Tasso Marcelo|Estadão
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Morre, aos 87, o futurista Alvin Toffler

Autor de 'O Choque do Futuro' e 'A Terceira Onda', entre outros títulos, ele previu o desenvolvimento econômico e tecnológico

Rodrigo Petronio, ESPECIAL PARA O ESTADO

30 de junho de 2016 | 10h23

A morte de Alvin Toffler (1928-2016) no dia 27 de junho nos coloca diante dos amplos horizontes abertos pela sua obra. Leva-nos a pensar a urgência de seus questionamentos e de suas previsões. Apoiado em uma formação multidisciplinar, Toffler exerceu diversas funções: pesquisador visitante da Russell Sage Fundation, professor visitante da Cornell University, membro da New School for Social Research e correspondente da Casa Branca. Além dessa atuação, desempenhou um intenso trabalho como jornalista, sobretudo como diretor-associado da revista Fortune. 

Entretanto, notabilizou-se acima de tudo por suas obras sobre a revolução da informação nas sociedades contemporâneas. Essas obras logo se transformaram em best-sellers: O Choque do Futuro (1970) chegou à marca de seis milhões de exemplares vendidos. Seguiram-se outros sucessos de público até que, em A Terceira Via (1980), desenvolve o seu conceito mais popular: as ondas informacionais. 

Em linhas gerais, Toffler propõe a sucessão de três grande ondas produzidas pelo sapiens. A primeira: a revolução da agricultura no Neolítico. A segunda: a revolução industrial no século 18. E uma terceira, que estaríamos vivendo agora: a revolução pós-industrial da informação. Sinaliza também para uma quarta era: uma sociedade digital do futuro. 

Nesse sentido, não se distancia muito da ciberfilosofia de Pierre Lévy, que divide a humanidade em quatro eras de inteligência: a Terra, o Território, a Mercadoria e o Saber. Em sentido similar, algumas das abordagens de Toffler também são paralelas às pesquisas da cibernética, desenvolvidas a partir dos anos 1960 por autores como Jean-Pierre Dupuy e Heinz von Foerster.

Toffler arrancou aplausos de nomes como Marshal McLuhan e Buckminster Fuller. E por isso passou a ser alocado na linhagem dos autores chamados futuristas. Essa designação é imprecisa. A maior parte de suas previsões se enraíza em análise das mudanças de tecnologias do passado, em uma perspectiva de longa duração. E compreende o futuro pelas constelações de fenômenos do presente. 

Por sua vez, alguns de seus conceitos transbordam o domínio do debate científico. A noção de imagens cinéticas, a descrição de um novo nomadismo tecnológico, a definição do “homem modular”, modelado pelas novas tecnologias, e inclusive a intuição da emergência dos humanos ciborgues podem ser detectadas tanto na literatura acadêmica quanto no imaginário da cultura de massas.

Como se pode ver em seu prefácio à edição americana do clássico A Nova Aliança, do químico Ilya Prigogine e da filósofa Isabelle Stengers, Toffler soube também valorizar essa obra nuclear da filosofia da ciência do século 20, pioneira no estudo do caos, dos sistemas não lineares e da teoria das catástrofes, desenvolvidas por René Thom. 

Hoje em dia, alguns pensadores têm explorado os limiares desses problemas levantados por Toffler. As investigações sobre o pós e o transumanismo na obra de Donna Haraway, Francis Fukuyama e Peter Sloterdijk, a futurologia de Ray Kurzweil, as tecnologias da inteligência de Lévy e as pesquisas mais avançadas da ontologia e da ecologia das mídias. 

O lugar fronteiriço entre o jornalismo, a academia e a cultura de massas pode desagradar a alguns leitores mais exigentes. Pode-se criticar também a sua teleologia (finalismo) e seu otimismo tecnológico. Entretanto, ninguém pode negar o valioso saldo final do risco a que Toffler se lançou, ao extrair grandes projeções futuras de grandes escavações passadas. Como diria Federico Fellini, o visionário é o único e verdadeiro realista. 

* RODRIGO PETRONIO É ESCRITOR E FILÓSOFO, PROFESSOR DA FAAP E AUTOR DE DIVERSAS OBRAS. MINISTRA CURSOS LIVRES DE ESCRITA CRIATIVA E FILOSOFIA

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