Eduardo Nicolau|Estadão - 11|4|2013
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Morre a escritora Lygia Fagundes Telles, aos 98 anos

'Dama da literatura nacional' teve obra de estilo elegante, ecos machadianos e um estado de espírito que permite manipular a escrita com firmeza e serenidade, oferecendo ao leitor a oportunidade de pensar sobre suas existências

Imagem Ubiratan Brasil

Ubiratan Brasil , O Estado de S.Paulo

Atualizado

  Eduardo Nicolau|Estadão - 11|4|2013

Dama da literatura nacional, uma das mais amadas escritoras brasileiras, Lygia Fagundes Telles morreu na manhã deste domingo, 3, aos 98 anos. A informação foi confirmada ao Estadão por sua neta, Lúcia, que informou que a avó não passava por nenhum tratamento de doença e ainda não se sabe a causa da morte. "Ela estava velhinha, não sofreu nada", disse.

O velório será aberto ao público e ocorrerá na Academia Paulista de Letras, no Largo do Arouche, 324, a partir das 16h deste domingo. Depois, em cerimônia fechada para a família, o corpo será cremado na Vila Alpina.

Autora de uma obra de estilo elegante, ecos machadianos e um permanente estado de espírito que permite manipular a escrita com firmeza e serenidade, Lygia sempre ofereceu ao leitor a oportunidade de pensar sobre suas existências. E seus personagens, especialmente os femininos, exibiram a pluralidade das vozes das mulheres, tornando-se símbolo da luta contra a hipocrisia da sociedade.

A escritora Lygia Fagundes Telles descobriu a força que seus personagens exerciam sobre os leitores quando publicou a seleção Meus Contos Preferidos, lançada em 2004. “Uma moça, na barraca do caqui na feira, me reconheceu e cobrou a ausência de Herbarium; dias antes, um sujeito me parou na rua reclamando que não tinha selecionado outro conto, Boa Noite, Maria. Voltei para casa e a carta de uma moça dizia que eu tinha me esquecido de A Confissão de Leontina. Parecia um complô”, ria a escritora, que usava a escrita como testemunho da vida, da própria vida.

Muitos de seus livros se tornaram clássicos, como o romance As Meninas, de 1973, obra inspiradora pois reflete o impasse de jovens que viveram numa época obscura. A literatura sempre foi, para Lygia, um caminho para mudar o mundo. Pelas letras, ela transmitiu aos leitores a aventura de novos conhecimentos – seja pelos detalhes do cotidiano, pelo devaneio particular ou mesmo pela vida da imaginação.

Lygia nasceu na Santa Cecília

Lygia de Azevedo Fagundes nasceu no dia 19 de abril de 1923, na rua Barão de Tatuí, no bairro de Santa Cecília, em São Paulo. Era a quarta filha de uma pianista, Zazita, e do procurador público Durval de Azevedo Fagundes. Por conta da profissão do pai, ela e a família se mudaram para várias cidades paulistas. Se da mãe herdou a vocação artística, de Durval, Lygia descobriu uma de suas profissões.

“Decidi ser advogada por causa do meu pai, Durval, que também se formou na São Francisco. Era um homem lindo, adorável, mas que tinha um grande pecado: era um jogador contumaz. Adorava roleta. Ele me levava a um cassino em Santos e, enquanto eu, pequena, tomava uma enorme taça de sorvete, meu pai jogava as fichas e as perdia, uma a uma. Quando íamos embora, derrotados, ele sempre dizia: ‘Hoje perdemos, mas amanhã a gente ganha’. Eu o admirava muito”, relembrou Lygia ao Estadão, em 2013.

Mas não foi fácil estudar na São Francisco. Na minha turma, éramos apenas seis mulheres entre mais de cem homens. Todas virgens! Certa vez, um dos meus colegas me perguntou: ‘O que vocês, mulheres, querem aqui na faculdade? Casar?’ Respondi, de bate-pronto: ‘Também!’ Mal sabia ele que me casaria com um dos professores (Gofredo da Silva Telles Júnior).”

Lygia se matriculou na Faculdade de Direito em 1941. Lá, conheceu a poeta Hilda Hilst, que logo se tornou uma de suas melhores amigas – antes, ela se formou em educação física, também pela USP. Apesar dos dois cursos, a escrita começa a se impor no seu caminho, principalmente depois que começou a participar ativamente de debates literários.

Primeiro livro foi publicado em 1938

Seu primeiro livro, Porão e Sobrado, foi publicado em 1938, em edição financiada pelo pai. Já o segundo, Praia Viva, saiu em 1944, um ano antes de seu bacharelado. Em 1949, três anos depois do término do curso de Direito, a escritora publicou seu terceiro livro de contos, O Cacto Vermelho, pelo qual recebeu o Prêmio Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras. 

Do casamento com Gofredo da Silva Telles Júnior, em 1947, adquiriu o sobrenome e teve um filho que muito amou, o cineasta Goffredo Telles Neto, que morreu em 2006, aos 52 anos. Foi na década de 1950 que Lygia escreveu seu primeiro romance, Ciranda de Pedra (1954), que a tornou nacionalmente conhecida pelo público e reconhecida pela crítica – Antonio Cândido, por exemplo, considerava essa obra o marco de sua maioridade como escritora.

