MARCOS DE PAULA/AGENCIA ESTADO/AE
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Morre o escritor Carlos Heitor Cony

Aos 91 anos, autor estava internado em hospital no Rio de Janeiro

UBIRATAN BRASIL, LEANDRO NUNES, GILBERTO AMÊNDOLA, FERNANDA NUNES E JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

06 Janeiro 2018 | 11h32

O escritor e jornalista Carlos Heitor Cony morreu na noite de sexta-feira, 5, de falência múltipla de órgãos. Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), ele estava com 91 anos. Cony estava internado no Hospital Samaritano no Rio.

Cony deixou orientação por escrito, lavrada em cartório, para que seu velório e enterro fossem reservados aos familiares, portanto, não foram divulgados locais e horários. Segundo Rosa Gonçalves, mulher que acompanhou o escritor no hospital, ele dispensou todo ritual ao qual, como membro, teria direito na ABL. “Ele era muito reservado e tímido. Por isso, faço um apelo para que a imprensa se conforme com a escassez de informação”, afirmou. O corpo será cremado na próxima terça-feira no Memorial do Carmo, no Rio.

Rosa Gonçalves contou que o escritor foi internado no hospital Samaritano no dia 26 de dezembro e se submeteu a uma cirurgia no dia 1º, por conta de problemas no abdômen. “Os médicos alertaram para o risco da cirurgia. Era uma tentativa de resolver o problema e ele, junto da família, preferiu assumir o risco”, disse Rosa. Por conta da fragilidade da sua saúde, Cony não resistiu às intervenções e teve falência múltipla dos órgãos quatro dias após a cirurgia.

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Cony nasceu no Rio em 1926. Sua estreia na literatura se deu com O Ventre, em 1958. Com A Verdade de Cada Dia e Tijolo de Segurança, de 1959 e 1960, recebeu o Prêmio Manuel Antônio de Almeida – abrindo uma carreira de distinções literárias que mais tarde incluiriam o Prêmio Jabuti (em 1996, 1998 e 2000) e o Prêmio Machado de Assis, em 1996, pelo conjunto da obra, além da comenda de Artes e Letras concedida em 2008 pelo governo francês.

Antes da estreia na ficção, ele iniciara a vida profissional como jornalista – função que nunca abandonaria: atualmente era colunista da Folha de S.Paulo. Em 1952, entrou para o Jornal do Brasil e, mais tarde, foi redator do Correio da Manhã. Foi preso diversas vezes durante a ditadura militar. E, em 2004, o Ministério da Justiça concedeu a ele uma pensão vitalícia de R$ 23 mil, valor correspondente ao salário que receberia como redator-chefe de uma publicação. Após deixar o Correio da Manhã, entrou para a revista Manchete, na qual atuou também no departamento de teledramaturgia, participando de projetos como as novelas A Marquesa de Santos e Dona Beija.

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Em meados dos anos 1960, Cony já tinha 8 livros publicados – além de ficção, coletâneas de crônicas. “Todos eram romances de forte afirmação do individualismo, numa época e num país com pouca tolerância para com individualismos. As esquerdas viam Cony com desconfiança, apesar de seus livros saírem por uma editora sobre a qual não restava a menor dúvida: a Civilização Brasileira, de Ênio Silveira, um homem ligado ao Partido Comunista.

Ênio podia não concordar com Cony quanto à linha apolítica e alienada que imprimia a seus romances, mas não abria mão de tê-lo entre seus editados. Cony era talvez o maior escritor profissional do Brasil – produzia um romance por ano, firmara um público certo e não dava bola para os críticos”, escreveu Ruy Castro sobre o autor no Estado, no final dos anos 1990. 

Em 1967, no entanto, lançaria um livro seminal em sua trajetória: Pessach, a Travessia. A obra retrata um escritor carioca que, em pleno regime militar, rejeita qualquer tipo de posição política mais radical, assim como renega sua origem judaica. Pouco depois de completar 40 anos, no entanto, acaba se comprometendo, involuntariamente, com questões políticas.

O livro continha crítica dura ao Partido Comunista. Em 2002, o autor voltaria ao tema com Romance Sem Palavras, no qual continuava a história do escritor Paulo.

Em entrevista publicada no Caderno 2 em 2008, Cony relembrou o período da ditadura ao falar do romance O Ventre – e tratar da melancolia e do pessimismo que são normalmente associados à sua obra, influência, naquele instante, do pensamento de Sartre. “Havia nessa época um tom exagerado de bossa nova, de desenvolvimento, que não me encantava.

Da mesma forma que não aderi à literatura engajada que surgiu depois da Revolução de 1964, mesmo depois de preso pelos militares. Nessa época, escrevi Antes, o Verão, um romance completamente alienado, sem nenhum referência política, assim como Balé Branco, que veio em seguida. Mesmo Pilatos, que saiu em 1974, quando a situação continuava difícil. É curioso que alguns críticos entenderam ao contrário, identificando o homem castrado do romance como uma alusão ao que viviam os cidadãos, alijados politicamente. Mas não era nenhuma metáfora para mim. Minha crítica aberta estava nos textos que escrevia para os jornais, especialmente o Correio da Manhã”, disse. 

Pilatos é ainda hoje considerado por muitos o grande livro de Cony – era inclusive pelo próprio autor. Lançado em 1974, narra a história de um homem que, após sofrer um acidente, vaga pelas ruas do Rio com o órgão sexual mutilado em um jarro, encontrando diferentes personagens pelo caminho. Havia na obra uma sátira sobre a situação política e a contestação no Brasil. E o autor, feliz com o resultado, decidiu abandonar a escrita de romances. Foi o que fez, ao menos pelos próximos 20 anos, até a publicação, em 1995, de Quase Memória. 

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Nele, o escritor explora território nem sempre claro que existe entre a ficção e a memória – e o faz a partir das lembranças que têm do pai. O cineasta Ruy Guerra vinha trabalhando há anos na adaptação para o cinema da obra e, em 1996, em texto publicado no caderno Cultura, explicaria como a relação entre pais e filhos o levou à produção.

“Houve mesmo uma vez que cheguei a aflorar o assunto e lhe dediquei um rápido parágrafo, quando falava de algumas lembranças da minha juventude. Só que depois achei que ele merecia mais, e melhor, e resolvi deixar para outra ocasião. Só que agora a questão se tornou muito mais difícil. Surgiu um livro. Um livro magnífico, que conta as aventuras de um pai que faz lembrar o meu.

Talvez por isso me tenha tocado tão profundamente o seu humor e sua ternura. Quase Memória é o livro que eu gostaria de ter escrito sobre o meu pai. Como escrever agora algo sobre a matéria? Só me resta aceitar a sabedoria do destino, fazer um filme com o seu romance, e assim cumprir a minha promessa de infância, de outro modo, sob uma outra forma, com um outro pai.” 

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