EFE|Georgios Kefalas
EFE|Georgios Kefalas

Morre o escritor húngaro Imre Kertesz, prêmio Nobel de Literatura, aos 86 anos

Prisioneiro adolescente de campos de concentração nazistas, ele foi agraciado com o principal prêmio das letras em 2002

AP

31 de março de 2016 | 07h52

BUDAPESTE, HUNGRIA - O escritor húngaro que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 2002 escrevendo também sobre sua experiência como um prisioneiro adolescente do nazismo, Imre Kertesz morreu aos 86 anos nesta quinta-feira, 31. A editora Magveto Kiado anunciou que o escritor morreu às 4h, horário local, em sua casa em Budapeste.

Kertesz tinha apenas 14 anos quando foi deportado para o campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, em 1944. Ele sobreviveu e depois foi transferido para o campo de Buchenwald, de onde foi libertado em 1945.

"Como uma criança, você tem certa confiança na vida. Mas quando algo como Auschwitz acontece, tudo o mais desmorona", ele disse uma vez.

"Você não pode imaginar o que é ser autorizado a ficar no hospital do campo, ou ter um intervalo de 10 minutos de um trabalho indescritível", ele disse à revista Newsweek, em uma entrevista em 2002. "Estar muito perto da morte é também uma espécie de felicidade. Apenas sobreviver se torna a maior liberdade de todas."

Após retornar à sua Budapeste nativa, Kertesz fez a vida trabalhando como jornalista e tradutor.

Com a antipatia das autoridades comunistas que controlaram a Hungria depois da Segunda Guerra, ele passou tempo traduzindo para o húngaro trabalhos de Friedrich Nietzsche, Sigmund Freud, Ludwig Wittgenstein e Elias Canetti num apartamento pequeno com vista para o Rio Danúbio.

Influenciado pelos romances existencialistas do pós-guerra, de Albert Camus e Jean-Paul Sartre, Kertesz era fascinado pelo destino do indivíduo num ambiente totalitário, quando outros decidiam os acontecimentos.

"Eu sou um judeu não-crente", ele disse em uma entrevista. "Mas como judeu fui levado para Auschwitz. Eu sou da classe dos judeus que Auschwitz transformou em judeus."

Fateless, seu primeiro romance, finalmente apareceu em 1975, depois de uma década brigando para ser publicado. Foi amplamente ignorado, tanto pelas autoridades comunistas como pelo público em um país onde o conhecimento do Holocausto permanecia negligenciado, apesar do assassinato de 500 mil judeus húngaros pelos nazistas.

De acordo com Kertesz, o status de quase tabu sofrido por Fateless por tanto tempo pode ter tido a ver com o fato de que, apesar do seu tema relacionado ao Holocausto, o livro também refletia sobre o sistema comunista totalitário da Hungria.

"A mensagem de Kertesz é de que viver é se conformar", disse a Academia Sueca, quando o premiou em 2002. "A experiência individual parece inútil assim que é considerada na luz das necessidades e interesses da coletividade humana."

Vários outros romances, continuando os temas do Holocausto, ditaduras e liberdades individuais, apareceram ao longo dos anos 1980 e 1990, construindo o respeito profissional de Kertesz, mas mesmo assim falhando em lhe oferecer um público amplo.

Tudo mudou com o Prêmio Nobel. Suas raras aparições após a premiação, na Hungria, foram um sucesso massivo, com centenas de pessoas ficando nas filas por horas para conseguir um autógrafo.

No seu discurso de aceitação do Nobel, Kertesz usou sua típica auto-ironia. "Eu não tinha uma audiência e não queria influenciar ninguém."

A casa editorial Magveto Kiado anunciou que durante os últimos meses da sua vida, mesmo doente, Kertesz ajudou a preparar The Viewer, uma seleção de seus diários entre 1991 e 2001, que foi publicado este mês na Hungria.

Entre seus principais livros publicados no Brasil, estão A Língua Exilada, Liquidação (ambos pela Companhia das Letras) e História Policial (Tordesilhas).

Ele deixa sua segunda esposa, Magda.

Tudo o que sabemos sobre:
Brasil

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.