Christina Ruffato/Estadão
Christina Ruffato/Estadão

Nélida Piñon lança livro e contesta afirmação de que não é lida

‘Filhos da América’ fala sobre o continente que brigou povos tão distintos e de Machado de Assis

Amilton Pinheiro, O Estado de S.Paulo

17 Dezembro 2016 | 03h00

A entrevista por telefone com a escritora Nélida Piñon estava marcada para as 10h. E no horário combinado, o Estado ligou para sua casa. Ela atendeu e foi logo elogiando a pontualidade. “Eu sou escandalosamente pontual”, falou do outro lado da linha e, antes de cair na gargalhada, alertou: “Eu sou de falar demais, prepare-se”.

E, de fato, foi uma conversa bastante generosa no tempo gasto, quase duas horas e principalmente na diversidade dos assuntos abordados. Ela não declinou em responder a nenhuma pergunta, inclusive sobre um assunto delicado, o fato de ser uma escritora pouco lida. “Essa observação é injusta, desculpe a franqueza. Se você me fala isso é como estivesse me rubricando de forma negativa. Acho que não deve ser falada, porque não corresponde à verdade”, contesta ela de forma veemente (leia mais abaixo).

Nélida está lançando Filhos da América (editora Record), livro com 28 ensaios, dois deles dedicados ao escritor que ela nunca deixou de ler e de escrever a respeito: Machado de Assis. “Ele é uma raridade, porque é o primeiro escritor das Américas, dos filhos da América, a abordar o urbano. E o que é o urbano para ele? É uma metáfora do Brasil, como ele entendia o País, e que estava concentrado na cidade do Rio”, diz.

A estreia de Nélida nas letras foi em 1961, com o romance Guia-Mapa de Gabriel Arcanjo. Como ela mesma frisou na entrevista, não foi um começo clássico para quem se inicia no ofício. “Eu aprendi, tenho aprendido, a cruzar vários gêneros. Sou uma escritora que não começou com um livro de contos, como é usual, mas com um caudaloso romance, Guia-Mapa de Gabriel Arcanjo.”

Esse cruzamento de gêneros é uma marca nos seus livros, mesmo os de não ficção como é o caso do mais recente, Filhos da América

Num dos ensaios dedicados ao Bruxo do Cosme Velho (A Pólis de Machado de Assis), apesar dos elementos ensaísticos, toda a narrativa é construída de forma quase ficcional, como se a invenção conduzisse os fatos reais narrados. “Eu também acho que minha não ficção é envolvida de invenção. Melhor dizendo, acho que tudo é invenção. Nesse ensaio, tenho que imaginar como Machado inventou a cidade, como ele olhava para a cidade do Rio”, explica.

Nélida Piñon, que foi a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras, acha que as mulheres de hoje, que falam sobre empoderamento feminino, esquecem de citar as conquistas coletivas. “Não se pode esquecer delas, já que ajudaram a sedimentar esse tal empoderamento, sobre o qual não me atrevo a falar porque não domino.”

"Não cogito meus leitores, eles existem"

A editora Record divulga números da escritora e diz que a publica porque suas obras são boas e dão lucro

Os números que cercam a carreira da escritora Nélida Piñon são expressivos quando se leva em consideração a literatura que ela faz, livros ensaísticos e ficcionais densamente narrados. São mais de 300 mil livros vendidos, sendo 60 mil de A República dos Sonhos, e 21 publicados, mas quatro deles estão fora de catálogo (dados fornecidos pela editora Record).

De onde partiu a fama de Nélida Piñon ser pouco lida? Segundo o editor da escritora, Carlos Andreazza, da Record, é difícil precisar. “Mas eu apostaria que tem algo a ver com certa implicância paulista com a Academia Brasileira de Letras, da qual ela é defensora e uma das vozes mais importantes.” 

Mas, independentemente de como surgiu a fama, Andreazza contesta a afirmação em cima dos números que a escritora apresenta na Record. “Objetivamente, Nélida vende mais do que a média do escritor brasileiro e seus livros são lucrativos. A editora não faz favor. Publica seus livros porque são bons e porque dão lucro. Nélida combina as duas coisas – por isso tem quase toda sua obra em catálogo”, exemplifica.

Quando o assunto é abordado durante a entrevista, Nélida começa questionando a própria afirmação da pergunta: “Dizer que sou pouco lida, como assim?! Tenho uma obra quase toda editada. A República dos Sonhos já foi reeditado não sei quantas vezes. Isso que você está dizendo não é verdade. Agora me diga qual é o escritor que, assim que termina um novo livro, a editora logo se prontifica em editá-lo?”, devolve ela.

FILHOS DA AMÉRICA

Autora: Nélida Piñon

Editora: Record (398 págs, R$ 59,90)

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