Renee Sklarew/The Washington Post
Renee Sklarew/The Washington Post

Autora premiada com o Pulitzer lança livro sobre ações para salvar o planeta

A jornalista Elizabeth Kolbert revela seu otimismo em 'Sob um Céu Branco: A Natureza no Futuro'

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

03 de maio de 2021 | 15h01

Em 2015, a escritora e jornalista americana Elizabeth Kolbert ganhou o Prêmio Pulitzer (a maior honraria da imprensa, literatura e composição musical) pelo livro A Sexta Extinção, em que mostra como a capacidade humana de destruição remodelou a vida no planeta como absolutamente nenhuma espécie fizera até então. Foi um trabalho dedicado, pesquisando a ação de dezenas de cientistas espalhados pelo planeta, de ilhas quase inacessíveis na Islândia até a cordilheira dos Andes.

Não satisfeita, Elizabeth continuou a explorar a degradação ambiental em novas obras como Sob um Céu Branco: A Natureza no Futuro, lançado agora pela editora Intrínseca, também responsável pela versão brasileira de A Sexta Extinção. Agora, sob um olhar um pouco mais esperançoso: depois de apresentar efeitos destrutivos, ela relaciona modificações que transformaram a natureza, mas com a intenção de salvar o meio ambiente – desde recifes de coral geneticamente modificados para que possam sobreviver em ambientes mais quentes, ao uso de uma frota de aeronaves de alta altitude para injetar minúsculas partículas de sulfato na estratosfera para refletir a luz do sol e resfriar o planeta (o título do livro, aliás, é inspirado em uma pesquisa que sugere que, se for possível realizar esse tipo de engenharia solar, é capaz de transformar o céu azul luminoso em um branco nebuloso).

Como a própria Elizabeth escreve, o livro é “sobre pessoas tentando resolver problemas criados por pessoas que tentam resolver problemas”. “A luta do homem hoje é a de encontrar mais perspectivas para isso”, disse ao Estadão, em uma entrevista realizada por Zoom. “E o Brasil assume um papel essencial, por conta de sua enorme biodiversidade.”

A jornalista abre o livro narrando a curiosa história do Rio Chicago, que corta a cidade de mesmo nome. Desde sua origem, ele corria em direção a leste, desaguando no Lago Michigan. Com o tempo, o rio tornou-se depósito de esgoto e resíduos animais, que chegavam ao lago criando um enorme problema de saúde pública, pois dali saía boa parte da água destinada à cidade – Chicago tornou-se vítima constante de doenças transmitidas pela água. Assim, no início do século passado, os governante locais investiram em um imenso projeto que inverteu a correnteza do rio, obrigando-o a ir a oeste, para a bacia de drenagem de outro rio, o Mississippi.

O problema original, envolvendo o abastecimento, foi resolvido, mas criou outro, também de imensas proporções: a junção dos rios com a poluição provocou o encontro de espécies que habitualmente não dividiam o mesmo espaço, além do surgimento de outras, que se tornaram invasoras e colocaram em risco o equilíbrio ambiental, prejudicando a fauna habitual. A solução encontrada foi a importação de uma carpa asiática para auxiliar no biocontrole dos rios ao consumir principalmente ervas daninhas.

Novamente, a cena se repetiu: as carpas ajudaram no reequilíbrio, mas sua proliferação tornou-se perigosa. Assim, para evitar que tal população cresça demasiadamente, em certas áreas do rio foram colocadas barreiras eletrificadas, que não apenas davam conta das carpas, como também de outras espécies de peixes. “Há uma região que estava tão eletrificada que podia ser mortal até para humanos”, conta Elizabeth. As toneladas de carpas capturadas eram encaminhadas para a produção de fertilizante – algumas, porém, são comercializadas, especialmente para um chef francês, Phillipe Parola, que dirige até 12 horas desde o sul dos EUA a fim de comprar o animal para transformá-lo em bolinhos de peixe que se parecem com almôndegas gigantes.

