Keiny Andrade
Keiny Andrade

Morre, aos 69, a escritora Elvira Vigna

Ela escreveu, entre outros, Como Se Estivéssemos em Palimpsesto de Putas, seu último romance, e O Que Deu Para Fazer em Matéria de História de Amor

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

10 de julho de 2017 | 14h49

O cenário literário brasileiro foi pego de surpresa com a notícia da morte de Elvira Vigna - a família comunicou por meio da página da escritora no Facebook. Ela morreu na segunda, 10, aos 69 anos, em São Paulo, por conta de um “carcinoma micropapilar invasivo”, que se iniciou como um câncer de mama diagnosticado em 2012. Num gesto absolutamente coerente com sua personalidade pública, Elvira não quis que a doença fosse conhecida, por saber, explica a nota, que se isso acontecesse ela seria excluída de atividades profissionais que dependessem de convite.

Desde que a doença foi diagnosticada, Elvira lançou quatro romances no Brasil, recebeu prêmios entre os mais importantes do País, ilustrou e traduziu trabalhos e permaneceu em evidência na imprensa cultural.

Muito admirada por fãs e colegas escritores, considerada uma das vozes mais instigantes da literatura brasileira contemporânea, Elvira teve uma prolífica carreira no jornalismo, na crítica de arte, nas artes visuais, na tradução e na literatura infantil antes de começar a escrever seu nome no panteão da literatura brasileira “para adultos”. Sete Anos e Um Dia, publicado pela José Olympio em 1988, é o primeiro dos seus 10 romances lançados em vida - o segundo viria em 1997, quase dez anos depois. Também houve pelo menos uma dezena de livros infantis e juvenis, muitos outros ilustrados, além de traduções e textos teóricos na imprensa. 

Segundo o comunicado da família, há ainda três livros a serem publicados. De acordo com o escritor Eric Novello, genro da escritora, um deles é uma ficção que dialoga com escritos de Kafka, e deve ser publicado pela editora Todavia. O segundo seria uma republicação do romance A Um Passo, de 2004, sobre o qual Elvira falava com paixão, pela Companhia das Letras, editora que publicou todos os livros dela desde O Assassinato de Bebê Martê, de 1997. O terceiro é um infantil.

Em julho de 2016, a escritora - não muito fã de entrevistas - concordou em responder a algumas questões do Estado sobre seu romance mais recente, Como Se Estivéssemos em Palimpsesto de Putas, aclamado pela crítica como um ápice do seu projeto particular de retratar relações interpessoais. Com um forte tom político - Elvira se posicionava contrária à movimentação que resultou no impeachment de Dilma Rousseff - a escritora comentou a construção do livro, usando o personagem principal como exemplo do que via como um fenômeno geral. “Abrange mais do que as relações de gêneros. Uma onda conservadora muito violenta. Uma vingança contra as tímidas conquistas libertárias que anunciavam um Contemporâneo. Acho que vale uma comparação com a Renascença europeia: várias tentativas até enfim conseguir estabelecer seus novos paradigmas. ‘João’ (o personagem) é um homem do Moderno, não consegue estabelecer relações equalitárias com mulheres. É o que mais tem”, disse naquela ocasião. 

Leia também: Elvira Vigna em entrevista ao 'Estado', em 2016, sobre seu último livro

Os livros de Elvira não são explicitamente políticos, mas, entre camadas que a escritora construía com habilidade na própria narrativa, existe, implícita, uma maneira muito única de ler as relações interpessoais, necessariamente políticas.

“Esperamos que a sua produtividade sirva de exemplo e estímulo para que todos aqueles que passem por dificuldades não abram mão de quem são, do que fazem e do que querem fazer”, diz a nota publicada pela família, que informa, ainda, que, em respeito à não religiosidade de Elvira, não haverá qualquer tipo de missa ou similar.

 

 

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