O segundo romance, Verão no Aquário, foi lançado em 1963, mesmo ano em que se casou com o crítico cinematográfico Paulo Emílio Sales Gomes. Na verdade, foi um escândalo, pois ela continuava oficialmente casada com Gofredo – a lei brasileira não admitia ainda o divórcio. Em meio a uma grande maledicência, o casal viveu bem e feliz, até a morte dele, em 1977.

Ao Estadão, Lygia gostava de se lembrar dessa fase de felicidade. “Paulo Emílio era um homem encantador, inteligente, vibrante, irônico. Ele me apelidou de Cuco, brincadeira com o relógio de uma velha tia cujo cuco sempre cantava as horas com atraso – eu sempre me atrasava para nossos compromissos. Também apelidou meu filho Goffredinho de Cré, pois, nas aulas de francês, quando o garoto errava feio, Paulo disparava: ‘Crétain!’ (cretino)”, contava, sorridente. 

“Paulo sempre foi um grande incentivador da minha obra, especialmente nos momentos mais difíceis”, continuava. “Como em 1973, quando publiquei As Meninas. Era época pesada da ditadura militar e eu me inspirei, entre outras coisas, num panfleto que detalhava a violência física sofrida por um preso político. Coloquei isso no meio da trama e fiquei apreensiva quando o livro foi enviado para a censura. Enquanto aguardava, nervosa, o veredicto, fui surpreendida pela chegada, alegre, de Paulo, em nosso apartamento. Ele trazia uma garrafa de vinho e estava muito disposto a comemorar. Logo explicou: aborrecido com uma história em que não acontecia nada, o censor só lera algumas páginas, não chegara àquele ponto da tortura e liberava a obra.”

Nos contos, Lygia também exibia um talento único, como comprovam Antes do Baile Verde (1970), Seminário dos Ratos (1977), A Estrutura da Bolha de Sabão (1978), A Disciplina do Amor (1980), Mistérios (1981), A Noite Escura e Mais Eu (1998) e Invenção e Memória (2000). O que os torna tão intensos é a busca da escritora, a partir de seus personagens, das respostas que dão sentido à vida e que permitem às pessoas descobrir a melhor forma de interagir com o mundo externo. Lygia também cria seres que não se livram da memória, vivendo imersos na temporalidade. 

Em 1985, a chegada à ABL

Em 1985, ela foi eleita para ocupar a cadeira 16 da Academia Brasileira de Letras, iniciando uma fase de reconhecimento internacional, como se consagrando Comendadora da Ordem do Infante D. Henrique de Portugal (1987) e, principalmente, com o recebimento, em 2005, do Prêmio Camões, o mais importante da literatura em língua portuguesa, pelo conjunto da obra.

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Para escrever, você precisa se dedicar de corpo e alma a seu personagem, a seu enredo e à sua ideia”
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Lygia Fagundes Telles, escritora

Lygia sabia que o talento só era bem exercido com muito esforço – por isso, dizia que rasgava muito seus originais até conquistar o texto que considerava ideal. “Para escrever, você precisa se dedicar de corpo e alma a seu personagem, a seu enredo e à sua ideia”, ensinava. “É preciso que seja um ato de amor, uma doação absoluta, e é impossível sair do transe enquanto não dá a história por acabada, enquanto não decifra o humano. O detalhe é que o ser humano é indefinível. Por mais que tente, você não consegue defini-lo totalmente. O ser humano é inalcançável, inacessível e incontrolável, ele está sujeito a esses três ‘Is’.”


* Atualizada às 14h40 de 3 de abril de 2022.

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Lygia Fagundes Telles driblou a censura militar no romance 'As Meninas'

Escritora, que morreu no domingo, 3, aos 98 anos, desafiou o regime com cena de tortura

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2022 | 12h19

Autora de vasta obra, Lygia Fagundes Telles, que morreu neste domingo, 3, aos 98 anos, tinha especial predileção pelo romance As Meninas, publicado em 1973 e que ela sempre considerou uma obra moderna.

Trata-se da história de três universitárias, que se revezam como narradoras da obra durante uma greve estudantil: Lorena, fruto de uma educação esmerada, vive remoendo o passado; Lia, conhecida como Lião, ativista de esquerda dedicada à ação política clandestina; e Ana Clara, estudante de psicologia com sérios problemas existenciais. Aparentemente pouco movimentado, o romance concentra-se no retrato interior das três protagonistas e, por extensão, da moderna sociedade brasileira e todos os seus conflitos. 

Lygia conta que se inspirou nas conversas dos amigos do filho Goffredo Telles Neto, então um adolescente. Atenta, incorporou desde detalhes do vocabulário dos jovens, que tratavam de drogas e sexo até a preocupação com as ações políticas radicais em uma época marcada pela repressão militar. A atitude mais ousada, porém, foi incluir na história a descrição de uma tortura (leia no trecho abaixo). Na época (1971), a escritora recebeu um panfleto que detalhava a violência física sofrida por um preso político.

Impressionada, decidiu aproveitar o relato no romance que escrevia. Apesar do risco da censura, foi incentivada pelo seu marido, o crítico Paulo Emílio Salles Gomes – a desculpa seria que os personagens ganhavam liberdade no ato da escrita, o que impedia o controle de suas ações.

A prosa refinada e o tom intimista de As Meninas, porém, despontaram como sua primeira e melhor defesa, pois o censor encarregado de analisar o romance, provavelmente um homem pouco afeito a preciosismos literários, liberou-o depois de ler poucas páginas, aborrecido com o que julgou falta de ação. 

