Não há nada de novo em sua escrita

Nem todo mundo gosta de Elena Ferrante. A professora de Literatura Italiana na USP é uma das que não gosta e expõe seus argumentos

* Lucia Wataghin, Especial para o Estado

28 de agosto de 2020 | 10h00

Nem todo mundo gosta de Elena Ferrante. Mesmo muitos dos leitores que estimaram seu primeiro livro, L´amore molesto (1992) - que teve, na época, atestados de favor e apreço do público e da crítica -, rejeitaram a A Amiga Genial. Essa última foi publicada em quatro volumes, entre 2011 e 2014, e, ao longo dos anos, também em traduções em 50 países, com mais de 12 milhões de cópias vendidas, e acompanhada por intensos debates da crítica, a favor e contra. A crítica desfavorável notou que, nos anos que separam os primeiros livros de Elena Ferrante da quadrilogia, sua escrita se transformou, abandonando uma certa ideia de literatura, inovativa e não condescendente, para se tornar a língua de um best-seller mundial, próxima do “tradutês” – aquela “língua desimpedida, tranquilamente brilhante e moderadamente letrada das traduções” (Giuseppe Antonelli), distante, o mais possível, de inovações e experimentações. Nessa língua é narrada, em forma de feuilleton, a história da amizade decenal de duas mulheres, com pontual suspense no final de cada capítulo, além de muitos ingredientes capazes de despertar o interesse do público, como a aguda análise psicológica de perfis femininos (mas também masculinos) e a ambientação cuidadosa, especialmente napolitana. O olho infalível dos americanos intitulou a inteira saga Neapolitan Novels, atraindo o público para o “local”, que se torna “global” (“glocal”, segundo Massimo Fusillo) nessa obra, excelente produto da world fiction - entre os atributos da world fiction está a maleabilidade, a capacidade de se adaptar a outros meios, como televisão e cinema, com acontece com A Amiga Genial

Um best-seller, portanto, muito bem confeccionado, que rejeita deliberadamente a ideia de “literatura” em nome da “vida”: Ferrante luta com “obstinado desapreço” contra a “superavaliação da escrita literária”, porque “há muitas outras coisas que merecem uma dedicação sem limites” (Frantumaglia). Ela também conta, ainda em Frantumaglia, de seu amor de adolescente por romances melosos e fotonovelas – um repertório, escreve, “cheio de prazer, que por anos reprimi em nome da literatura”. A afirmação interessa pelo gosto provocatório e pela insistência no princípio do predomínio do enredo sobre língua, estilo e outras considerações: do enredo e de toda uma máquina narrativa capaz de induzir a identificação do leitor e manter sua atenção até o final do volumoso feuilleton. E é um sinal da afirmação da posição de marginalidade e exclusão do mundo masculino - a posição da qual suas protagonistas e sua narradora olham para o mundo. Marginalidade é palavra-chave também na posição de Ferrante em relação à literatura: ela declara sua auto-exclusão desse mundo e se apresenta como voz feminina “marginal”, afirmando, com sua obra, que é possível transformar a exclusão feminina do poder – e, com ele, da “alta literatura”- num ponto de força.

Mas isso é possível? Não vemos nada de novo na sua escrita, nenhuma novidade nem mesmo em sua leitura da condição feminina, que já foi lida com maior agudeza e força por escritoras e escritores na história. A autora declarou (L’invenzione occasionale, 2019) que tem por objetivo “contribuir a fortalecer uma nossa genealogia artística que aguente, por inteligência, fineza, competência, riqueza de invenção e densidade emotiva, o confronto com  a masculina”. Sem dúvida, sua contribuição à genealogia da escrita feminina existe; não sabemos em que medida possa ser considerada positiva. 

Elena Ferrante tem pouco a ver com a literatura contemporânea; suas qualidades de narradora são reconhecidas, mas sua voz parece provir “de um livro dos anos 50” (Paolo di Paolo); a quadrilogia é “um ótimo produto”, mas “retrô”, distante das “inquietações estilísticas, estruturais, epistemológicas da melhor narrativa de hoje” (Massimo Onofri). Há várias leituras feministas de sua obra, muitas de caráter descritivo ou exegético (afinal, tudo precisa de explicação), gratas pela análise da psicologia social e pela denúncia da condição de opressão feminina que se confirma global, aos olhos das leitoras do mundo inteiro. Mas essas leituras, embora favoráveis, também confirmam a dificuldade em encontrar qualidades fortes, fora da world fiction, no estilo de Elena Ferrante. 

* É professora de Literatura Italiana na USP

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