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Morre a escritora Lya Luft aos 83 anos

Poeta, romancista e cronista deixa obra prolífica e legado para novas gerações

Matheus Lopes Quirino, O Estado de S. Paulo

30 de dezembro de 2021 | 12h34

A escritora Lya Luft morreu na manhã desta quinta-feira, 30, em sua casa em Porto Alegre, aos 83 anos, vítima de um câncer.  Diagnosticada em maio com um melanoma, um tipo agressivo de câncer de pele que já havia produzido metástase, a autora de Pensar É Transgredir foi liberada no dia 21 para ficar em casa com a família, como informou o jornal Zero Hora, publicação que a tinha como colunista. 

Autora de grandes sucessos, como Perdas e Ganhos, de 2003, que vendeu quase um milhão de exemplares, ela lançou em 2020 As Coisas Humanas – um compêndio com reflexões sobre a morte dedicado a seu filho André, que morreu aos 51 anos, em 2017, enquanto surfava. 

Nascida em Santa Cruz do Sul em 1938, Lya Luft estreou na ficção em 1964 com Canções de Limiar. Ao longo de sua trajetória, publicou mais de 30 livros e traduziu para o português clássicos universais de autores como Hermann Hesse, Rainer Maria Rilke e Virginia Woolf. "Lya era escritora de uma sensibilidade enorme. Suas palavras sempre impactavam seus leitores, trazendo reflexões e sabedoria. Lembro de um trecho do 'Perdas & ganhos' em que ela pergunta se o Anjo da morte bater na sua porta o que você dirá para ele não te levar? As razões que você dará para que ele te dê mais tempo ainda nesta terra. O Anjo chegou, e as palavras para convence-lo se calaram. Perde o Brasil uma das suas maiores cabeças pensantes", lamenta Sonia Machado Jardim, presidente do Grupo Editorial Record, editora da autora. 

Formada em Letras Anglo-germânicas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), Luft era considerada uma das grandes escritoras brasileiras do século 20 e deixa uma obra poética que influenciou contemporâneas e aspirantes da nova geração literária do País. 

Com sua escrita potente, elogiada pela imortal Nélida Piñon, ela escreveu poemas como Delírio: “Apesar do medo/escolho a ousadia./ Ao conforto das algemas, prefiro/ a dura liberdade./ Voo com meu par de asas tortas,/ sem o tédio da comprovação./ Opto pela loucura, com um grão/ de realidade:/ meu ímpeto explode o ponto,/ arqueia a linha, traça contornos/ para os romper./ Desculpem, mas devo dizer: eu quero o delírio.” 

Ela também escreveu, para diversos veículos, crônicas e artigos sobre literatura e sociedade e ganhou destaque em 2020 quando declarou que se arrependeu de votar em Bolsonaro.

Em uma entrevista concedida ao Estadão em 2016, para o Dia do Idoso, ela disse: “Curto a vida do jeito que dá. Na velhice a gente tem mais tranquilidade e liberdade, faz e diz coisas que não faria antes. Antes eu recebia uma crítica ruim e ficava mal por três dias. Hoje eu nem leio.” E continuou: “Vivemos sob uma ditadura de receitas e obrigações: ser jovem, atlético, transar tantas vezes por semana. Mas pera aí, deixa cada um ser como é. Nem todo mundo gosta de Paris.” 

Conhecida pela franqueza e a prosa ágil ao tratar da vida mundana, Luft escreveu ainda sobre o comportamento da sociedade brasileira, a condição da mulher moderna e, claro, sobre literatura, tema tratado em diversos livros, como em Um Rio que Corre (1996).

 

VIDA E PRÊMIOS.

Lya Luft foi casada com o psicanalista e escritor mineiro Hélio Pellegrino (1924-1988) e, depois, com o linguista Celso Luft (1921-1995). Em 2013, levou o prêmio da Academia Brasileira de Letras na categoria ficção, romance, teatro e conto por O Tigre na Sombra. Em 1996, recebeu o prêmio de ficção da Associação Paulista dos Críticos de Arte, um dos mais importantes do País. 

Trechos de sua obra viralizaram nas redes sociais, sendo muitos deles verídicos, outros falsamente atribuídos à autora de best-sellers como Perdas e Ganhos. Lya Luft era um dos principais nomes do catálogo da editora Record.

O corpo da escritora foi velado em uma cerimônia restrita à família e amigos. Lya Luft deixa o marido Vicente de Britto Pereira, os filhos Susana e Pedro e sete netos e netas.

 

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