AP Photo/Emrah Gurel
AP Photo/Emrah Gurel

Morre o escritor turco Yasar Kemal, autor de 'Memed, Meu Falcão'

Várias vezes lembrado para receber o Nobel, ele viveu por muitos anos na linha de confronto com governantes da Turquia

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

01 Março 2015 | 16h43

Ele vivia na linha de confronto com os governantes turcos eviveu o suficiente para ver seu país adotar –ainda que de modo frágil – oregime democrático. Sua idade era incerta (alguns dizem que ele morreu aos 92,outros, com 91 anos), mas nem mesmo o escritor Yasar Kemal era capaz de afirmara idade certa, pois a aldeia onde nasceu na Turquia, Hemite (hoje Gokcedam), naAnatólia, não mantinha registros de nascimento. Tanto melhor. Kemal, afinal,queria ser um mito como Slim Memed, o menino rebelde de Memed, Meu Falcão (1955),talvez seu romance mais popular entre as duas dúzias de livros que escreveu –dos quais nada menos do que nove foram adaptados para o cinema. O escritormorreu neste sábado, 28/2, de insuficiência respiratória e arritmia cardíaca, numhospital de Istambul, onde estava internado desde 14 de janeiro, segundoinformou a agência de notícias turca Anadolu.

Porta-voz dos curdos, Yasar Kemal fez do personagemMemed  sua persona literária, ao eleger um menino como um rebelde que lutacontra a arbitrariedade de governos tiranos, abandonando a família e seu grandeamor para combater a opressão nas montanhas da Turquia. Tornando-se líder,Memed vira mesmo um mito entre as camadas populares nesse romance épico que éao mesmo tempo um livro de aventuras. Várias vezes lembrado para receber oprêmio Nobel, Yasar, que foi traduzido para 40 idiomas, não chegou a receber oprêmio, entregue a Orhan Pamulk em 2006, o que praticamente eliminou suaschances no anos seguintes, considerando as campanhas que os sucessivos governosturcos sempre fizeram contra o autor, especialmente nos anos 1980 e 1990 –nacionalistas turcos o consideravam um traidor.

Nascido Kemal Sadik Gokceli numa família turca de origemcurda, o escritor começou a se interessar por literatura aos oito anos, quando escreveuos primeiros poemas, enquanto os homens de sua família desapareciam um a umlutando contra o governo, como seu tio Mahiro, “o mais famoso fora-da-lei daAnatólia”, segundo o escritor. Depois de trabalhar nas plantações de algodão eoperar tratores no meio rural, arranjou emprego numa livraria em Adana,seguindo, já adulto, para Istambul, em 1951, onde trabalhou como jornalista efoi hostilizado por defender armênios, elegendo-os como personagens em algunslivros.

Denunciando o racismo do governo turco em 1995, ele acusou oregime de passar como um  trator sobre a população da Anatólia, destruindoaldeias curdas, chegando a ser processado pela acusação. Kemal, cego de um olhodesde os cinco anos, quando um a faca escapou das mãos de um açougueiro, deixouuma autobiografia, Yagmurcuk Kusu (Pássaro da Chuva).

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