“Ele deve ter se aborrecido com o livro e nem chegou ao momento da tortura”, contou ela ao Estadão, em 2003, aos risos.

“Comemoramos, Paulo Emílio e eu, com uma boa taça de vinho.”

Trecho de As Meninas:

"Maurício aperta os dentes que se quebram. Não quer gritar e então aperta os dentes quando o bastão elétrico afunda lá no fundo. No desenho animado, o gato leva um trompaço e dentes e ossos se trincam. Mas na cena seguinte já se colam e o gato volta inteiro. Seria bom se fosse como nos desenhos, Silvinha da Flauta. Gigi. Japona. E você, Maurício? Quando o bastão entrar mais fundo, desmaia. Desmaia depressa, morra. Devíamos morrer, Miguel. Em sinal de protesto devíamos todos simplesmente morrer. "Morreríamos se adiantasse", você disse. Lembra? Eu sei, ninguém daria a mínima. Arrancaríamos o coração do peito, olha aqui meu sangue, olha aqui meu coração! Mas tem um tipo ao lado engraxando os sapatos, que cor de graxa o cavalheiro prefere?"

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Lygia Fagundes Telles visitou Monteiro Lobato na prisão; leia depoimento

Escritora, que morreu no domingo, 3, aos 98 anos, recebeu depois o criador de Emília em sua festa de aniversário

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2022 | 13h06

Em 2010, a escritora Lygia Fagundes Telles, que morreu neste domingo, 3, aos 98 anos, relembrou ao Estadão a visita que fez, ainda jovem e aluna da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, ao escritor Monteiro Lobato. Foi na década de 1940 e ele fora preso pelo governo ditatorial de Getúlio Vargas por críticas à condução do governo em relação à prospecção do petróleo.

Fã da obra infantojuvenil do criador do Sítio do Pica Pau Amarelo, Lygia tomou uma atitude corajosa ao visitar o escritor no presídio.

Em retribuição, Lobato, depois de solto, apareceu de surpresa no aniversário da futura autora.

Leia abaixo o texto em que Lygia relembra os fatos.

Quando cheguei para a primeira aula na Faculdade de Direito, um colega aproximou-se sacudindo na mão o jornal, “Olha aí, o Monteiro Lobato foi preso por causa da carta que escreveu, aquela denúncia sobre o petróleo, lembra? O Getúlio Vargas aprontando outra vez, ele foi preso por crime de opinião, contrariar o presidente dá cadeia!” 

Enquanto eu lia a notícia, o meu colega esbravejava lembrando a nossa passeata, saímos levando na frente o estandarte do Centro XI de Agosto e a bandeira brasileira, todos na maior ordem e silêncio quando de repente veio por detrás a cavalaria já atirando! Um morto, feridos, presos... “Ele está no presídio da Avenida Tiradentes. Vou lá fazer minha visita”, avisei guardando os livros e cadernos na sacola que dependurei no ombro. O colega enfiou o jornal no bolso. “Não vão deixar você entrar, é claro!” Fui saindo rapidamente. “Não custa tentar.” 

Ele me acompanhou até o ponto do ônibus, não podia ir porque tinha um exame nessa manhã. “E se deixássemos para depois?” Despedi-me. “Tem que ser agora.” Quando desci do ônibus fiquei na calçada olhando o velho prédio encardido e frio. Subi a escada. Um guarda veio ao meu encontro e pediu meus documentos. Entreguei-lhe a minha carteirinha de estudante e disse que viera fazer uma visita de solidariedade ao escritor. 

O guarda vistoriou a minha sacola, nenhuma arma? Olhou-me com uma expressão meio divertida e ordenou que o acompanhasse. No longo corredor que me pareceu sombrio, ele avisou, a visita teria que ser breve mesmo porque já tinha um visitante lá dentro. Entrei na saleta fria. Uma mesa tosca, algumas cadeiras de palhinha. Em torno da mesa, Monteiro Lobato de sobretudo preto, um longo cachecol de tricô enrolado no pescoço. 

Sentado ao lado, o visitante de terno e gravata, calvo, os olhos azuis. Monteiro Lobato levantou-se abotoando o sobretudo e veio ao meu encontro com um largo sorriso. Era mais franzino e mais baixo do que eu imaginava. Tinha os cabelos grisalhos bem penteados e o tom da pele era de uma palidez meio esverdeada, mas os olhos brilhavam joviais sob as grossas sobrancelhas negras. 

Ofereceu-me a cadeira que estava entre ambos. “Este aqui é um caro editor”, apresentou-o e disse o nome do editor que não guardei. Sem saber o que dizer, fui logo enumerando os seus livros que já tinha lido e que ocupavam uma prateleira da minha estante, “ah! as paixões da minha adolescência”: Narizinho Arrebitado, Tia Nastácia, o Jeca Tatu, as memórias daquela boneca de pano, a Emília, o Saci-pererê... Ele interrompeu-me com um gesto afetuoso, eu sabia que era avesso às homenagens e assim entendi a razão pela qual desviou a conversa, afinal seus personagens não eram culpados pela sua prisão, mas sim as cartas que andou escrevendo, ou melhor, as denúncias que andou fazendo através dessas cartas porque livros os governantes não liam mesmo. Deviam ler mas não liam e daí a ideia das cartas curtas e diretas. 

