REUTERS/Mike Segar
REUTERS/Mike Segar

Naomi Wolf, a ativista que caiu em descrédito

No topo do panteão feminista nos anos 1990, escritora amarga rejeição por todos os lados após dados de seu livro serem contestados e de ela se posicionar contra vacinas

Paulo Nogueira, Especial para o Estadão

17 de julho de 2021 | 05h00

É, não está fácil para ninguém - nem para os mais marmóreos vultos do ativismo. Como a americana Naomi Wolf, uma das mais influentes feministas contemporâneas, que foi banida do Twitter. E por um motivo de dar vergonha em Donald Trump (ele próprio já enxotado daquela rede social) - ou em seus destrambelhados epígonos sul-americanos.

Naomi se instalou no panteão feminista, em 1990, com a publicação de O Mito da Beleza, a partir daí, figurinha fácil na bibliografia acadêmica dos “Estudos Femininos”. Naomi inspirou desde as Vingadoras Lésbicas às organizações pró-aborto, das marchas Take Back the Night ao chamado “feminismo pró-sexo”. 

O Mito da Beleza, no currículo do ensino médio norte-americano, espinafrava “o lucro e o patriarcado” por fazerem as mulheres se angustiarem sobre a respectiva aparência. Os títulos dos capítulos eram granadas verbais: Trabalho, Sexo, Fome. E uma ilustração sugestiva simbolizava o mito da beleza: a Donzela de Ferro, instrumento medieval de tortura decorado por fora com a imagem sorridente de uma jovem. A metáfora assinalava o modo como imagens de beldades mascaram na sociedade de consumo o sofrimento a que as mulheres se submetem pela quimera da beleza. 



Como se não bastasse, a própria autora, então com 28 anos, era linda de morrer, inviabilizando o proverbial impropério misógino (pré-#MeToo) de que as feministas não passam de barangas mal-amadas. Com um visual de parar o trânsito, Naomi podia estapear a indústria da beleza com uma credibilidade inexpugnável. E não era monástica: rejeitando a austeridade espartana da segunda onda feminista, ajudava a enunciar os desejos de uma nova geração: “Glamour é a demonstração da capacidade humana de encantar - e não tóxica em si mesma”.

Botemos os pingos nos is. A história feminista é dividida em três ondas. A primeira, do fim do século 19 ao início do 20, lutou sobretudo pelos votos das mulheres, com as famosas suffragettes, e o direito de propriedade e o de herança iguais. A segunda onda, entre 1960 e 1980, postulou o aborto e anticoncepcionais. Com o slogan “O pessoal é político”, tratava-se de vincular o individual ao institucional. A munição veio de O Segundo Sexo (1959), de Simone de Beauvoir, e A Mística Feminina (1963), de Betty Friedan. Peitava-se (inclusive queimando-se sutiãs) a noção de que a maternidade e o lar eram o lugar geométrico da vida da mulher. A terceira onda despontou em 1990, gerada na academia e nas chamadas teorias pós-modernas, incluindo as ideologias de gênero. Segundo esse prisma, a vida das mulheres é interseccional (termo criado por Kimberlé Crenshaw, da Universidade de Columbia) - enredada na raça, etnia, classe, religião, gênero, etc. Pois todo discurso é poder, e toda realidade é subjetiva.

Enquanto isso, a carreira de Naomi Wolf, que já fora conselheira do vice-presidente Al Gore - escorregava e depois desembestava ladeira abaixo. Em 2012, ela publicou Vagina: Uma Nova Biografia - uma obra que as próprias feministas consideraram um embaraçoso mico: como resmungou Liza Featherstone na New Republic: “Quanto menos se falar nesse livro, melhor”. Já Outrages, lançado em 2019, se apoia num erro histórico tão crasso que o próprio editor recolheu a edição. 

Desgraça pouca é bobagem e até O Mito da Beleza pisou na bola, quando ficou claro que as estatísticas nele apresentadas eram pra lá de duvidosas. Por exemplo, os dados sobre distúrbios alimentares e anorexia estavam errados em dois terços das citações. Acadêmicos criaram até o acrônimo Wolf para descrever a incúria da abordagem: Wolf’s Overdo and Lie Factor (Fator Wolf de Mentira e Exagero). Como observa Liza Featherstone, “Wolf relata um genocídio que nunca aconteceu - lembrando a histeria do QAnon sobre crianças por pedófilos”.

Com a pandemia e via Twitter, Wolf pirou na batatinha. Primeiro, jurou que, de acordo com um funcionário da Apple (que teria assistido a uma “demonstração ultrassecreta”), a tecnologia das vacinas tem a ver com viagens no tempo (mais provavelmente com viagens na maionese, digo eu). Depois, exigiu que a urina e as fezes das pessoas imunizadas sejam separadas no esgoto público, até que o efeito “contaminante” na água potável seja estudado. “Ninguém fala do perigo que os vacinados representam para os não vacinados!”, rosnou a lupina Wolf. 

