BRUNO GONZAGA/STUDIO CERRI/DIVULGAÇÃO
BRUNO GONZAGA/STUDIO CERRI/DIVULGAÇÃO

Mostra em BH apresenta cartas inéditas de Drummond

‘QuasePoema’, exposição montada no centro da capital mineira, exibe missivas do poeta para a família em sua face mais íntima e sentimental

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

05 Dezembro 2014 | 15h45

BELO HORIZONTE - Uma das frases que marcaram o nome de Carlos Drummond de Andrade no imaginário de cada leitor brasileiro relaciona o “vasto mundo” a uma procura por uma solução: cartas do poeta agora expostas em Belo Horizonte pela primeira vez dão conta de reforçar o interesse de Drummond por este mundo, desta vez mais ao rés do chão. 

Missivas trocadas entre o poeta e a família são o tema da mostra QuasePoema, aberta em novembro na Casa Fiat de Cultura (Praça da Liberdade, 10, Funcionários, Belo Horizonte), no novo Circuito Cultural no centro da capital mineira. Os 88 textos e documentos foram selecionados por Fabíola Moulin e Marconi Drummond no acervo do IMS no Rio e da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade, em Itabira. A mostra fica em cartaz até o dia 18 de janeiro de 2015, e tem entrada gratuita.

Os temas tratados nas cartas variam da falta de água no Rio (“já vou me habituando a ficar sujo”, brinca o poeta com a mãe) até a emocionada comunicação do trágico nascimento do único filho homem, em 1927, natimorto. “Venho comunicar a triste notícia do parto de Dolores. Depois de soffrer 17 horas, ella deu á luz um menino enorme e robusto (...), mas que viveu apenas 30 minutos”, escreve o poeta na carta endereçada à família e postada no dia 24 de março de 1927. Sobre isso, o poeta voltaria a escrever, em verso, pelo menos dois poemas, mais de 20 anos depois. “O filho que não fiz / hoje seria homem”, começa Ser, de Claro Enigma (1951).

“Nessas cartas é possível perceber Drummond comum, afetuoso com a família, apegado à vida cotidiana, preocupado com a cidade natal”, comenta a curadora Fabíola Moulin. 

A exposição interessa justamente pelo ineditismo das cartas. “Ainda é preciso alguém debruçar-se sobre esses textos para encontrar relações mais profundas com a literatura do poeta”, diz Marconi Drummond, primo distante do escritor e também curador da exposição. Marconi foi o responsável pela compra deste acervo de um colecionador de Lavras (MG) em 2013, quando era superintendente da fundação em Itabira. 

Mesmo com a necessidade de uma análise mais profunda, é difícil, porém, não admirar a criatividade de ‘Carlitos’, que ainda com 13 anos, em dezembro de 1915, encomendou 365 dias de felicidade à cunhada entregando-lhe uma nota promissória do “Banco da Amizade” – documento mais antigo da mostra.

Foi Marconi também quem buscou o caráter multimídia da exposição, numa tentativa, segundo o próprio, de atrair interesse para a literatura em um país de não leitores. Logo na entrada, sete faces do poeta estão estampadas em um corredor que leva a uma sala escura em que são exibidas as fantásticas leituras de poemas de Drummond, gravadas por atores e poetas para o IMS, em 2012. Na sala seguinte, lupas acopladas às mesas oferecem um bom estímulo à leitura da caligrafia minúscula de Drummond, que especialmente nesse aspecto parece querer ser discreto. Em outra sala, uma série de alto-falantes reproduz a voz do poeta a sussurrar seus poemas. O murmúrio fica claro apenas quando o visitante se aproxima de cada aparelho – sem dúvida, uma boa conversa ao pé do ouvido.

A curadoria também selecionou cartas do acervo que foram escritas pela mãe de Drummond, Dona Julieta Augusta Drummond, sua principal correspondente nesta mostra. “É engraçado notar que esse homem ateu pedia em quase todas as cartas a bênção da mãe”, comenta Fabíola. Em um bilhete em resposta à sobrinha, Itinha, em novembro de 1972, Drummond diz: “Fazer 70 anos é meio triste... mas seu telegrama afetuoso ameniza a coisa” – impossível não pensar em sua poesia, que, como ele, também parece buscar o equilíbrio entre o humor e o pessimismo. 

O repórter viajou a convite da organização da exposição.

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