Otávio Magalhães/Estadão
Otávio Magalhães/Estadão

Morre Ivo Barroso, poeta e tradutor, aos 91 anos

Um dos maiores tradutores brasileiros, ele traduziu autores como Shakespeare, Edgar Allan Poe e Jane Austen

André Cáceres e Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

06 de outubro de 2021 | 12h32
Atualizado 06 de outubro de 2021 | 15h28

Ivo Barroso, poeta e um dos maiores tradutores brasileiros, morreu nesta terça-feira, 5, aos 91 anos, no Rio de Janeiro, vítima de uma parada cardíaca. Segundo um amigo da família, ele estava internado havia alguns dias na Casa de Saúde São José, no Humaitá, por causa de uma queda que sofreu em seu apartamento, no Leblon. O velório foi realizado numa cerimônia íntima no início da tarde desta quarta-feira, 6, na Capela Celestial do Memorial do Carmo, no Rio de Janeiro.

Barroso nasceu curiosamente no dia de Natal, em 25 de dezembro de 1929, na pequena cidade mineira de Ervália. Antes de adentrar o mundo literário, ele se formou em direito na Faculdade do Catete. Mas logo descobriu sua vocação ao se graduar em línguas neolatinas na Faculdade Nacional de Filosofia do Rio de Janeiro. 

Na então capital do País, ele aguçou sua intelectualidade trabalhando como jornalista no Suplemento Literário do Jornal do Brasil antes de morar na Europa, passando por países como Holanda, Portugal, Inglaterra, Suécia e França. Polivalente, Barroso traduziu obras escritas originalmente em inglês, espanhol, italiano, francês e alemão.

Ivo Barroso, que foi colaborador do Estadão, dedicou a vida a grandes escritores, como Shakespeare, Rimbaud, T. S. Elliot, Leopardi, Herman Hesse, André Gide, Malraux entre muitos outros. Entre suas afinidades tradutórias, destacam-se os concretos, como os irmãos Campos, de quem foi próximo durante uma parte de sua vida, mas Barroso não chegou a se filiar a nenhum tipo de movimento ou grupo.

Em 2019, Barroso mergulhou no mais famoso poema de Edgar Allan Poe, publicando O Corvo e suas Traduções, pela Sesi-SP Editora. Um pouco antes, em 2017, Barroso publicou, pela mesma editora, Breviário de Afetos, livro com as crônicas que escreveu sobre pessoas que passaram por sua vida e foram fundamentais em sua formação. Entre eles, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto e Otto Maria Carpeaux.

Entre suas traduções estão 50 sonetos de Shakespeare (Nova Fronteira); Arthur Rimbaud: Poesia Completa (Topbooks); Seis propostas para o próximo milênio: Lições americanas (Companhia das Letras), de Italo Calvino, entre outras obras do italiano; Os gatos (Companhia das Letrinhas), de T.S. Elliott; As Aventuras de Pinóquio (Sesi-SP Editora), de Carlo Collodi; A Vida - Modo de Usar (Companhia de Bolso), de Georges Perec; e A carta de Pero Vaz de Caminha (Sesi-SP) para o português moderno. Traduziu, ainda, Jane Austen, Umberto Eco, Marguerite Yourcenar, Hermann Hesse e André Gide.

Como autor, publicou, entre outros, Poemas de Amor – O Mito Inconcluso (Atheneu), Caixinha de Música, Nau dos Náufragos e Poesia Ensinada aos Jovens. Ainda enquanto poeta, Barroso foi finalista do Prêmio Jabuti com A Caça Virtual e Outros Poemas (Record), publicado em 2001. 

Como tradutor, recebeu diversos prêmios. Em 1992, ganhou o Jabuti pela tradução de Os Gatos, de T.S. Eliot; em 1998, recebeu novamente o Jabuti pela tradução da prosa poética de Arthur Rimbaud; e em 2005, o Prêmio da Academia Brasileira de Letras pela tradução do Teatro Completo de T.S. Eliot.

Além dessas atividades, Barroso se destacou também como um importante antologista, tendo editado coletâneas de grande relevo. Em 1991, publicou O Torso e o Gato (Record), livro em que reuniu 50 dos mais sublimes poemas já produzidos na literatura ocidental, todos traduzidos por ele, de autores como Petrarca, Rainer Maria Rilke, Jorge Luis Borges, W. B. Yeats, Paul Verlaine, Pablo Neruda, William Blake, Alfonsina Storni, entre outros. Ele também selecionou as obras contidas em Poesia e Prosa (Nova Aguilar), de Charles Baudelaire, e À Margem das Traduções, que reúne textos de crítica tradutória de Agenor Soares de Moura.

Mesmo aos 91 anos, Barroso permanecia incansável. Isso se mostra não apenas na quantidade de obras publicadas e traduzidas nos últimos anos, mas também em seu blog pessoal, a Gazeta do Ivo, em que ele escrevia sobre temas variados, comentava traduções em que estava trabalhando e fazia reflexões diversas. Barroso manteve o blog ativo desde julho de 2010 e publicava textos com regularidade na página. Em setembro de 2021, seu último texto foi ao ar, no qual ele meditava a respeito da obra-prima de Antoine de Saint-Éxupery, O Pequeno Príncipe, que ele traduziu este ano para a Faria e Silva Editora.

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