“Estou aqui no meio de bandidos, tinha que me calar ao invés de avisar que o petróleo é nosso. A mocinha já entendeu, hein? Sei que é estudante, mas o que está estudando?” Quando contei que estava na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, ele abriu os braços num gesto radiante, “Pois foi lá que eu me formei!. Só que na nossa turma não tinha meninas, só marmanjos. Ah! se tivesse aqui um vinho a gente poderia brindar estes doutores! Quer dizer que a mocinha vai advogar?” 

Comecei gaguejando, bem, era difícil explicar, eu era uma estudante pobre, queria me formar para ter um diploma e assim anunciar um bom emprego. Na realidade, queria ser escritora, escrever contos, romances... Monteiro Lobato voltou-se para o editor e tocou-lhe no ombro. “Olha aí, a mocinha é vidente! Já está sabendo que escrever neste país não dá dinheiro, escritor morre pobre e ignorado. Então ela é uma vidente!”, disse e tirou do bolso do sobretudo um pequeno bloco e uma caneta. “Vamos, deixe o seu nome e endereço, o meu amigo aqui vai lhe enviar algumas reedições dos meus livros, vamos, diga logo antes que o carcereiro apareça.” 

Ele debruçou-se na mesa para escrever e, quando lhe disse o meu primeiro nome, ele perguntou: “É com ‘y’, não?” Contei-lhe que escrevia com ‘i’ porque assim achava mais fácil mas minha mãe queria que eu escrevesse meu nome com ‘y’... Ele me olhou com severidade. “A sua mãe está certa, mocinha! Você acha mais fácil com ‘i’, mas desconfie sempre das facilidades, escrevendo com ‘y’ o nome fica com duas pernas porque ali está o ‘g’, melhor para as andanças essas duas pernas, está me compreendendo? As facilidades são sempre sedutoras, mas superficiais. Indague da origem do nome e veja que lá longe ele aparece com ‘y’.” 

Chegou o carcereiro que ficou em silêncio, rodando na mão a maçaneta da porta. Monteiro Lobato passou para o amigo a folha do bloco, levantou-se e me abraçou. Dirigiu-se ao carcereiro: “A doutora vai sair na frente, peço mais cinco minutos para tratar aqui com o amigo de um assunto urgente, é possível?” Fui na direção do carcereiro e saí sem olhar para trás. 

O apartamento onde eu morava com minha mãe era pequeno, e ainda assim ela resolveu convidar alguns colegas e amigos para um vermute, era o meu aniversário. Saiu para comprar pão e presunto para o sanduíche e quando voltou veio anunciar toda satisfeita que tinha encontrado ali na Rua 7 de Abril um escritor importante. O nome? Ah! não podia dizer, era uma surpresa, ele ficou de aparecer. Estava anoitecendo quando a campainha tocou. Abri a porta e ali estava Monteiro Lobato com um ramo de flores: “Vim pagar a visita que a mocinha me fez lá no presídio.”

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Entre contos e romances, relembre a obra de Lygia Fagundes Telles

Autora, que morreu neste domingo, aos 98 anos, publicou seus trabalhos entre 1938 e 2012

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2022 | 11h42

Lygia Fagundes Telles, a dama da literatura brasileira, morreu na manhã deste domingo, 3, aos 98 anos de idade. Com uma capacidade ímpar de se comunicar em público com o curioso das coisas literárias, deixou um vasto legado de obras, desde seu primeiro livro, Porão e Sobrado, publicado em 1938 e financiado pelo pai, até o mais recente, Um Coração Ardente, que já completa 10 anos de seu lançamento. 

Tornou-se nacionalmente conhecida pelo público com seu primeiro romance, Ciranda de Pedra, lançado em 1954. E também pela crítica - Antonio Cândido, por exemplo, considerava essa obra o marco de sua maioridade como escritora.

Contos como Antes do Baile Verde (1970), Seminário dos Ratos (1977), A Estrutura da Bolha de Sabão (1978), A Disciplina do Amor (1980), Mistérios (1981), A Noite Escura e Mais Eu (1998), Invenção e Memória (2000) também são uma ótima sugestão àqueles que pretendem conhecer um pouco mais da escrita da autora. 

Relembre a obra de Lygia Fagundes Telles abaixo:

Romances de Lygia Fagundes Telles

Ciranda de Pedra, 1954

Verão no Aquário, 1964

As Meninas, 1973

As Horas Nuas, 1989

Contos de Lygia Fagundes Telles

Porão e Sobrado, 1938

Praia Viva, 1944

O Cacto Vermelho, 1949

Histórias do Desencontro, 1958

Histórias Escolhidas, 1964

O Jardim Selvagem, 1965

Antes do Baile Verde, 1970

Seminário dos Ratos, 1977

Filhos Pródigos, 1978 (reeditado como A Estrutura da Bolha de Sabão, 1991)

A Disciplina do Amor, 1980

Mistérios, 1981

Venha Ver o Pôr do Sol e Outros Contos, 1987

A Noite Escura e Mais Eu, 1995

Oito Contos de Amor, 1996

Invenção e Memória, 2000

Durante Aquele Estranho Chá: Perdidos e Achados, 2002

Conspiração de Nuvens, 2007

Passaporte para a China: Crônicas de Viagem, 2011

O Segredo e Outras Histórias de Descoberta, 2012

Um Coração Ardente, 2012 

 

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Lygia foi quem melhor soube se comunicar em público com o curioso das coisas literárias