E aceitou protagonizar um evento antivax em pleno “Juneteenth”, feriado nacional nos EUA que, desde 1866, comemora a emancipação dos afro-americanos escravizados. Segundo Naomi, os organizadores da manifestação escolheram essa data para “mostrar que vacinas são escravidão”.

Tal postura levou o Twitter a banir Naomi Wolf por “semear desinformação”. O poder tentacular das chamadas Big Techs (as corporações gigantes do reino digital) e a liberdade de expressão são um dos temas mais acalorados da atualidade: a Amazon filtra os livros que expõe em seu site, o Google manipula as buscas, etc. Por outro lado, quantas mortes causaram as fake news que infestam a ágora eletrônica, desde o “chip alienígena” à metamorfose jacaré, confundindo milhões de pessoas ingênuas ou distraídas? 

O besteirol de Wolf ditou até uma eventual reavaliação de um episódio lúgubre. Em 2003, ela publicou um texto alegando que 20 anos antes o professor Harold Bloom, do qual era aluna em Yale, tinha passado a mão na coxa dela, durante um jantar na casa dele. E só não o denunciara porque não tivera coragem. A universidade respondeu que “o abuso é uma afronta contrária aos valores desta instituição”. Bloom, o crítico literário mais proeminente das últimas décadas, morreu há um ano e meio sem dar um pio. Em compensação, a também feminista, lésbica assumida e ex-aluna de Bloom, Camille Paglia, acusou Naomi de “caça às bruxas” e de “empurrar um septuagenário doente para um bate-boca do tipo “ela disse/ele disse”. O nível do barraco continuou caindo assustadoramente, com Paglia rugindo que Wolf “passa a vida inteira piscando os olhinhos, balançando os seios e cortejando os homens”. Já parecia mais a piscina do Gugu, só que com QI positivo. 

Com a Interseccionalidade, este é um momento melindroso para o movimento feminista. Numa marcha no dia 8 de março em Paris, desfilaram separadas mulheres brancas, negras e trans. Até a violência masculina virou polêmica. A feminista negra Alison Phipps alega que “mulheres brancas privilegiadas transformam em arma seu trauma da violência masculina, pedindo mais polícia e sentenças mais longas, sem se preocupar que são negros que pagam o pato nas prisões”. Feministas brancas replicam que é absurdo chamar de racistas mulheres que exigem punição do estupro e do feminicídio, independentemente da cor da pele do criminoso. 



Jovens feministas da França (dos pais do pós-modernismo Foucault, Derrida e Bourdieu), como Eugenie Bastié e Caroline Fourest, questionam a indulgência das ativistas ocidentais com as teocracias islâmicas (ignorando os casamentos impostos de adolescentes com homens muito mais velhos, a privação do estudo e a mutilação genital das meninas). Enquanto isso, o novo gabinete de Israel tem nove ministras (sem falar em um árabe). 

No final de junho, a escritora nigeriana Chimamanda Adichie (autora de Sejamos Todos Feministas) postou em seu blog um texto inflamado. Era uma réplica a uma ex-aluna que a acusava de transfobia, se congratulava com a morte dos pais da autora durante a pandemia e pedia que ela fosse morta a facadas. Num tom patibular, Chimamanda conclui: “Já não somos seres humanos”. A conclusão era óbvia: hoje em dia, nós odiamos uns aos outros.

Quanto a Naomi Wolf, ela declarou ao Congresso dos EUA que um “eventual passaporte para vacinas é igual ao início de inúmeros genocídios”. Ainda no Twitter, afirmou que as vacinas são “uma plataforma que permite receber uploads”. Ou seja: se virarmos jacarés, não choremos lágrimas de crocodilo. Acrescentou que os EUA estão contrabandeando o vírus ebola da África para usá-lo no país. E que Edward Snowden, o analista da CIA e da NSA, que divulgou segredos militares dos Estados Unidos, é na verdade um agente duplo da Casa Branca. 

Segundo alguns, um corolário perverso das teorias pós-modernas foi a rejeição da ciência e da razão iluminista. Esse obscurantismo fundamenta tanto o negacionismo antivacina como o questionamento do aquecimento global e a fé no terraplanismo. Pelo andar da carruagem, Naomi Wolf e farinhas do mesmo saco continuarão teimando que covid é para frouxos, e que cloroquina é uma mistura de emplastro Brás Cubas com joelhaço. Bem, todos temos direito às nossas próprias opiniões, mas não aos nossos próprios fatos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.