AP Photo/Jens Meyer
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Morre o escritor alemão Günter Grass, prêmio Nobel de Literatura

Alemão, saudado por ajudar a reviver a cultura de seu país no Pós-Guerra, morreu nesta segunda-feira, 13; ele tinha 87 anos

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

13 Abril 2015 | 07h41

Atualizadas às 19h

Intelectual de esquerda que incomodou muita gente que foi responsável por ajudar a reviver a cultura alemã depois da Segunda Guerra e a dar voz ao discurso democrático no período, Günter Grass, um dos principais nomes da literatura contemporânea, morreu na manhã desta segunda-feira, 13, em Lübeck, no norte da Alemanha, onde vivia, após uma breve internação para o tratamento de uma infecção. Ele tinha 87 anos e sua última aparição pública foi em 28 de março, na estreia de peça inspirada em seu célebre livro, O Tambor, em Hamburgo.

Autor de uma ampla e reconhecida obra, que lhe rendeu o Nobel de Literatura e o Prêmio Príncipe de Astúrias em 1999, Grass chacoalhou o universo literário e político ao trazer a tona seu passado de soldado na Waffen SS no fim da Segunda Guerra Mundial. Ele tinha 16, 17 anos quando se alistou. 

Contou isso no livro Nas Peles da Cebola, sua autobiografia publicada em 2006, que chegou às livrarias brasileiras no ano seguinte pela Record, editora também do mais recente livro do alemão a sair aqui, A Caixa, e de obras como A Ratazana, Meu Século e Um Campo Vasto.

Ele dizia que sua passagem pelo exército de Hitler nunca havia sido escondida, e ficou surpreso com a reação ao seu livro de memórias. Na época em que se alistou, como tantos outros meninos de sua geração – ele argumentava –, pensavam que a SS era apenas uma unidade de elite. Ele contou que passou a vida toda, por meio de sua literatura, “trabalhando duro nas inquestionáveis crenças de sua juventude”. E garantiu que em seis meses de serviço militar nunca deu um tiro. Também disse, em entrevista, que não foi “por mérito” que não cometeu crimes de guerra. “Se eu tivesse nascido três ou quatro anos antes, certamente me veria envolvido com esses crimes.” Foi preciso um período de 60 anos para que ele tratasse esse episódio com todas as letras.

A polêmica mais recente envolvendo o escritor foi em 2012, quando ele foi declarado persona non grata em Israel por ter criticado, no poema O Que Precisa Ser Dito, o programa nuclear israelense e ter sugerido que o país colocava em risco a paz mundial. O jornal Die Welt tentou analisar o autor, “Grass sempre teve um problema com os judeus, mas jamais o expressou tão claramente como nesse poema.” E foi além: “Grass é o arquétipo do erudito antissemita alemão. Como é perseguido pela vergonha e o remorso, só conseguirá encontrar a paz de sua alma com o desaparecimento do Estado de Israel”. Um tempo depois, assinou, com outros escritores, um documento que pedia o fim da espionagem política e industrial.

Política e arte sempre caminharam juntas para o alemão, uma das principais vozes de seu país – que não deixava de lembrar seus conterrâneos do passado nazista compartilhado. Nos anos 1970, durante um discurso em Atenas, ele disse que escritores deveriam rejeitar a separação entre arte e política, entre criatividade e cidadania. “Um escritor deve encarar o teste da realidade, incluindo realidade política; e isso não pode ser feito se ele se mantiver distante.” Uma de suas bandeiras foi a não unificação das duas Alemanhas – a reunificação era, para ele, comparável à anexação da Áustria por Hitler. Um de seus alvos foi a chanceler Angela Merkel, que lamentou a morte do escritor. Para ela, Grass “marcou como poucos a história da Alemanha do pós-guerra até hoje por seu comprometimento pessoal, literário, político e social”. 

Em comunicado, o presidente alemão Joachim Gauck escreveu: “Günter Grass moveu os alemães, cativou-os e os fez refletir sobre sua literatura e sua arte”. Monika Grüetters, ministra da Cultura do país, profetizou que seu “legado literário estará ao lado do de Goethe”. 

Para o escritor britânico Salman Rushdie, que comentou a morte do escritor pelo Twitter, Grass era “um gigante, um inspirador e um amigo”. Também escritor, o turco Orhan Pamuk disse: “Grass aprendeu muito com Rabelais e Céline e influenciou no desenvolvimento do realismo mágico de Márquez. Ele nos ensinou a fundamentar a história na inventividade do escritor não importando o quão cruel, severa ou política ela fosse”.

Com a saúde já frágil, Grass, que nasceu em Danzig, em 16 de outubro de 1927, anunciou, no início de 2014, que estava abandonando o romance e que as sucessivas internações tinham provocado nele um bloqueio criativo. “Meu estado de saúde não me permite conceber projetos de cinco ou seis anos, e esta seria a condição para o trabalho de pesquisa para uma obra”, disse à época. Ele se concentraria, então, em seus desenhos e aquarelas – outras paixões ao lado da escultura, artes gráficas, poesia, conto, teatro e política. 

Günter Grass estreou na literatura em 1956 com um livro de poemas. A notoriedade viria com o lançamento, em 1959, do romance O Tambor, disponível em sebos. Trata-se da história da Alemanha na primeira metade do século 20, que tem como protagonista um garoto que não quer crescer. O livro foi sucesso internacional e virou filme. Outros livros se seguiram a este, mas nenhum com tanto impacto quanto O Tambor.

COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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