Escritora que morreu neste domingo, 3, aos 98 anos, tinha presença luminosa em público

Silviano Santiago, Especial para o Estadão

03 de abril de 2022 | 11h18

No dia 25 de janeiro de 1977, a escritora Lygia Fagundes Telles viaja a Brasília para entregar a Armando Falcão, ministro da Justiça, um manifesto assinado por 1046 intelectuais e artistas brasileiros. Está acompanhada da colega Nélida Piñon e do historiador Hélio Silva. No documento, pede-se o fim das restrições à liberdade de expressão e dos constrangimentos na criação artística. Estamos em pleno regime Geisel e, nos bastidores do Planalto, sova-se o "Pacote de Abril", a ser imposto à nação por decreto. O ministro se mostra indiferente ao teor reivindicativo do manifesto e afirma que, "com serenidade e firmeza", manterá o exercício da censura. Poucos conhecem essa faceta pública da notável ficcionista paulista.

No Rio de Janeiro, Carlos Drummond de Andrade lê os jornais do dia e por eles espreita os passos atrevidos de Lygia. Em carta datada de 16 de fevereiro, o amigo e admirador felicita-a pela coragem: "Estou acompanhando pelos jornais o movimento desencadeado pelos escritores e artistas, no qual você desempenha um papel de responsabilidade consciente, indo a Brasília para entregar o papel à fera". Em seguida, o mineiro matreiro matiza o ceticismo que lhe é proverbial (o poeta se abstivera de assinar o documento): "Era de se prever que o documento não modificasse a atitude do governo, mas um resultado positivo se alcançou: ele se sentiu obrigado a explicar-se, percebeu a importância do pronunciamento e pela primeira vez reconheceu a existência de uma opinião de classe contrária à censura".

Naquele início de ano, Drummond também acompanha a imagem de Lygia na telinha. Ouve suas palavras e, reminiscente das artimanhas do velho DIP, percebe o uso pelo arbítrio da tesoura e da mordaça. Ao final da carta citada, lamenta o exercício impune da serenidade e firmeza ministerial: "Incrível a mutilação do seu programa no Globo Repórter!" E acrescenta: "Mesmo assim, o que sobrou deu para se divulgarem algumas verdades. Gostei. E ver você na TV é uma maneira de matar saudades".

Num século em que com frequência o gosto pela política na madureza asfixia o encanto juvenil pelas artes, é extraordinário que a destemida mensageira da classe seja defensora do artesanato artístico e uma apaixonada da arte literária. Com obra ficcional admirada pelos pares e pelas novas gerações, Lygia é ainda quem melhor soube se comunicar em público com o curioso das coisas literárias. Posso atestar que, em auditórios localizados nos quatro cantos do País e do mundo, sua presença física é luminosa e suas palavras, apesar de serem rigorosas e valentes, são apreendidas e sorvidas com espanto e deleite em virtude da paixão que as sustem. Ao microfone ou em entrevista, não se esconde em evasivas. Oferece a espinhosa receita da iguaria que oferece: "Ler, ler, ler. Escrever, escrever, escrever, e rasgar muito. Eu rasguei muito". E, fincada nos mitos do dia, aconselha aos aspirantes ao estrelato: "Se você pretende ser dançarina, ou se você quiser ser a ginasta Daiane dos Santos, vai ter que trabalhar muito".

À participante política e defensora do trabalho de arte se soma a intelectual que reconhece o caráter discricionário do "chamado à literatura". Da perspectiva de quem quer ser autor, repetia, "escrever é uma vocação". Chamados haverá muitos, no entanto, poucos serão os escolhidos, reza a letra do Evangelho. Manifestação obscura da humildade e da esperança humanas, a vocação abre e acelera o mistério que une o caráter do escritor e suas palavras à sensibilidade e à mente do leitor. "Se não houvesse leitores, ainda assim você escreveria?", pergunta-lhe Edla Van Steen em 1981. Lygia rebate. O leitor e seu compromisso com a boa literatura são cria do estofo do escritor, do seu sangue. Explica-se: "Se o autor está oco ou desesperado, não vai conseguir a cumplicidade do seu próximo. Fará um trabalho esvaziado, morno". Lygia se perfila com Nietzsche. No capítulo "Ler e escrever", de Assim falava Zaratustra, está dito: "De tudo o que se escreve só gosto daquilo que se escreve com o próprio sangue. Escreve com o teu sangue e descobrirás que o sangue é espírito".

Ainda sobra alguma tinta na paleta do retratista, e não servirá para emprestar colorido apenas circunstancial à figura humana, embora assim se goste de creditá-lo. Lygia é mulher que, em sociedade patriarcal, adota três profissões de homem. Advogada, escritora e membro da Academia Brasileira de Letras. Modesta, a promotora pública destaca a preeminência das primeiras escritoras, elas sim, "verdadeiras malditas a arrebentarem seus espartilhos". Perspicaz, a artista de sucesso lembra como se desgastou o tópico crítico que julgava a escritora brasileira narcisista, preocupada com a própria face, com o umbigo. O desgaste do desdém crítico já transparece nas leituras consagradoras de Ciranda de Pedra (1954) e não se justifica por a romancista ter adotado uma escrita objetiva, tradicionalmente masculina, mas por ela ter ido até às raízes históricas do patriarcalismo e por nelas ter encontrado "a razão do feitio monologal e intimista" da escrita feminina. Irônica ou auto-irônica, a acadêmica acrescenta que não há que se ter vergonha de a “mulher-goiabada” ter sido estrela nas quermesses do interior paulista. E menos vergonha deve sentir a escritora por ter recebido dela a tradição de ensimesmamento no trato carinhoso com o alimento sob as chamas. Por pouco que a mulher-goiabada se distraísse, o doce pegava no fundo do tacho. O trabalho doméstico fundamentou as invenções do olhar criativo da mulher e as reenviava ao belo rosto afogueado pelo calor da invenção literária.

