REUTERS/Amanda Perobelli
REUTERS/Amanda Perobelli

'Narro minha história pela fala visceral', diz MV Bill sobre seu livro de crônicas

Recolhido na quarentena, rapper carioca lança 'A Vida Me Ensinou A Caminhar' e retoma shows com disco inédito

Entrevista com

MV Bill, rapper

Carlos Eduardo Oliveira, Especial para o Estadão

04 de junho de 2022 | 05h00

 No dia da entrevista a playlist de MV Bill pausou em Necropolítica, novo disco dos Ratos de Porão. “No Brasil de hoje, esse disco faz total sentido. E eles estão mais afiados”, chancela o carioca Alex Pereira Barbosa. Saindo do casulo após mais de dois anos de nenhum show e algumas poucas lives, o rapper, escritor e ativista social emerge do confinamento com uma paleta de novidades. Gravado durante a pandemia, o CD Voando Baixo ganha o palco pela primeira vez no setlist da turnê que estreia em Salvador, em 2 de julho, seguindo para Rio e Floripa, antes de ganhar outras praças. Nos shows, Bill celebrará o repertório de Declaração de Guerra (2002), seu segundo registro, com o qual reafirmou ao que veio, e que agora completa 20 anos. 

O período de afastamento também serviu para que mergulhasse (novamente) em estúdio. “Já gravei algumas coisas, mesclando minha música com ritmos mais atuais. Preservando minha essência, mas ouvindo coisas novas, novos sons”, adianta - o trabalho sai no segundo semestre. Longe de holofotes, Bill exorcizou histórias, polêmicas (como a do Free Jazz Festival, em 1999) e dramas pessoais de toda sorte que agora repassa no recém lançado A Vida Me Ensinou A Caminhar (editora AGE), seu primeiro livro solo. Em ritmo suingado, o rapper elenca memórias de várias fases da vida no formato de crônicas despretensiosamente coloquiais. “Nunca antes expus minha intimidade de forma tão pública”.   

No decorrer da realização de A Vida Me Ensinou A Caminhar, sentiu a necessidade de separar o compositor do cronista? 

Às vezes, sim. Em outras, há uma junção dos dois. Literatura e música são artes muito complementares, em alguns momentos. Tenho o meu método próprio para fazer música. Para o livro, tive que ter uma abordagem diferente. Não estava apenas escrevendo contos, mas compartilhando histórias pessoais que nunca antes haviam sido compartilhadas com o público, ainda que algumas fossem até um pouco conhecidas nos bastidores. Tive que descobrir um método próprio para isso.

Há passagens do livro que poderiam estar em suas letras, e vice-versa, não?

Algumas sim, com certeza. Nesse livro, quem me conhece apenas por músicas e entrevistas vai me conhecer de uma forma mais íntima. Há histórias que talvez não virassem música, e que entraram por conta do momento em que vivemos, saindo de uma pandemia. Comecei a escrever em 2020, no auge do problema, do isolamento. E isso funcionou como uma válvula de escape. Virou um ensinamento. 

 

No texto, você transita do humor ao drama de forma leve. Em algum momento exerceu autocensura, em histórias que eventualmente não pudessem ser publicadas?

Foi até um pouco o contrário. Antes da pandemia, eu tinha outra ideia do que o livro seria. Com a pandemia, fui buscar sentimentos ainda mais profundos. Sentimentos de sarcasmo, de reflexão, de humor, alegria, tristeza, raiva. Isso tudo está lá. Acima de tudo, busquei o coloquialismo de narrar essas histórias em tom gostoso, como se conversasse com as pessoas. Acho que funcionou.

O tom do livro, mais informal que suas letras, ajuda a dar vigor às histórias?

Você matou a charada: a fluência da parada. Sem tentar poetizar, usar palavras rebuscadas. A verdade, através de minhas próprias palavras. Há livros de personalidades escritos por outras pessoas que são obras muito importantes. Eu optei pela fala visceral, como forma de narrar minha própria história. Algumas passagens me trouxeram nostalgia, outras, muita tensão. Principalmente ao recordar minha infância. Quando era criança, eu e minhas irmãs levávamos uma vida normal como qualquer criança, mas ao mesmo tempo vivíamos o drama da insegurança alimentar. Nunca sabíamos se almoçaríamos hoje, ou se jantaríamos amanhã. Eu nunca havia exposto minha intimidade assim antes. 

 

O (empresário e empreendedor social) Celso Athayde, com quem você fundou a Central Única das Favelas, é onipresente no livro. No momento em que ele ganha reconhecimento internacional, como avalia a longa parceria entre vocês?

Ter começado a Cufa com o Celso é um dos maiores orgulhos da minha vida. Ele foi um divisor de águas em minha trajetória. Tanto que há um momento em que ele aparece no livro e não sai mais. Apesar de eu não fazer mais parte da Cufa, ainda temos um laço grande. Tenho orgulho de suas ações e desdobramentos, da consciência que ele tem, dos prêmios que ganha. Mas nós dois sabemos que isso é só a ponta de uma grande caminhada. O problema da periferia ainda está longe de ser resolvido.

Como é revisitar hoje, 20 anos depois, um disco seminal em sua carreira com foi 'Declaração de Guerra'? 

Durante muito tempo, mesmo que houvesse músicas novas, esse disco foi a base de nossos shows. Afinal, são músicas que marcaram muito. Ironicamente, o lado tragicômico é que letras como Só Deus Pode Me Julgar tenham versos que ainda fazem tanto sentido. Isso mostra como o Brasil é repetitivo. 

Escritos como os de 'Soldado do Morro' (de 'Traficando Informação', 1999) e imagens de projetos como 'Falcão - Meninos do Tráfico' (2006) ainda são incomodamente contundentes. Nada mudou, de lá para cá?

A história é velha: lugar onde o poder público não entra fica entregue à própria sorte. É onde Soldado do Morro ainda faz sentido. Felizmente, hoje há muitas ONGs e projetos sociais, então, de alguma maneira, a vida de ao menos parte dessa juventude evoluiu, ainda que o ideal seja que a letra não faça sentido em lugar nenhum. Já o documentário mostrou pela primeira vez o drama dos jovens do tráfico, na voz deles mesmos. Algo novo para a época, que levantou uma discussão. Hoje vivemos um tempo em que esses jovens se filmam no crime e postam em suas redes sociais.

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