Joel Rufino dos Santos foi indicado três vezes para o Hans Christian Andersen, o Nobel da literatura infantojuvenil FABIO MOTTA/ESTADÃO
Joel Rufino dos Santos foi indicado três vezes para o Hans Christian Andersen, o Nobel da literatura infantojuvenil FABIO MOTTA/ESTADÃO

Morre, no Rio, o escritor e historiador Joel Rufino dos Santos

Especialista em cultura africana, ele era autor de inúmeras obras infantojuvenis, além de títulos sobre história e ciências sociais

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

04 de setembro de 2015 | 14h01

(Atualizada às 20 horas)

A morte do escritor, historiador e professor carioca Joel Rufino dos Santos ontem, aos 74 anos, no Rio de Janeiro, deixa o país menos inteligente. É o mínimo que se pode dizer do intelectual que promoveu uma revolução na historiografia brasileira ainda jovem, ao ser convidado pelo historiador Nelson Werneck Sodré (1911-1999) para participar da coleção História Nova do Brasil, em 1963. Joel Rufino dos Santos morreu de complicações cardíacas, em decorrência de uma cirurgia realizada no dia 1º. Ele estava internado da Clínica de Saúde de São José, no Rio. Seu corpo foi cremado ontem, em cerimônia reservada a parentes.

Nascido no subúrbio carioca de Cascadura, em 1941, filho de um operário naval e uma costureira, pernambucanos descendentes de negros e índios fulniô, Joel Rufino dos Santos foi uma das vozes vigorosas que, nos anos 1980, ensinaram os brasileiros a valorizar a cultura africana, ainda na fase embrionária do movimento negro. Seja como historiador ou literato, seu papel foi fundamental no desenvolvimento da consciência negra - ele dizia acreditar mais na literatura que na história como instrumento capaz de contar a saga do povo brasileiro, especialmente das minorias.

Premiado três vezes com o Jabuti e autor de mais de 50 livros, ele começou sua carreira de historiador nos anos 1960, como estagiário do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), que ganhou força com a eleição de JK e foi extinto pela ditadura militar. Aliás, o lançamento de História Nova do Brasil, em 1963, foi seu batismo de fogo. A coleção começou a sair no fim desse ano e, em 1964, foi apreendida, sendo depois proibida. Aberto um inquérito, seus autores foram acusados de subversivos por um conselho que alegou ser a edição uma tentativa de comunizar o ensino da história.

Na época, Rufino dos Santos e os outros estagiários do Iseb estavam, de fato, impressionados com Capitalismo e Escravidão, do historiador Eric Williams, nascido em colônia britânica e afrodescendente. Como Williams, a visão do historiador brasileiro sobre a abolição foge da interpretação canônica sobre esse processo (ele retomou o tema em 2008, no livro infantojuvenil Na Rota dos Tubarões, em que mostra o processo da perda de identidade do africano em nosso país). Os militares não gostaram nada dessa história, ainda mais interpretada por um autor filiado ao Partido Comunista. Com o golpe, Joel Rufino caiu fora do PC e mudou-se para São Paulo, onde adotou um codinome, em 1966, Pedro Ivo dos Santos, ganhando a vida como professor de cursinho.

Em 1972 ele foi preso por militar na Aliança Libertadora Nacional, cumpriu dois anos e saiu de São Paulo em 1978, ano da publicação de seu quarto livro infantojuvenil, Uma Estranha Aventura em Talalai. Por ironia, o herói de seu livro é um marinheiro que, num dia de tempestade, aporta numa vila cujos moradores são hostis à presença de forasteiros. Ele enfrenta a desconfiança e arrisca a vida para ensinar os ilhéus a construir uma jangada mais veloz.

Além dos livros infantojuvenis e de não ficcão - entre eles a história de Zumbi (1985) e da escritora negra Carolina Maria de Jesus (2009) - ele colaborou em duas minisséries para a TV: Abolição (1988) e República (1989). Seu livro mais recente foi publicado em 2014, A História do Negro no Teatro Brasileiro.

"Joel foi fundamental em seus romances históricos, usando a história para escrever ficção”

Alberto da Costa e Silva, historiador

"O Joel Rufino era um ‘tio cultural’ para meus filhos. Tentei ligar para ele. Senti que algo não estava bem”

Milton Gonçalves, ator

 

Grandes obras

 'Zumbi'

Na biografia do líder negro, o historiador conta a criação, a luta de resistência e a queda do quilombo de Palmares.

'A História do Negro no Teatro Brasileiro'

O autor destaca, entre outros, a presença do Teatro Experimental do Negro, fundado por Abdias do Nascimento em 1945, marco histórico no palco brasileiro.

'Crônica de Indomáveis Delírios'

Romance em que ele imagina o que teria acontecido se Napoleão viesse ao Brasil. Na segunda parte, ele fala da revolta da malé. 

'Gosto de África'

Por meio de histórias relacionadas às tradições africanas, Joel Rufino leva a refletir sobre a formação cultural do Brasil.


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