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Análise: A ficção de Lygia Fagundes Telles não tem essência, há que se aprender a conviver com ela

Aparentemente excessiva, a demanda concreta da autora se explica. Existe na sua ficção, como na filosofia de Albert Camus e na prosa de D. H. Lawrence, um cristianismo sem Deus

Silviano Santiago, Especial para o Estadão

03 de abril de 2022 | 12h28

Causa espanto o sucesso das adaptações da obra literária de Lygia Fagundes Telles pelos meios de comunicação de massa. Tanto nos contos quanto nos romances, ela traz para a literatura contemporânea brasileira o sentido do texto escrito de acordo com as formas de espetáculo privilegiadas pelas classes populares. Herdeira confessa de Machado de Assis, para quem o espetáculo da ficção se passa no palco da corte, onde se agigantam as emoções do drama burguês ou a mímica abusiva da ópera, Lygia decide eleger, à semelhança de peão afeito às lides agropecuárias, a arena de rodeio para surpreender os personagens humanos que, frente à fatalidade das forças espelhadas na fauna e na flora selvagens, se manifestam por trejeitos de desordem interior e por palavras e atos de rebeldia. O peão se faz, no entanto, pastor para conduzir os rebeldes à mão caridosa do bem, que os tornará ordeiros, mansos e disciplinados. Revolta frente às intempéries desonrosas da vida é a condição do ser na comunidade. Disciplina alcançada pelas artes fidalgas do amor é o destino da criação no planeta.

Lembremos Clarice Lispector, sua contemporânea e amiga: "Não ter nascido bicho parece ser uma de minhas secretas nostalgias. Eles às vezes clamam do longe de muitas gerações e eu não posso responder senão ficando desassossegada. É o chamado".

Em Lygia, a nostalgia de não ter nascido bicho tem como consequente "a inquietação" e "a raiva". Nesse alicerce dramático, a ficcionista ergue a rebeldia instintiva e a disciplina do amor como pilares da sua prosa. A rebeldia é a fome da nossa memória ancestral carente de verdade humana. Ela leva os humanos a competirem com a inclemência dos poderes infernais e divinos que modelam tudo e todos. Feita palavra, a rebeldia é motor da invenção ficcional. Recria artisticamente o mundo. É criação, no sentido absoluto do termo. "Lamber a cria, a gente dizia no mundo dos cachorros e gatos", gosta de lembrar quando é inquirida sobre a natureza do trabalho de arte. "Minha infância é inteira feita de cheiros", lê-se em As meninas (1973). Em Ciranda de pedra, Virgínia descobre: "Mais importante do que nascer é ressuscitar".

Se em última instância a revolta instiga e fomenta o caos na comunidade e no mundo, já a disciplina manifesta a soberania do amor no reajuste das relações entre a natureza e os homens, entre estes e ela e dos homens entre eles. Revolta e disciplina intercambiam seus papéis e seus valores em tramas ficcionais e se sucedem até na relação entre os vários contos dentro duma coleção. Porque simbólicas são definitivas as palavras que Lygia coloca à abertura do livro A Estrutura da Bolha de Sabão: "Fiz alterações nos textos, sou uma inconformada. As ficções desgarradas. Recolhidas e tosquiadas. O pastor junta o seu rebanho". O Evangelho, acrescento eu, nos ensinou que a ovelha desgarrada é a única a inspirar a compaixão do Senhor. Como escreveu Gregório de Matos: "não queirais, Pastor divino, / Perder na vossa ovelha a vossa glória".

Cara: revolta. Coroa: disciplina. Revolta ou disciplina? Revolta e disciplina. A ambivalência. Em depoimento, a romancista esclarece: "Quero que meu leitor seja parceiro-cúmplice nessa ambiguidade que é o ato criador. Ato que é desespero e apaziguamento. Ansiedade e celebração". Parodiando o poeta Murilo Mendes, digo que Lygia segura com sobrenatural elegância o fio que conduz da arena de rodeio ao Gólgota. Sem parodiá-lo, cito novamente Murilo: "Um ouvido resistente poderia perceber / o choque do tempo contra o altar da eternidade".

A ficção de Lygia Fagundes Telles não tem essência, a ser procurada pelo leitor. Há que se aprender a conviver com ela, como se convive com um gato, por exemplo. "O gato Astronauta me dava", lemos em As Meninas, "aulas diárias de preguiça e luxúria. Todo feito de delicadezas perigosas, o meu gato. Ou Demônio?" Assim o livro de Lygia e seu leitor. Em conferência em Paris, na Sorbonne, confidencia: "Não espero ser compreendida, espero ser lida. Se possível, amada - confessei a um leitor que parecia preocupado, gostava dos meus livros, mas muita coisa não conseguia compreender".

