Acervo Estadão
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Narrativa impiedosa da autobiografia de Rita Lee pode ser ensinamento à classe artística

Antes de escreverem sobre si mesmos no papel de seres infalíveis, astros da MPB deveriam ler o livro da cantora

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2016 | 06h00

Rita Lee retirou o grampo da granada e a jogou no próprio pé. Ao cair, a bomba não só a desintegrou como lançou estilhaços a muitos que um dia estiveram a seu lado. Os irmãos Sérgio Dias e Arnaldo Baptista, parceiros de Mutantes, e sua família; o guitarrista Luis Carlini, do Tutti Frutti; a empresária Monica Lisboa, chamada pejorativamente de “governanta”, produtores, jornalistas, compositores.

Em apenas um parágrafo, Rita implode assim a família dos irmãos Mutantes. “...Avançavam na comida antes de chegar à mesa, falavam alto de boca cheia e, para meu completo nojo, bebiam no gargalo da mesma garrafa de Coca Cola passada de mão em mão...” Sobre Sérgio Dias, faz o pior comentário que um guitarrista pode ouvir: Ele era “95% técnica e 5% alma”. Sobre os problemas psiquiátricos de Arnaldo Baptista, ela conta um episódio aterrador. Um dia, ligou para ele como se fosse a secretária de Kurt Cobain e Arnaldo, interessado, passou a falar sem nenhum sinal de demência. Rita contesta o estado clínico de seu ex-marido.

A respeito da biografia A Divina Comédia dos Mutantes, do jornalista Carlos Calado, lançada em 1996, ela diz se tratar de “masturbações literárias” de um “pretensioso autor que melhor faria ficar calado.” E termina: “Sei que nenhum dos ex-membros dos Mutantes considera tal livro merecedor de crédito, portanto o escolho como nossa melhor biografia-lixo.”

Há rancores escorrendo pelas páginas, engrossando o caldo de sua ironia e abastecendo seu estilo, e algumas passagens que sua memória podem ter misturado aleatoriamente. Mas, ao final, Rita faz um serviço de utilidade pública ao conseguir enxergar-se fora do púlpito e sem coroa.

Ela bem que poderia inaugurar no Brasil a era das autobiografias impiedosas, algo que sobretudo os ingleses aprenderam a fazer sem medo de processos. Eric Clapton, Keith Richards e Rod Stewart, que poderiam evocar suas reputações para justificar seus silêncios, revelaram até por quais orifícios se entupiram de drogas. Agora, Rita vai, em muitos pontos, além do que um biógrafo poderia chegar. E, claro, poupa outros pontos delicadíssimos que, um dia, só serão revelados por esses biógrafos. Rita abriu a porteira e, agora, pode esperar que seus detratores já se prepararam para a vingança.

 

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