Ozier Muhammad/The New York Times
Ozier Muhammad/The New York Times

Neil Gaiman fala sobre ‘Alerta de Risco’, o fazer literário e o poder da literatura

Em entrevista ao 'Estado', autor conta que escreve e lê para ir para lugares desconhecidos

Entrevista com

Neil Gaiman

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

01 de setembro de 2016 | 06h00

“Há coisas nesse livro, assim como na vida, que podem perturbá-lo. Temos morte e dor aqui, lágrimas e desconforto, violência de todos os tipos, crueldade e até abuso.” Quem avisa é o escritor inglês Neil Gaiman na introdução de Alerta de Risco – Contos e Perturbações, que a Intrínseca acaba de lançar no País. Mas há também gentileza, de vez em quando, ele continua, e alguns finais felizes. Nesta entrevista exclusiva para o Estado, o autor de Sandman, Deuses Americanos e Coraline vai além ao dizer que os contos – há também um poema na obra – são engraçados e doces. “Se você entrar em cada história esperando que eu leve para um lugar sombrio, terá uma experiência peculiar”, adianta.

Independentemente do teor das histórias, elas levam o leitor a “lugares estranhos”, e vem daí o título da obra – que remete, também, a uma onda de alertas de risco em obras americanas.

Neil Gaiman é um escritor pop e conceituado que transita bem entre literatura (romance, conto, graphic novel e obra infantil), cinema e televisão, que se engaja em campanhas em prol de bibliotecas e refugiados e que arrasta multidões de fãs por onde passa. Na Flip em 2007, por exemplo, ele autografou ininterruptamente por seis horas livros de leitores que fizeram sua peregrinação para a cidade fluminense atrás do ídolo. Pelas suas contas, foram duas mil pessoas.

Otimista melancólico, escritor para quem a literatura tem a função de levar, autor e leitor, para um lugar totalmente novo e uma das vozes mais engajadas. Gaiman, 55, falou ao Caderno 2 sobre isso tudo, sobre seu livro preferido quando menino, Os 13 Tique Taques, e muito mais. Confira trechos da entrevista concedida, por telefone, pelo escritor. 

Eu gostaria de começar perguntando sobre outro livro, 'Os 13 Tique Taques' (Poetisa), obra de James Thurber de 1950 que acaba de sair aqui. Na introdução, você diz que o leu aos 8 anos e que com ele podemos aprender tudo o que precisamos saber sobre como contar uma história. Como esse livro o tocou e o que aprendemos de fato com ele?

Uma das coisas mais bonitas é que ele é quase um poema. A história é uma delícia, mas a poesia da história é ainda melhor. Temos a impressão de que aquilo canta como uma música bonita. E ele é um dos poucos livros que eu li quando criança – talvez Alice seja o outro – de cujas frases ainda me lembro. Foi ali que tudo começou para mim. E acho que também tem a ver com o prazer de contar história – prazer do qual estamos nos esquecendo.

Na introdução, você também diz que este é um livro que deixa as pessoas felizes. 

Pois é. Conto a história de uma amiga que me ligou aos prantos. Eu não podia fazer nada além de tentar animá-la. Então, comecei a ler esse livro e funcionou direitinho. 

A literatura tem essa função de deixar as pessoas felizes? O que você espera de um livro?

Boa literatura proporciona muitas coisas diferentes: ela nos deixa felizes, nos leva a lugares que nunca vimos antes e nos tira de dentro de nossa cabeça.

É isso o que você busca quando começa a ler um livro?

O que busco é ser levado a lugares aonde nunca fui. É fazer uma jornada.

É por isso que cria tantos mundos, tanta fantasia?

Um bom livro sobre vida real e história podem levar o leitor aonde ele nunca foi. Não tem a ver com fantasia, mas com habilidade, com o ofício, e tem a ver com o poder da ficção de nos fazer ver o mundo com olhos que não são nossos.

O que era a literatura para você quando pensou pela primeira vez que queria ser um escritor – e quando foi isso – e o que ela representa hoje?

Não me lembro de ter havido um tempo em que eu não queria ser um escritor. Na verdade, eu não queria ser um escritor porque eu já era. Se eu quisesse ser alguma coisa, talvez eu fosse um astronauta, um super-herói ou um guerreiro. Mas eu sempre senti que era um escritor, desde a infância. 

Como o fato de ter sido um bom leitor na infância o fez chegar até aqui? As referências literárias daquela época são importantes ainda hoje?

Quando você começa a escrever, você soa como muitos autores antes de soar como você. E ter pessoas excelentes na sua cabeça é muito bom. De alguma forma, ainda trago essas vozes. É como uma sopa. Quando vai fazê-la, coloca vários ingredientes na panela e no fim, o sabor é de sopa, e não de cebola, cenoura, etc. Espero que neste ponto da vida eu tenha o sabor da sopa.

Algumas de suas histórias são sombrias e nos levam a lugares estranhos, como você diz. Considerando a realidade, como Trump nos EUA e o Brexit, no Reino Unido, para citar alguns fenômenos dessa onda conservadora, podemos dizer que o mundo está se tornando mais sombrio e duro?

Podemos, sim, dizer que o mundo está se tornando mais duro, mas se formos comparar com 1942, com 1350, o mundo é muito melhor hoje e mais seguro. Mas há coisas muito ruins acontecendo, e muitas pessoas vendendo misérias e escuridão. Mas para cada pessoa vendendo miséria e escuridão há 10 pessoas tentando ter uma vida melhor e transformar o mundo num lugar melhor.

Você é otimista, então?

Sou fundamentalmente um otimista, mesmo quando eu sou um otimista melancólico.

