Alejandra Vega/AFP
Alejandra Vega/AFP

Morreu Mercedes, musa e guardiã de García Márquez

Tradutor da obra do escritor, Eric Nepomuceno recorda dos encontros que teve com ela ao longo dos anos

Eric Nepomuceno *, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2020 | 14h18

Uma das frases mais certeiras e contundentes de Gabriel García Márquez, com seu humor caribenho, não foi escrita nunca, mas ouvi várias vezes: “Nós dois vivemos casamentos parlamentaristas. Somos chefes de Estado, mas Mercedes e Martha são chefes de governo...”.

Nada mais justo. Apesar de toda sua indiscutível genialidade, se não fosse por Mercedes ele não teria feito metade do que fez.

Conheci Mercedes no começo de 1980, quando estava instalado na Cidade do México fazia um par de meses, vindo de Madri e antes, de Buenos Aires. Já havia estado algumas vezes com García Márquez, mas com ela foi naquela primeira vez que ele me chamou em sua casona de endereço improvável: a esquina das ruas Água e Fogo.

Daquele primeiro encontro ficaram várias imagens: seus olhos de mergulhador, sua beleza estranha e serena, sua elegância soberana e a prudente e delicada distância que mantinha dos recém-chegados.

Em nossos encontros seguintes, se consolidou na minha alma a imagem de uma fortaleza humana, dona de um humor refinado, uma dignidade superior, uma generosidade carinhosa, bem como uma indiferença olímpica diante da fama de Gabriel García Márquez, a menos que alguém quisesse fazer uso dessa fama em benefício próprio: quando percebia isso, virava uma leoa feroz. 

É mais do que conhecida a história de como Mercedes fez de tudo e mais um pouco para que ele pudesse ficar trancado em casa ao longo de exatos 18 meses enquanto escrevia Cem Anos de Solidão. Coube a ela administrar o dinheiro que tinham e depois, quando o último centavo sumiu na poeira do dia, negociar o atraso do aluguel (nove meses) e do açougue (quatro), além de pedir emprestado a amigos e empenhar, já no final da temporada, quase todos os eletrodomésticos da casa. Os últimos – um secador de cabelos, um liquidificador e um ferro de passar roupa – foram empenhados para despachar metade dos originais por correio (o dinheiro da casa só tinha dado para mandar a primeira metade...).

Acontece que a vida inteira, inclusive depois da farta bonança que surgiu com o êxito brutal do livro que contava a história da família Buendía, Mercedes não fez mais do que ser a guardiã protetora de García Márquez. Zelava pela intimidade do casal, protegia a família de qualquer assédio, fazia de tudo o tempo todo para que García Márquez tivesse paz para escrever. 

Ele sabia disso, sabia que só tinha a vida que tinha graças à sua guardiã. Que dependia de seu carinho e seus cuidados.

Lembro que quando ela viajava e ele ficava no casarão da Cidade do México, ia dormir em hotel. A explicação: “É Mercedes quem me protege dos fantasmas desta casa”. Bem: da casa e da vida.

A história dos dois soa a romance adocicado escrito por alguma inglesa exagerada. Se conheceram quando ele tinha treze anos e ela nove. Tornaram a se encontrar já no fim da adolescência e García Márquez recordou a Mercedes o que se haviam prometido lá atrás: que iriam se casar. Pediu a ela que fosse sua namorada e ouviu quatro vezes um sonoro “não”, até que finalmente ela capitulou. Ficaram juntos para sempre.

Assim que se tornaram namorados García Márquez partiu para a Europa, escapando dos turbilhões políticos daquela Colômbia varrida por temporais. Quando voltou, se casaram e foram para a Venezuela, não propriamente em lua de mel: é que tinha aparecido um emprego para ele em Caracas. E de lá para Havana, depois Nova York, depois do México, tempos de dinheiro mais que escasso e muita vontade de viver a vida. 

Ele costumava descrever Mercedes como “uma rainha egípcia” (o avô dela tinha nascido no Egito), e também mencionava o tempo todo aquela que talvez fosse a melhor descrição da protetora: “Meche é serena e severa”.

Ela foi essencial para que ele pudesse enfrentar a solidão da fama, que García Márquez dizia só ser comparável à do poder. Não consigo imaginar como ele sobreviveria a tamanha solidão, pois tinha fama e poder.

Não me sai da memória como Mercedes cuidava de cada detalhe da vida daquele casarão mexicano e da casa de Cartagena das Índias, plantada de frente para o Caribe mais esplêndido.

Conto um desses detalhes: no dia em que García Márquez ganhou o Prêmio Nobel de 1982 sua mãe, por telefone, recomendou que ele pusesse uma solitária rosa amarela num vaso na sua escrivaninha. Dona Luisa Santiaga esclareceu: a flor protegeria o filho da inveja e dos malvados. 

Ele foi-se embora em abril de 2014. Pois até a sexta-feira passada, véspera da partida de Mercedes, a rosa amarela era renovada a cada manhã. 

Foram quarenta anos de amizade. Talvez por ser o mais jovem dos integrantes daquilo que García Márquez chamava de sua “máfia particular”, recebi dela um afeto diferente. Mercedes se preocupava com Martha e Felipe, queria saber das pequenas coisas do nosso dia a dia, o que incluía até mesmo gastos domésticos.    

No álbum de fotografias da minha melhor memória, Mercedes, a musa e guardiã de García Márquez, ocupa lugar especial. 

Para sempre e sempre. 

* ERIC NEPOMUCENO É TRADUTOR DA OBRA DE GABRIEL  GARCÍA MÁRQUEZ NO BRASIL

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