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Com esse e outros exemplos do livro, espero ajudar o leitor a entender esse momento extraordinário em que vivemos. E como temos todos uma tremenda responsabilidade
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Elizabeth Kolbert, escritora

Para Elizabeth – que provou o bolinho e o considerou gostoso –, são exemplos sistêmicos de como a intervenção humana, ainda que bem-intencionada, não é capaz de restabelecer a ordem natural. “Nós manipulamos o sistema, ainda que não pretendêssemos em muitos casos: não tínhamos intenção de aquecer o planeta ou de acidificar os oceanos. Mas nós conseguimos”, comenta ela, que decidiu escrever o livro quando, há alguns, visitando o Havaí, conheceu um projeto chamado Super Coral, que busca solucionar um grave problema provocado pelo aquecimento dos oceanos e pela maior concentração de gás carbônico na atmosfera: a existência de corais que, ao criarem recifes, agregam ecossistemas com enorme biodiversidade.

Como não é possível reverter principalmente o aumento da temperatura dos oceanos, cientistas iniciaram pesquisas para, a partir de cruzamentos, criar uma espécie de coral que sobreviva a esse aquecimento. Daí a finalidade do Projeto Super Coral, ou seja, tornar possível hibridizar ou cruzar corais para obter variedades mais vigorosas. “E esses dois tipos de intervenção – primeiro, alterando a temperatura dos oceanos e, depois, tentando modificar os recifes que sofreram diretamente com a primeira intervenção – me pareceram ser um novo capítulo em nosso relacionamento muito complicado com a natureza”, explica a pesquisadora.

Elizabeth Kolbert escreve de forma direta, por vezes bem-humorada, além de apresentar uma profusão de detalhes, fruto de pesquisas e inúmeras entrevistas, a maioria in loco. Com isso, injeta com segurança informações esperançosas, deixando o leitor ligeiramente otimista com a certeza de que ainda há tempo para corrigir os inúmeros problemas ambientais provocados pelo homem. Ela mostra soluções tecnológicas criadas pelo próprio homem, como a Climeworks, empresa suíça que solicitava contribuições para viabilizar seu alentado projeto: retirar o gás carbônico da atmosfera a fim de injetá-lo 800 metros abaixo da terra, onde se transforma em rocha.

Com isso, contribui para manter o aquecimento global em níveis seguros. Elizabeth imediatamente aderiu ao projeto e, depois de um ano de contribuições, decidiu conhecer pessoalmente o trabalho. Para isso, viajou até a Islândia (“um deslocamento imprudente, devo confessar, que ajudou para aumentar ainda mais as minhas emissões de carbono”, escreve ela, ironizando sua “poluidora” viagem de avião), onde conheceu todas as fases do processo. “Com esse e outros exemplos do livro, espero ajudar o leitor a entender esse momento extraordinário em que vivemos. E como temos todos uma tremenda responsabilidade.”

Leia um trecho de Sob um Céu Branco: A Natureza no Futuro

"A carpa-prateada é voraz; sua eficiência em filtrar é tanta que possibilita a eliminação de plânctons de até quatro mícrons – um quarto da espessura do mais fino cabelo humano. Onde aparecem, as carpas competem com os peixes nativos até só restarem praticamente elas. Como o jornalista Dan Egan definiu: ‘Carpas-cabeça-grande e prateadas não apenas invadem ecossistemas. Elas os conquistam’. No rio Illinois, as carpas atualmente representam quase 3/4 da biomassa de peixes; em outros cursos d’água, a proporção é ainda maior. O prejuízo ecológico vai além; teme-se que a carpa-negra, que se alimenta de moluscos, esteja dizimando mexilhões de água doce, ameaçados de extinção.”

 

SOB UM CÉU BRANCO

Aut.: Elizabeth Kolbert

Trad.: Maria de F. O. do Coutto

Ed.: Intrínseca (224 págs., 49,90, R$ 34,90 e-book)

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