Seu nome é sempre relacionado a campanhas em prol de bibliotecas, refugiados ou mais literatura infantil nos jornais. Faz isso porque acredita que o escritor tem que tomar partido, porque tem algum tipo de responsabilidade?

Acredito que se você tem uma plataforma, você tem responsabilidades. A responsabilidade do escritor é com o que ele está escrevendo. Mas como alguém que, por acaso ou não, tem muita gente que quer me ouvir, posso falar para esse público sobre o que está acontecendo no campo de refugiados, por exemplo, e me sentirei muito orgulhoso. Tenho quase 2,5 milhões de seguidores no Twitter. Isso é louco e maravilhoso.

A literatura nos ajuda a imaginar e construir um mundo melhor? 

Acredito nisso. Quando se constroem presídios, a taxa de alfabetização é levada em consideração. As habilidades leitoras, ou a falta dela, podem aumentar sua probabilidade de ir para a prisão. Metade dos presos no Reino Unido leem como uma criança de 11 anos ou menos. Ler, e ler ficção, ajuda na empatia. E empatia é a coisa mais importante. Quando conseguimos olhar uma pessoa e nos sentimos em sua pele, em sua mente, por dentro de seus olhos, então nossa vida muda e fica tudo diferente.

Na introdução de 'Alerta de Risco', você diz que aprendeu sobre a vida e sobre as pessoas lendo.

A literatura nos leva a lugares aonde não iríamos. Se há duas pessoas morando em São Paulo e uma lê literatura e a outra não lê, a que não lê nunca saiu de São Paulo e a outra foi a centenas de cidades, viu milhares de olhos, conheceu pessoas diferentes. É isso o que a literatura faz: ela leva a lugares e coloca você dentro da mente de outras pessoas. 

Você faz uma introdução a todas as histórias de 'Alerta de Risco', justamente para avisar o leitor sobre o que ele pode encontrar ali. Por quê?

Não sei se isso já chegou ao Brasil, mas, nos EUA, tem-se falado muito na ideia de colocar esses alertas de risco em peças, livros e filmes que possam se revelar difíceis para as pessoas, chateá-las e levá-las para lugares escuros e perigosos. Fiquei fascinado com isso e até entendo usar o artifício com conteúdos envolvendo estupro, por exemplo, mas não entendo por que colocar um alerta em Hamlet. Só porque a história contém assassinato e suicídio? Isso foi o começo. Depois, decidi fazer menção à ideia no título e comentar os textos – alguns são pesados, outros leves, mas todos levam a lugares estranhos. 

De um lado, os alertas podem aplacar a curiosidade dos leitores sobre a história por trás da história. De outro, podem acabar com a surpresa do leitor.

É engraçado... Quando escrevemos uma coletânea de contos, nunca sabemos se alguém vai ler a introdução. Às vezes, até escondo um conto dentro da introdução só para ver se as pessoas estão lendo. Pode ser que atrapalhe a experiência, sim. Mas gosto da ideia de que as histórias neste livro são engraçadas, doces. Se entrar em cada história esperando que eu leve para um lugar sombrio, terá uma experiência peculiar. 

Quando escreve para crianças, você tenta ser mais cuidadoso, pensa nesses alertas de risco? Ou acha que elas estão prontas para lidar com suas histórias?

Sou muito mais cuidadoso com os adultos. As crianças são mais fortes e espertas do que se imagina. Quando adultos me contam que ficaram aterrorizados com Coraline, por exemplo, eu sinto muito. Mas as crianças me dizem que o livro era engraçado.

As crianças estão lendo mais?

Sim. Harry Potter acendeu o pavio e a literatura infantojuvenil é uma das áreas de maior crescimento do mercado editorial. Com as crianças, o importante é que elas leiam, independentemente do quê. O gosto delas não é o mesmo do adulto. As crianças podem não querer a refeição principal e ficar no espaguete. 

Você escreveu que quando reúne contos para uma coletânea, percebe que eles tratam sempre do mesmo tema. Alguns autores dizem, ou ouvem dos críticos, que estão sempre escrevendo a mesma história. Que história é essa que você quer contar?

Quando vou adiante no tempo, como um escritor, tudo o que eu quero fazer é contar histórias que nunca contei antes, fazer algo que nunca fiz, ir a lugares onde nunca fui. Quando olhamos para trás, percebemos que tudo faz parte do conjunto. Quando eu morrer, vão olhar para a minha obra e dizer: isso tudo é obviamente Neil Gaiman e parte de uma mesma coisa. Mas, neste momento, gosto da ideia de que o que quer que eu faça de novo é diferente do que já fiz. 

Você acaba de publicar uma coletânea de ensaios, se prepara para lançar 'Norse Mythology'. Há sempre algo novo saindo. É uma demanda dos seus fãs ou vontade sua de escrever mais e mais?

Normalmente, é só esse desejo mesmo de ir a um lugar totalmente novo, tanto que estou começando um novo romance. 

Planos de voltar ao Brasil?

Eu gostaria muito de voltar ao Brasil e levar a minha mulher (a cantora Amanda Palmer). Ou então ser levado por ela. Fiquei chocado quando descobri que The Dresden Dolls nunca tocaram no Brasil. Não volto ao País desde 2007. Na última vez que me encontrei com Tom Stoppard, ele comentou sobre aquela longa fila na Flip. Naquele dia, todo mundo aproveitou a noite e eu só assinei livros. Acho que dois mil. Fiquei muito agradecido.

ALERTA DE RISCO

Autor: Neil Gaiman

Tradução: Augusto Calil

Editora: Intrínseca (304 págs., R$ 44,90 versão impressa, R$ 29,90 o e-book)

 

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