Aparentemente excessiva, a demanda concreta da autora se explica. Existe na sua ficção, como na filosofia de Albert Camus e na prosa de D. H. Lawrence, um cristianismo sem Deus. Vale dizer: a alma reside na carne, o espírito no sangue. Em depoimento, afirma: "Levanto a pele das personagens que é a pele das palavras, quero o mais íntimo, o mais secreto, e nessa busca me encontro". A escritora se encontra na pele que recobre a carne secreta da palavra ficcional e também a do personagem. Ela conhece o quilate do vocábulo e da cria e os reconhece como autênticos pelo que eles têm de pele que pulsa ao ritmo do coração. Todas as sensações e paixões dos seres viventes estão a nu e a descoberto na letra do livro. Estão à flor da pele.

Na prosa de Lygia, a sensualidade felina programa a criação de inúmeros e inesquecíveis personagens, de que a ficcionista, é inventariante incorruptível e zelosa colecionadora. Lembremos uma vez mais de Murilo Mendes. De versos do poema "Ofício humano": "As harpas da manhã vibram suaves e róseas. / O poeta abre seu arquivo - o mundo ?, / Vai retirando dele alegria e sofrimento / Para que todas as coisas passando pelo seu coração / Sejam reajustadas na unidade".

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Assista a entrevistas de Lygia Fagundes Telles ao 'Estadão'

Autora, que morreu neste domingo, aos 98 anos, 'hipnotizava' plateias com suas boas histórias e bom humor

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2022 | 11h53

A escritora Lygia Fagundes Telles, que morreu na manhã deste domingo, 3, aos 98 anos, era especialista em conceder entrevistas – sempre com boas histórias, ela hipnotizava plateias (ao vivo ou por imagens) com sua forma bem-humorada e muito humana de contar histórias. 

Relembre abaixo algumas das grandes entrevistas que Lygia concedeu à TV Estadão.

 

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Escritores lamentam morte e exaltam obra de Lygia Fagundes Telles

'Lygia era a grande dama não só da literatura mas da elegância e do carinho', disse Luiz Schwarcz; veja repercussão

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2022 | 14h35

Lygia Fagundes Telles morreu na manhã deste domingo, 3, aos 98 anos de idade, em São Paulo. Autora de uma vasta e cultuada obra, influenciou diversos escritores e recebeu homenagens e elogios ao longo da vida.

O Estadão colheu o depoimento de alguns nomes importantes da literatura nacional a respeito da perda.

Ignácio de Loyola Brandão relembra: "Era alegre. Sempre morri de inveja dos títulos que criava. Gosto de uma definição dela sobre nossos ofício: ‘Vocação, sim acredito em vocação, sortilégio e magia, que nos puxa pelos cabelos e nos empurra nesta direção, e não naquela, a fatalidade’". Para Milton Hatoum, "Lygia exerceu com  pleno domínio a arte do romance e da narrativa breve. Era uma iluminada".

"Lygia era a grande dama não só da literatura mas da elegância e do carinho. Carinho esse totalmente insubstituível", lamentou Luiz SchwarczSilviano Santiago destacou que o País "perdeu uma de suas maiores autoras", que era "sincera sem ser agressiva com ninguém". Sobre sua obra, Nélida Piñon avaliou: "Seus contos têm uma transparência e uma concretude raras. Também tinha as metáforas refinadas e importante participação nas campanhas cívicas: nunca deixou de se manifestar em eventos humanísticos."

A agente literária Lucia Riff relembrou encontros com a autora, e ressaltou: "Lygia foi uma mulher de vanguarda, uma feminista, forte e corajosa e deixou uma obra extraordinária." Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural, comentou: "Se, por um lado, perdemos mais uma mente generosa, inteligente e humanista, por outro, mantemos todas as palavras que nos ofereceu durante sua longa vida e nos deixou."

Em nota oficial, a Academia Brasileira de Letras, da qual Lygia fazia parte desde outubro de 1985, ocupando a cadeira 16, destacou que a escritora foi "considerada uma das grandes referências no pós-modernismo, tendo escrito obras que abordam temas diversos, como a morte, o amor, o medo e a loucura, além da fantasia". Já Daniel Munduruku, em postagem no seu Twitter, destacou que o legado de Lygia "viverá para sempre".

Confira a íntegra dos depoimentos abaixo. 

"Lygia estava com seus oitenta e tantos anos e enfrentava viagens aos lugares mais malucos deste País, com um entusiasmo inaudito. Não podíamos sair para fazer uma compra sem ela, morria de ciúmes. Canetas, lapiseiras cadernetas, postais. Tinha de ter o que tínhamos. Era alegre. Sempre morri de inveja dos títulos que criava: A Noite Escura e Mais Eu, As Horas Nuas, A Estrutura da Bolha de Sabão, O Seminário dos Ratos. Este tanto podia ser sobre a ditadura, como sobre os dias de hoje, Centrão, e adjacências. Gosto de uma definição dela sobre nossos ofício: ‘Vocação, sim acredito em vocação, sortilégio e magia, que nos puxa pelos cabelos e nos empurra nesta direção, e não naquela, a fatalidade’"

Ignácio de Loyola Brandão, escritor e jornalista.

"Lygia exerceu com  pleno domínio a arte do romance e da narrativa breve. Era uma iluminada. Sua obra permanecerá como uma das grandes da nossa literatura contemporânea."

Milton Hatoum, escritor. 

