escrevê-lo desde 2005. “Eu sabia da necessidade de estar em Portugal a fim de fazer as pesquisas, mas comecei a evitar a viagem pois meu cachorro amado, Gravetinho, teria de viajar no porão do avião, o que seria impensável.”

É notória a paixão de Nélida pelos animais, cães em particular. E a morte de Gravetinho, em 2017, depois de 11 anos de convivência, doeu fundo. “Ele era tão amoroso que acredito ter morrido para também me liberar para escrever o romance em Portugal”, comenta a escritora, com a voz engasgada.

Perdas e ganhos marcam a vida de qualquer um, em especial de Nélida Piñon. Em 2 de dezembro de 2015 – a exatidão traduz o impacto provocado pelo acontecimento daquele dia –, ela foi informada de que padecia de um câncer avançado, que não lhe deixaria mais que seis meses de vida. Ainda que assombrada, manteve uma calma relativa, que lhe permitiu organizar a própria morte: desde recomendações sobre as músicas que deveriam ser tocadas em seu velório até a firme recomendação de não ser enterrada trajando o fardão da Academia Brasileira de Letras.

Felizmente, um exame mais apurado realizado meses depois não apresentou sequer um vestígio do câncer. Mesmo diante do falso veredicto, Nélida continuou escrevendo um diário, que resultou em Uma Furtiva Lágrima, lançado no ano passado. Foi mais uma vitória de uma mulher para quem a literatura, mais que uma arte, é uma energia, uma ferramenta para mudar o mundo.

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