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Na abertura do Salão do Livro de Paris, Brasil promete mais apoio à literatura

Juca Ferreira diz que políticas públicas devem ser aperfeiçoadas

Andrei Netto - CORRESPONDENTE, O Estado de S. Paulo

19 Março 2015 | 21h57

PARIS - O Brasil deu nesta quinta-feira mais um passo em seu esforço de "soft power" para projetar a literatura brasileira no exterior e romper com o estereótipo de "País do futebol", onde a arte e a literatura são coadjuvantes. Convidado de honra do Salão do Livro de Paris de 2015, o País trouxe à França 44 autores contemporâneos com o intuito de aprofundar a presença de autores nacionais nos maiores mercados consumidores de livros do mundo. Para o ministro da Cultura, Juca Ferreira, ainda é preciso aperfeiçoar as políticas públicas para estimular a leitura de brasileiros no exterior. Para autores, o desafio é publicar e quebrar os estereótipos.

A 35ª edição do Salão do Livro abriu as portas nas noites de quinta com um grande fluxo de convidados que circularam entre os estandes dos maiores editores da França. No centro do Parque de Exposições de Porte de Versailles, o pavilhão do Brasil, de grandes dimensões e situado em um local nobre, foi sem surpresas um dos mais badalados por autoridades. Fleur Péllerin, ministra francesa da Cultura, marcou presença logo na abertura da feira, quando destacou autores que marcaram a história da literatura brasileira, de Padre Antonio Vieira a Mário de Andrade, passando por Castro Alves e Machado de Assis. "Depois de ter conquistado o público em 1998, o Brasil mostra mais uma vez sua diversidade e sua riqueza", destacou. "Se o Brasil é convidado pela segunda vez é porque compartilhamos a mesma ambição pelo livro e pela leitura."


Se os elogios à "diversidade" e à "riqueza" dos autores brasileiros têm sido uma constantes na França nesta semana, na imprensa, entre críticos e autoridades, o discurso não entusiasma o ministro da Cultura, Juca Ferreira, que é realista. Segundo ele, ainda há muito a ser feito para abrir espaço e garantir uma presença perene dos escritores do País nas prateleiras de livrarias de mercados como a Europa e os Estados Unidos. "Temos uma política de financiar a tradução das obras literárias brasileiras. Isso tem permitido que os escritores cheguem a mercados na França, na Alemanha, nos Estados Unidos e aumentado em muito o interesse pela literatura brasileira", disse ao Estado. Juca Ferreira reconheceu, porém, que ainda há problemas estruturais, como a falta de um Instituto Machado de Assis, para divulgar a língua, e políticas de estímulo à formação de tradutores do português brasileiro - um dos grandes gargalos apontados por acadêmicos e editores estrangeiros. "Quando se vai subir a escada, sempre há um primeiro degrau", ponderou, destacando o sucesso da política de traduções.

Beneficiada pelo incentivo do Ministério da Cultura para a tradução quando da publicação de seu primeiro livro na França, Adriana Lunardi é uma das provas de que o apoio à literatura pode ajudar a afirmar escritores brasileiros no exterior. Seu segundo livro, Corpo Estranho - "Corps étranger", em francês   -, foi publicado na França pela editora Joelle Lorsfeld, selo do grupo Gallimard, por iniciativa do próprio editor, sem necessidade apoio financeiro do governo. O resultado, segundo ela, é que, com a maior presença de autores do País no exterior, um novo público leitor vêm se formando. "Os leitores que estavam habituados com a literatura brasileira moderna foram substituídos por uma nova geração. A literatura contemporânea está sendo recebida por um público mais jovem. Há uma outra geração escrevendo, e outra geração lendo", entende.

Além de reconquistar espaço e a respeitabilidade que a literatura brasileira teve no século passado com nomes como Clarice Lispector, Guimarães Rosa e Jorge Amado, as traduções e a abertura de novos mercados podem ajudar os escritores brasileiros a superarem um outro obstáculo: o estereótipo do País. A necessidade de romper com o arquétipo de País do futebol, do carnaval, das praias e das mulheres foi destacado pela imortal Ana Maria Machado, em seu pronunciamento na manhã desta quinta-feira, na sessão solene conjunta realizada pela Académie Française com a Academia Brasileira de Letras (ABL), em Paris, em um dos mais importantes eventos prévios ao Salão do Livro. "A imagem do Brasil não é associada aos livros. O Brasil não é considerado um país de literatura", advertiu, comparando o estereótipo da nação no exterior a "um corpo sem cérebro" e reclamando um novo imaginário, mais próximo das artes e da literatura. "Nós, brasileiros, somos muito mais do que isso ", disse Ana Maria aos imortais franceses.

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