"Lygia era a grande dama não só da literatura mas da elegância e do carinho. Carinho que marcava sua relação com os leitores e leitoras, e também comigo e com todos na Companhia das Letras. Carinho esse totalmente insubstituível."

Luiz Schwarcz, editor e escritor

"Foi uma figura nacional. Grande escritora, grande brasileira, deixou exemplos positivos em tudo que participou. Foi grande no mundo contístico, no mundo romanesco. Seus contos têm uma transparência e uma concretude raras. Também tinha as metáforas refinadas e importante participação nas campanhas cívicas: nunca deixou de se manifestar em eventos humanísticos. Por fim, era generosa com seus colegas de ofício."

Nélida Piñon, escritora.

"Perdemos uma das nossas maiores autoras. Lygia, entre outras belas qualidades, era sincera sem ser agressiva com ninguém"

Silviano Santiago, escritor e crítico.

"Conheci a Lygia em 1984, na Editora Nova Fronteira, no início da minha carreira, e logo nos tornamos próximas. Quando a agência foi criada, em 1991, Lygia foi uma das primeiras autoras que passamos a representar. Em 2005, vivemos um momento lindo, quando estivemos em Portugal para a cerimônia de entrega do Camões. Toda vez que ia a São Paulo, nos encontrávamos e era sempre uma inspiração para mim que tive o privilégio de conviver com ela. Lygia foi uma mulher de vanguarda, uma feminista, forte e corajosa e deixou uma obra extraordinária."

Lucia Riff, agente literária.

“Se, por um lado, perdemos mais uma mente generosa, inteligente e humanista, por outro, mantemos todas as palavras que nos ofereceu durante sua longa vida e nos deixou. Recordo com carinho, ações nossas em que ela participou, tendo como guia seu livro Invenção e Memória, que escreveu aos 85 anos e tanto nos impactou com seus contos e dimensões diversas da realidade”

Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural.

"Dia de luto. Perdemos a gigante Lygia Fagundes Telles, uma das maiores referências da nossa literatura. Meus sentimentos aos familiares e amigos. Seu legado viverá para sempre."

Daniel Munduruku, escritor, em seu Twitter.

Veja também a íntegra da nota divulgada pela Academia Brasileira de Letras na tarde deste domingo, 3.

"A Acadêmica e escritora Lygia Fagundes Telles morreu de causas naturais na manhã do dia 3 de abril, aos 98 anos,em São Paulo. Uma das maiores representantes da literatura brasileira, Lygia era a quarta ocupante da Cadeira nº 16 da Academia Brasileira de Letras, tendo sido eleita em outubro de 1985, na sucessão de Pedro Calmon. 

Lygia Fagundes Telles recebeu vários prêmios ao longo da carreira, tais como o Camões (2005),  Jabuti (1966, 1974 e 2001 e o Guimarães Rosa (1972). Possui obras traduzidas para o alemão, espanhol, francês, inglês, italiano, polonês, sueco, tcheco, português de Portugal. Contribuiu para diversas áreas da cultura, com adaptações para o cinema, teatro e TV. Escreveu, por exemplo, "Ciranda de pedra", obra publicada em 1954. O livro foi adaptado para televisão em 1986, pela TV Globo, em formato de novela escrita por Janete Clair, com a colaboração de Dias Gomes. Foi também uma das autoras do manifesto dos intelectuais contra a censura.

É considerada uma das grandes referências no pós-modernismo, tendo escrito obras que abordam temas diversos, como a morte, o amor, o medo e a loucura, além da fantasia. Seu primeiro livro de contos, “Porões e sobrados”, foi publicado em 1938. 

A Acadêmica

Lygia Fagundes Telles nasceu em São Paulo no dia 19 de abril de 1923.  Foi casada com o crítico de cinema, professor e ensaísta Paulo Emílio Salles. Considerada por acadêmicos, críticos e leitores uma das mais importantes e notáveis escritoras brasileiras do século XX e da história da literatura brasileira. Graduada em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e, em 1939, cursou o pré-jurídico e a Escola Superior de Educação Física na mesma universidade. Além de advogada, romancista e contista, tem grande representação no pós-modernismo. 

Alguns de seus livros mais importantes são “Antes do Baile Verde” (1970), cujo conto que dá título ao livro recebeu o Primeiro Prêmio no Concurso Internacional de Escritoras, na França. “As Meninas” (1973), romance que recebeu os Prêmios Jabuti, Coelho Neto, da Academia Brasileira de Letras, e “Ficção” da Associação Paulista de Críticos de Arte. “A Disciplina do Amor” (1980) recebeu o Prêmio Jabuti e o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte. O romance “As Horas Nuas” (1989) recebeu o Prêmio Pedro Nava de Melhor Livro do Ano. A consagração definitiva veio com o Prêmio Camões, distinção maior em língua portuguesa pelo conjunto de obra, em 2005.

Foi procuradora do Instituto de Previdência do Estado de São Paulo, cargo que exerceu até a aposentadoria, e presidente da Cinemateca Brasileira, fundada por Paulo Emílio Sales Gomes. Além da Academia Brasileira de Letras, foi membro da Academia Paulista de Letras. Participou de feiras de livros e congressos realizados não só no Brasil, mas também em Portugal, Espanha, Itália, México, Estados Unidos, França, Alemanha, República Tcheca, Canadá e Suécia, países nos quais foram publicados seus contos e romances."

* Atualizada às 14h50 de 3 de abril de 2022.

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