Kathy Willens?AP
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Morre, aos 87 anos, a ensaísta Joan Didion

Ela sofria do mal de Parkinson e morreu em consequência da doença

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

23 de dezembro de 2021 | 14h41

Joan Didion, a reverenciada autora e ensaísta norte-americana que era identificada por suas posições liberais, morreu ontem, aos 87 anos, em sua casa, de complicações do mal de Parkinson.

Ela ficou conhecida por suas agudas observações sobre o sistema político americano e análises certeiras das mudanças comportamentais após a revolução hippie, nos anos 1960, sendo lembrada como autora de artigos históricos sobre o rapto da milionária Patty Hearst.

Seus livros tornaram-se referências no jornalismo literário, como a coleção de ensaios O Álbum Branco (1979),  O Ano do Pensamento Mágico (2005) e Rastejando até Belém (1968), todos eles publicados no Brasil.

“Ninguém escrevia prosa melhor que Joan Didion”, sentenciou o crítico John Leonard, propondo ao leitor que alterasse um único parágrafo de seus textos sem afetar o resultado. É uma tarefa fadada ao fracasso, concluiu Leonard: “Seus textos são hologramas”, justificou. Só para dar um exemplo: escrevendo sobre o pacato vilarejo de San Bernardino, ela o descreveu assim: “Uma cidade onde o futuro sempre parece promissor, porque lá ninguém se lembra do passado”.

 Didion escreveu 19 livros e foi homenageada pelo ex-presidente Barack Obama com a National Humanities Medal em 2012. Obama descreveu a ensaísta como “uma das mais respeitadas observadoras da política e cultura americanas”.  E, particularmente, sensível ao drama alheio. Em O Ano do Pensamento Mágico, por exemplo, ela descreve a agonia do marido e colaborador John Gregory Dunne, com quem viveu durante 40 anos. Dois meses depois de publicado o livro, ela perdeu sua filha Quintana. Um de seus relatos mais pessoais, o livro conquistou o National Book Award daquele ano e se tornou o mais vendido da carreira literária da escritora. Didion adaptou a obra para o teatro e a peça foi montada em 2007, na Broadway, com Vanessa Redgrave no papel da escritora, dirigida por David Hare.

Normalmente, Joan Didion gostava de evitar os holofotes. Era tímida ao extremo, diferente de personalidades autocentradas como o escritor Norman Mailer, por exemplo. “Minha única vantagem como repórter”, escreve ela em Rastejando até Belém, “é que sou tão pequenina, tão neuroticamente desarticulada que as pessoas tendem a ignorar minha presença”. E ela aproveitava essa discreta aparição no mundo, captando sinais que normalmente seriam omitidos diante de um repórter. Não por outra razão, Joan Didion foi uma pioneira do novo jornalismo literário, aquele que o próprio Norman Mailer e Hunter S. Thompson anunciaram há mais de meio século.

Os ancestrais de Joan Didion se estabeleceram na Costa Oeste americana nos anos 1880. Ela nasceu em Sacramento, em 5 de dezembro de 1934, mas viveu em vários lugares (Washington, Carolina do Norte, Colorado), pois seu pai era da Força Aérea americana e mudava constantemente. Solitária desde pequena, Joan Didion fez de seu temperamento um posto de observação da sociedade americana, escrevendo artigos para revistas como Life Saturday Evening Post. Seu interesse por política cresceu após ser convidada a escrever sobre  a guerra civil de El Salvador e os imigrantes cubanos em Miami para a New York Review of Books, artigos que foram incluídos nos livros Salvador e Miami.

 

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