Rafael Arbex|Estadão
Rafael Arbex|Estadão

‘Mr. Jabot’, considerada a primeira HQ do mundo, vai ganhar edição no Brasil

Editor André Caramuru Aubert procura parceiro para lançar obra publicada por Rodolphe Töpffer, na Suíça, em 1833

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2016 | 06h00

Há alguns anos, Jean Aubert chegou à casa do filho com uma caixa na mão e disse que era melhor que ele guardasse tudo ali porque no sítio onde vivia, em Embu-Guaçu, havia muita umidade e já não cabia mais nada. “São coisas que seu avô trouxe da Suíça e dizem que tem a ver com o inventor dos quadrinhos”, ele comentou. 

André Caramuru Aubert não deu muita bola. Apesar de ter sido um leitor de HQ na infância – as preferidas eram Tintim, Obelix e Príncipe Valente –, ele nunca tinha ouvido falar em Rodolphe Töpffer (1799-1864), o autor daqueles oito volumes amarelados que o pai lhe confiava.

Passados alguns anos, ele se deparou com um texto sobre a história dos quadrinhos e achou conhecido aquele nome, Töpffer, a quem era creditada a autoria da primeira HQ – outros pais são reivindicados. Voltou então à caixa e se viu diante não apenas de um exemplar antigo de Histoire de Mr. Jabot, tido como o livro fundador, mas de um dos raros volumes da primeira tiragem, feita pelo suíço em 1833 e distribuída a alguns poucos amigos. 

Quando André descobriu que aquilo era importante, foi atrás do pai em busca de mais informações e ouviu que o autor “era da família”, mas não mais que isso. Foi pesquisar. Ligou para um tio de Olinda, que não sabia nada além disso. Procurou um primo na Suíça. Pelo que ouviu, Töpffer teve filhos, mas a família não teve continuidade. Como os Aubert e os Töpffer eram muito próximos, o acervo ficou com os antepassados de André. E pelo que entendeu, seu pai era dono de tudo, mas, ao se mudar para o Brasil, teve de deixar para trás parte do material. O que ficou por lá (originais, manuscritos, etc.) foi doado para a Prefeitura de Genebra. O que cruzou o Atlântico na viagem feita por Jacques, o pai e dono da relíquia, e Jean, o filho, deve começar a ganhar edição em português no segundo semestre. 

O caminho. Jacques Aubert nasceu em Genebra em 1906. Uma cidade acanhada, calvinista e conservadora. Sua família, muita rica, não fugia à regra e não aceitava que o garoto se interessasse mais por arte – e daí, talvez, venha a razão de ter guardado os livros de Töpffer por tanto tempo – do que pelos negócios. Assim que fez o serviço militar, ele se mudou para a França. “Tinha 22 anos e foi, em 1926, viver os anos loucos de Paris do entreguerras. Ficou até amigo de Picasso”, conta André. 

Lá, trabalhou como correspondente para a imprensa suíça, conheceu a mulher, uma inglesa, e viu seu primeiro filho, Jean, nascer, em 1931. Pouco tempo depois, o casal se separou, veio a Segunda Guerra Mundial e a mulher, já de volta a Londres e receosa pela segurança e pelo destino do filho, então com 5 ou 6 anos, decidiu levá-lo para viver na pacata Genebra com o avô. 

Ao voltar de Paris, Jacques inaugura a Éditions du Rhône, que foi bem durante alguns anos porque a França estava invadida e a parte da Suíça que falava francês não tinha mais como comprar livros de lá. Com o fim da guerra e a volta das editoras francesas à normalidade, as coisas começaram a degringolar. Além de tudo, era extremamente perfeccionista em seu trabalho e perdia dinheiro em busca de qualidade. 

Não tinha como continuar em Genebra e não tinha para onde ir, já que a Europa estava destruída. Ouviu sobre as maravilhas do Brasil e logo depois embarcava com a família num navio na Normandia. Chegaram a Santos em 1952. Na bagagem, os tais oito exemplares que herdou – e que não editaria aqui, pois trocou os livros pela pintura. A tarefa seria empreendida seis décadas depois pelo neto, com quem pouco conviveu – ele, sim, um editor.

Pioneiro. “Meu avô sabia tudo sobre Töpffer, mas morreu antes que eu o descobrisse. Então, fui pesquisar”, conta o editor. Para ele, o suíço sabia que estava criando algo novo. “Ele ficou inseguro porque tinha muito medo de ser mal recebido, uma vez que era uma pessoa séria e Genebra, um lugar conservador. Töpffer dava aula de desenho em escolas e faculdade e seu pai foi professor, também de desenho, da imperatriz Josefina, mulher de Napoleão. Por isso, não podia se dar o luxo de fazer uma coisa que chocasse muito a sociedade”, conta. 

Mas é possível que o empurrão para que ele publicasse tenha vindo de Goethe. Um de seus amigos de infância era secretários de Goethe, que já estava muito velhinho e tinha fama de ser mal-humorado e avesso a novidades. Ele mostra o trabalho para o escritor e, conta-se, ele caiu na risada.

As histórias de Jabot e as que vieram depois agradaram aos leitores. Os livros foram exportados, pirateados, e lhe renderam algum dinheiro. O autor entendia que os quadrinhos tinham que ter um perfil iconoclasta e, em seu trabalho, comenta o editor, ele fez várias críticas ao militarismo, ao cientificismo, à Igreja, à burguesia. 

A ideia de André Caramuru Aubert, agora, é trazer essa obra ao País. Mas não sem dúvidas. “As histórias são engraçadas, mas é uma graça do século 19. Não sei se a edição interessaria ao público geral. E, na atual conjuntura brasileira, fazer um investimento desse sem ter uma segurança dá um pouco de medo.” Por outro lado, concorda que do ponto de vista da criação de uma linguagem nova pode ser interessante ver o nascimento de um gênero que se tornaria uma enorme indústria. 

Ele quer fazer edições fac-similares, em capa dura, caprichadas. Volume por volume, e não como em Rodolphe Töpffer: The Complete Comic Strips (University Press of Mississippi), um volumão de 672 páginas e de quase três quilos que sairia muito caro para os padrões nacionais. Uma curiosidade: André tem dois livros que não constam da coletânea, focada apenas em HQ: Essais D’Autographie (1842) e Essais de Physiognomonie (1845). A sete chaves, guarda, ainda, títulos sobre outros personagens – alguns deles criados antes de Jabot e publicados depois: Mr. Crépin, Le Docteur Festus, Mr. Vieux Bois, Mr. Trictrac e Mr. Cryptogame. Seis originais e dois fac-símiles.

O editor está aberto a parcerias, caso alguma editora tenha interesse em coeditar a série, ou em patrocínio. Se ninguém abraçar a ideia, ele fará mesmo assim, pela sua Descaminhos, no tempo de trabalho de uma editora independente.

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